Estratégia para a Libertação da Palestina – XV. O Partido e as Massas

O documento Estratégia para a Libertação da Palestina foi publicado pela Frente Popular para a Libertação da Palestina em Fevereiro de 1969. Foi traduzido naquela época pelo Departamento de informação da FPLP e circulou largamente em inglês e outros idiomas.

Esse compreensivo documento político e organizacional foi preparado pelo II Congresso da FPLP.


O Partido e as Massas

O partido é a liderança das massas. Consequentemente, os membros e líderes do partido devem vir de elementos conscientes imbuídos de entusiasmo pela ação e estão dispostos a aceitar o sacrifício, observar a disciplina e agir de acordo com os regulamentos e a política da organização. O partido deve velar para que seus membros em geral constituam um exemplo e uma vanguarda na consciência, atividade, sacrifício e disciplina. Se o partido e seus membros perderem essas qualidades, naturalmente, ela perde seu papel de organização política revolucionária. No entanto, na medida em que o partido revolucionário deve manter-se como uma organização de elementos conscientes, ativos, leais e disciplinados, deve ser, ao mesmo tempo, uma organização para as massas, emanando deles, vivendo no meio deles, lutando por suas causas, contando com eles e percebendo seus objetivos através e com eles e em seu interesse.

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Marx e Engels e as perspectivas de revolução na Rússia

É aparente que Marx e Engels eram extremamente bem informados sobre a posição do movimento russo e da sociedade russa em geral. Um boato burguês ainda está por aí afirmando que Marx e Engels “não previram que a revolução ocorreria primeiro em um país atrasado como a Rússia, e não em um país capitalista desenvolvido, como a Inglaterra ou a Alemanha”.

É verdade, com certeza, que nos escritos mais antigos, tanto Marx quanto Engels não apenas esperavam, também pensavam que muito provavelmente a revolução proletária se desenvolveria em países em que o capitalismo estivesse totalmente desenvolvido. Mas na metade, e especialmente no fim de suas vidas e carreiras, ambos previram corretamente que o elo fraco estaria provavelmente na Rússia:

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Para uma crítica da categoria de totalitarismo — Domenico Losurdo

Para uma crítica da categoria de totalitarismo

Domenico Losurdo

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Uma categoria polissêmica

Em 1951, no momento que Hanna Arendt publicou The Origins of Totalitarianism, o debate sobre o totalitarismo vinha se travando havia uma década. Entretanto, o significado do termo ainda não estava bem definido. Como orientar-se naquilo que, à primeira vista, aparecia como um labirinto? Aqui, faço abstração das ocorrências em que o adjetivo “totalitário”, mais ainda do que o substantivo, tem uma conotação positiva, concernente à capacidade atribuída a uma religião ou a qualquer ideologia ou visão do mundo de dar resposta a todos os múltiplos problemas resultantes de uma dramática situação de crise e às próprias indagações sobre o sentido da vida, que empenham o homem em sua totalidade. Ainda em 1958, embora rejeitando o “totalitarismo legal”, isto é, imposto pela lei, Barth celebrava nos seguintes termos a dinâmica universalista e a eficácia onisciente da “mensagem” cristã: “Totalitária, na medida em que visa ao todo,em que exige cada homem e o exige totalmente para si, também é a livre graça do evangelho”. [1]

Concentremo-nos sobre o debate mais propriamente político. Podemos distinguir dois filões principais. Na Dialética do iluminismo, Horkheimer e Adorno se ocupam bem pouco da URSS. Além do Terceiro Reich, o discurso versa sobre o “capitalismo totalitário”: “Primeiro, só os pobres e selvagens estavam expostos às forças capitalistas. Mas a ordem totalitária estabelece completamente, em seus direitos, o pensamento calculista e atém-se à ciência enquanto tal. Seu cânone é sua própria eficiência cruel” [2]. Aqui, as etapas preparatórias do nazismo são identificadas na violência perpetrada pelas grandes potências ocidentais contra os povos coloniais e aquela consumada, no próprio coração das metrópoles capitalistas, contra os pobres e os marginalizados reclusos nos abrigos de desempregados. Não é distinta a orientação de uma autora também influenciada pelo marxismo. Se, por vezes, aproxima a Alemanha hitleriana e a União Soviética staliniana, Simone Weill denuncia o horror do poder total, do totalitarismo, com o olhar, sobretudo, fixado na dominação colonial e imperial: “A analogia entre o sistema hitleriano e a antiga Roma é surpreendente a ponto de levar a acreditar que, após dois mil anos, só Hitler teria sabido copiar corretamente os romanos” [3]. Entre o Império romano e o Terceiro Reich coloca o expansionismo desenfreado e sem peias de Luís XIV: “O regime estabelecido por ele já merecia, pela primeira vez na Europa depois de Roma, a designação moderna de totalitário”; “a atroz devastação do Palatinato (da qual são culpadas as tropas conquistadoras francesas) sequer teve a desculpa das necessidades da guerra” [4]. Procedendo retrospectivamente em relação à antiga Roma, Weill efetua uma leitura em registro proto-totalitário do episódio do Antigo Testamento da conquista de Canaã e do aniquilamento de seus habitantes.

