Stalinismo e anti-stalinismo? — Parte 1

Artigo no Die Rote Fahne, jornal do Partido Comunista Alemão (DKP)

No começo de um artigo que faz uma avaliação política de Stalin, primeiro deve-se concordar com os termos usados. Se notamos que há um “marxismo” ou um “leninismo”, é ingênuo assumir que a observação sugere haver um “stalinismo” lógico. Apesar de existirem camaradas que orgulhosamente se consideram stalinistas, é preciso notar que o termo “stalinismo” tem uma origem burguesa e é provido de conteúdo negativo. Atribui-se aos termos “marxismo” e “leninismo” principalmente os benefícios teóricos dos mesmos, enquanto “stalinismo” é descrito como despotismo sanguinário e falsificador dos princípios leninistas. Assim, é necessário afirmar que “stalinismo” é um termo da luta burguesa, que pode encontrar um lugar no vocabulário da esquerda marxista. Ao invés disso, o lógico é falar em anti-stalinismo, como fez Kurt Gossweiler no seminário internacional do partidos comunistas e de trabalhadores em Bruxelas, 1º de Maio de 1994.

Deve ser clarificado agora o conteúdo desse termo burguês e que função ele tem.

O termo Stalinismo leva a revisões parcialmente gerais e revisões parcialmente específicas. No caso geral, é de se notar que qualquer revolução custará a vida de pessoas inocentes, como tem custado já, e que qualquer revolucionário é mostrado pela contrarrevolução como um “assassino”: Müntzer, Cromwell, Robespierre, Lenin, Liebknecht, Luxemburgo e… Stalin.

No caso específico, as condições para a formação e desenvolvimento dos Processos de Moscou, que são exibidos pela burguesia como “Anos de Terror” ou “O Grande Expurgo”. Em um período historicamente curto depois da Grande Revolução Socialista de Outubro, a União Soviética se transformou em uma potência industrial, cultural e militar nas mais difíceis circunstâncias. Para o desenvolvimento do país, foi necessário desenvolver no menor tempo possível o nível educacional do povo e a economia (particularmente a indústria pesada), para então assegurar o crescente padrão de vida do povo soviético e a capacidade defensiva do país contra a agressão imperialista. Stalin chamou atenção para essa questão em um discurso de 4 de fevereiro de 1931 diante de oficiais da economia, como segue: “Estamos ficando para trás dos países avançados por 50 a 100 anos, devemos diminuir essa distância em 10 anos ou seremos esmagados…” (Stalin, Obras Completas, Vol. 13, p.36).

Era evidente ainda naquele tempo que um confronto militar com a superpotência beligerante, o Império Alemão, estava fermentando. Havia também o aparato militar de diversos colaboradores do nazismo. No aparato político, havia grupos anti-partido do lado da esquerda – e desvios de direita. O jovem Estado soviético lutou por sua existência contra a contrarrevolução interna e contra inimigos externos, e teve de aplicar medidas repressivas contra os ataques anti-comunistas da esquerda à direita. Como o aparato do antigo Estado teve de ser destruído, os quadros com as habilidades necessárias para serem empregados em posições gerenciais eram raros. Nessa situação, infiltraram diversos aproveitadores nas rodas da revolução. Mencheviques, socialistas-revolucionários (do Partido Socialista Revolucionário), anarquistas, agentes pagos disfarçados de revolucionários, criminosos e mesmo pessoas como Trotsky, que se manteve antes da revolução em oposição política a Lenin. Isso gerou descontrole, desconfiança e resistência na liderança política. Essa situação também explica a luta pela unidade e pureza do partido e essa ideia não veio de Stalin, mas de Lenin.

De acordo com observadores estrangeiros, os Processos de Moscou foram conduzidos de maneira justa. A opinião da maioria dos diplomatas que atenderam às negociações era de que foi comprovado que os acusados claramente eram conspiradores com o propósito de eliminar o governo e assim a ofensiva da traição se tornou conhecida. Entretanto, também era conhecida a ideia de que os processos foram puramente produções, o que foi considerado como apropriado por alguns observadores com fins propagandísticos. Os Processos de Moscou foram entendidos como uma preparação para a guerra, tendo em vista o incipiente ataque fascista. Os eventos em Moscou devem então ser considerados numa relação causal. Através dessa limpeza, a quinta-coluna foi impedida de atuar na Rússia.

Dois artigos sobre a semifeudalidade no Brasil

Agronegócio: o Colonialismo da atualidade e o fortalecimento do latifúndio — Jornal Estudantes do Povo número 6

camponeses3Estamos assistindo o governo Lula/FMI utilizar os monopólios de comunicação para fazer uma intensa propaganda sobre “crescimento e desenvolvimento econômico” do Brasil. A menina dos olhos, utilizada para alardear este suposto crescimento, é o chamado “Agronegócio”, a velha monocultura para exportação apresentada como a modernização e desenvolvimento do capitalismo no campo. A verdade, porém, é que nem existe um grande crescimento econômico em nosso país, nem a modernização do plantio da soja representa um desenvolvimento da estrutura agrária brasileira. O que há, por de trás desta propaganda do “Agronegócio”, é um fortalecimento ainda maior do latifúndio semi-feudal, que mantém os camponeses pobres na mais completa miséria e debaixo de intensa repressão.

O governo Lula-FMI argumenta que o Brasil é muito grande, e por isto existe espaço para “todo mundo”, para o “Agronegócio”, para a “agricultura familiar” e para a “Reforma Agrária”. O discurso é este, que existe espaço para todos, mas na prática a opção da gerência petista é pelos latifundiários, em 2004 o governo repassou 37 bilhões para o “agronegócio”, 7 bilhões para financiar a pequena produção e menos de 1 bilhão para a reforma agrária. Em dois anos o governo Lula/FMI assentou menos que FHC no mesmo período e para tentar enrolar os camponeses pobres em luta, afirma que “o que importa não é a quantidade de assentamentos, mas sim sua qualidade”. Porém a paciência não dura para sempre. A necessidade de terra para plantar e sobreviver empurrará cada vez mais milhares de camponeses a tomar as terras do latifúndio para produzir.

Ao contrário do que é propagandeado, o crescimento do chamado “Agronegócio” no Brasil não representa nenhum fortalecimento da economia nacional, ao contrário, trata-se de uma imposição dos monopólios internacionais que compram produtos básicos a preços insignificantes, que eles mesmos estabelecem. Isto não é novidade na história do Brasil. Secularmente a economia brasileira esteve baseada na exportação, seja de gêneros agrícolas, ou matérias primas. Foi assim com a cana de açúcar, com o ouro e diamantes, com o café, o cacau, a borracha e o minério de ferro. Em todos os exemplos que pudermos citar o que houve foi uma verdadeira sangria das riquezas produzidas no nosso país, direcionada aos países colonialistas ou imperialistas.

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Para uma crítica da categoria de totalitarismo — Domenico Losurdo

Para uma crítica da categoria de totalitarismo

Domenico Losurdo

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Uma categoria polissêmica

Em 1951, no momento que Hanna Arendt publicou The Origins of Totalitarianism, o debate sobre o totalitarismo vinha se travando havia uma década. Entretanto, o significado do termo ainda não estava bem definido. Como orientar-se naquilo que, à primeira vista, aparecia como um labirinto? Aqui, faço abstração das ocorrências em que o adjetivo “totalitário”, mais ainda do que o substantivo, tem uma conotação positiva, concernente à capacidade atribuída a uma religião ou a qualquer ideologia ou visão do mundo de dar resposta a todos os múltiplos problemas resultantes de uma dramática situação de crise e às próprias indagações sobre o sentido da vida, que empenham o homem em sua totalidade. Ainda em 1958, embora rejeitando o “totalitarismo legal”, isto é, imposto pela lei, Barth celebrava nos seguintes termos a dinâmica universalista e a eficácia onisciente da “mensagem” cristã: “Totalitária, na medida em que visa ao todo,em que exige cada homem e o exige totalmente para si, também é a livre graça do evangelho”. [1]

Concentremo-nos sobre o debate mais propriamente político. Podemos distinguir dois filões principais. Na Dialética do iluminismo, Horkheimer e Adorno se ocupam bem pouco da URSS. Além do Terceiro Reich, o discurso versa sobre o “capitalismo totalitário”: “Primeiro, só os pobres e selvagens estavam expostos às forças capitalistas. Mas a ordem totalitária estabelece completamente, em seus direitos, o pensamento calculista e atém-se à ciência enquanto tal. Seu cânone é sua própria eficiência cruel” [2]. Aqui, as etapas preparatórias do nazismo são identificadas na violência perpetrada pelas grandes potências ocidentais contra os povos coloniais e aquela consumada, no próprio coração das metrópoles capitalistas, contra os pobres e os marginalizados reclusos nos abrigos de desempregados. Não é distinta a orientação de uma autora também influenciada pelo marxismo. Se, por vezes, aproxima a Alemanha hitleriana e a União Soviética staliniana, Simone Weill denuncia o horror do poder total, do totalitarismo, com o olhar, sobretudo, fixado na dominação colonial e imperial: “A analogia entre o sistema hitleriano e a antiga Roma é surpreendente a ponto de levar a acreditar que, após dois mil anos, só Hitler teria sabido copiar corretamente os romanos” [3]. Entre o Império romano e o Terceiro Reich coloca o expansionismo desenfreado e sem peias de Luís XIV: “O regime estabelecido por ele já merecia, pela primeira vez na Europa depois de Roma, a designação moderna de totalitário”; “a atroz devastação do Palatinato (da qual são culpadas as tropas conquistadoras francesas) sequer teve a desculpa das necessidades da guerra” [4]. Procedendo retrospectivamente em relação à antiga Roma, Weill efetua uma leitura em registro proto-totalitário do episódio do Antigo Testamento da conquista de Canaã e do aniquilamento de seus habitantes.

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Dimitrov sobre a dissolução da III Internacional — Kurt Gossweiler

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VII Congresso da Internacional Comunista, em 1935

Kurt Gossweiler é o especialista mais reputado da história do fascismo alemão. É também um especialista da história do revisionismo no seio do movimento comunista internacional. (www.kurt-gossweiler.de)

O presente texto foi originalmente publicado no Weiseneer Blätter, 4.º trimestre, 2001. Todas as indicações de páginas referem-se aos escritos de Georgi Dimitrov, intitulados Diário 1933- 1943, publicado em alemão por Bernard H. Bayerlein. Traduzido do russo e do búlgaro por Vladislav Hedeler e Brigit Schievenz, Edição Aufbau, Berlim 2000.

O presente texto é a segunda parte de um artigo surgido na revista Les dossiers do BIP, n.º 89, em Dezembro de 2002. Estes dossiers estão editados pelas Edições Démocrite, bd Roger Salengro 52, 93190 Livry-Gargan, França. E-mail: democrite@wanadoo.fr


Nota do Editor (Para a História do Socialismo):

As citações do Diário de Dimitrov foram cotejadas com a sua versão em russo no artigo de V.V. Marina, “Dimitrov e os líderes do Kremlin”, publicado na revista Mejdunarodni Istoritcheskoi Jurnal, n.º 12, Novembro/Dezembro de 2002, http://history.machaon.ru/all/number_12/istori4e/dimitrov/index.html.


 

Dimitrov sobre a dissolução da III Internacional

Numa discussão com destacados camaradas do DKP sobre a dissolução do Bureau de Informação Comunista por Kruschev, durante a qual caracterizava esta dissolução como uma das medidas através das quais Kruschev, introduziu no movimento comunista o “nacional comunismo”, propagandeado pelo partido de Tito [1], em lugar do princípio marxista-leninista do internacionalismo proletário, foi-me respondido:

Então, deves dirigir essa crítica, em primeiro lugar, a Stalin, pois foi ele que, em 1943, ordenou diretamente, sem perguntar nada a ninguém, a dissolução da Internacional Comunista, infligindo assim um duro golpe no movimento comunista!

Esta perspectiva sobre a dissolução do Komintern, dominante quer no DKP quer no PDS, e ainda mais em todos os partidos e grupelhos trotskistas, tem tão pouco a ver com a verdade como as lendas tratadas nos capítulos anteriores e refutadas com a ajuda das notas do diário de Dimitrov. [2]

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O marxismo, a questão LGBT e a falta de dialética dos conservadores de “esquerda” (nazbols e afins)

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1. O antagonismo de classe como contradição principal e sua relação com as contradições secundárias

O marxismo caracteriza-se por ser a expressão política e teórica da classe trabalhadora na luta contra a burguesia e pelo socialismo (com base na ciência), mas isso significa que ele se resuma às pautas de classe? Com certeza não, sendo uma sociedade humana algo muito complexo para se limitar a somente uma única contradição – existem, na verdade, várias.

Existe uma contradição principal, com um aspecto central, e várias contradições secundárias conduzidas pela principal (mas não são totalmente determinadas por ela), que numa sociedade capitalista é a contradição de classe. São contradições secundárias aquelas entre o imperialismo e suas colônias, entre camadas da burguesia, entre heterossexuais e outras orientações sexuais, entre homens e mulheres, entre “brancos” e “não-brancos”, e assim por diante.

A pauta de classe é, também, antagônica, porque burgueses e proletários estão necessariamente em posições sociais opostas, com interesses conflitantes, etc. Diferente das contradições não-antagônicas, como essas citadas.

O antagonismo de classe reflete em todos os aspectos da vida social, até mesmo dentro de cada partido comunista, que leva ao surgimento de facções que adotam métodos corretos ou incorretos. Com os movimentos sociais não poderia ser diferente: existem grupos variados, uns que surgem do seio da burguesia e outros do seio do proletariado. Geralmente estes atuam dentro de partidos comunistas, e não se pode acusá-los nesse caso de deixarem a pauta de classe de lado.

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Sobre a crise política

O momento atual exige uma autocrítica dos apoiadores do “projeto democrático popular” e da conciliação de classes, pois o que se coloca explicitamente diante dos nossos olhos é a prova cabal das falhas desse projeto político reformista.

A maioria dos governistas que até ontem gritavam com alegria “Temer! Temer! Temer!”, estão tentando isentar o partido de qualquer tipo de crítica, o que é extremamente grave de acontecer em um partido – e principalmente em um partido de massas. Existe uma fração conciliadora – encabeçada por Lula e Dilma – que se tornou hegemônica no PT e outras correntes já viram que não existe saída para esse bloco que se formou, que defendeu alianças com Paulo Maluf, Fernando Collor, José Sarney, Marco Feliciano, Jader Barbalho, Kátia Abreu, Edir Macedo, Joaquim Levy, Eduardo Paes, Garotinho, acordos entre Haddad e Alckmin, etc.

Aplaudiram a repressão aos manifestantes da Copa, fecharam os olhos para os presos políticos, estiveram pouquíssimo preocupados com a reforma agrária, com a questão indígena, do aborto. Dilma entregou o Pré-Sal e vetou a auditoria da dívida. Ainda assim, não tiram o termo Dilmãe de seu vocabulário político. Vemos que ainda hoje a centro-esquerda continua tratando manifestações como brincadeira. Além de tentarem aparelhar qualquer uma que tenha sua presença; da última vez que isso virou notícia, foi no 8 de março desse ano, em que até homens agrediram uma feminista que criticou o governo federal no carro de som.

Cito também a falta de uma política fortemente contrária ao imperialismo – um fato bem simbólico foi quando Barack Obama disse que Lula era “o cara”; será que diria o mesmo de Hugo Chávez, Vladimir Putin, Kim Jong-un ou qualquer chefe de Estado que é uma pedra no sapato dos EUA?

Depois do mesmo fazer o tanto de ataques aos trabalhadores, indígenas, LGBT, até às mulheres e negros apesar da nova propaganda de “representatividade” ministerial, querem o apoio da nossa oposição? A esquerda brasileira precisa superar o projeto político que o PT representou aqui, que é o do reformismo e da conciliação com grandes empresas, bancos, latifúndios e com o imperialismo. O que muda hoje é que essa conciliação será maior, mas como ela já aconteceu com enormes concessões, deu no que deu.

De mim, continuarei fazendo o mesmo desde que me entendo como agente político, que é me manter do lado da minha classe, a trabalhadora.