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Dimitrov sobre a dissolução da III Internacional — Kurt Gossweiler

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VII Congresso da Internacional Comunista, em 1935

Kurt Gossweiler é o especialista mais reputado da história do fascismo alemão. É também um especialista da história do revisionismo no seio do movimento comunista internacional. (www.kurt-gossweiler.de)

O presente texto foi originalmente publicado no Weiseneer Blätter, 4.º trimestre, 2001. Todas as indicações de páginas referem-se aos escritos de Georgi Dimitrov, intitulados Diário 1933- 1943, publicado em alemão por Bernard H. Bayerlein. Traduzido do russo e do búlgaro por Vladislav Hedeler e Brigit Schievenz, Edição Aufbau, Berlim 2000.

O presente texto é a segunda parte de um artigo surgido na revista Les dossiers do BIP, n.º 89, em Dezembro de 2002. Estes dossiers estão editados pelas Edições Démocrite, bd Roger Salengro 52, 93190 Livry-Gargan, França. E-mail: democrite@wanadoo.fr


Nota do Editor (Para a História do Socialismo):

As citações do Diário de Dimitrov foram cotejadas com a sua versão em russo no artigo de V.V. Marina, “Dimitrov e os líderes do Kremlin”, publicado na revista Mejdunarodni Istoritcheskoi Jurnal, n.º 12, Novembro/Dezembro de 2002, http://history.machaon.ru/all/number_12/istori4e/dimitrov/index.html.


 

Dimitrov sobre a dissolução da III Internacional

Numa discussão com destacados camaradas do DKP sobre a dissolução do Bureau de Informação Comunista por Kruschev, durante a qual caracterizava esta dissolução como uma das medidas através das quais Kruschev, introduziu no movimento comunista o “nacional comunismo”, propagandeado pelo partido de Tito [1], em lugar do princípio marxista-leninista do internacionalismo proletário, foi-me respondido:

Então, deves dirigir essa crítica, em primeiro lugar, a Stalin, pois foi ele que, em 1943, ordenou diretamente, sem perguntar nada a ninguém, a dissolução da Internacional Comunista, infligindo assim um duro golpe no movimento comunista!

Esta perspectiva sobre a dissolução do Komintern, dominante quer no DKP quer no PDS, e ainda mais em todos os partidos e grupelhos trotskistas, tem tão pouco a ver com a verdade como as lendas tratadas nos capítulos anteriores e refutadas com a ajuda das notas do diário de Dimitrov. [2]

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O marxismo, a questão LGBT e a falta de dialética dos conservadores de “esquerda” (nazbols e afins)

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1. O antagonismo de classe como contradição principal e sua relação com as contradições secundárias

O marxismo caracteriza-se por ser a expressão política e teórica da classe trabalhadora na luta contra a burguesia e pelo socialismo (com base na ciência), mas isso significa que ele se resuma às pautas de classe? Com certeza não, sendo uma sociedade humana algo muito complexo para se limitar a somente uma única contradição – existem, na verdade, várias.

Existe uma contradição principal, com um aspecto central, e várias contradições secundárias conduzidas pela principal (mas não são totalmente determinadas por ela), que numa sociedade capitalista é a contradição de classe. São contradições secundárias aquelas entre o imperialismo e suas colônias, entre camadas da burguesia, entre heterossexuais e outras orientações sexuais, entre homens e mulheres, entre “brancos” e “não-brancos”, e assim por diante.

A pauta de classe é, também, antagônica, porque burgueses e proletários estão necessariamente em posições sociais opostas, com interesses conflitantes, etc. Diferente das contradições não-antagônicas, como essas citadas.

O antagonismo de classe reflete em todos os aspectos da vida social, até mesmo dentro de cada partido comunista, que leva ao surgimento de facções que adotam métodos corretos ou incorretos. Com os movimentos sociais não poderia ser diferente: existem grupos variados, uns que surgem do seio da burguesia e outros do seio do proletariado. Geralmente estes atuam dentro de partidos comunistas, e não se pode acusá-los nesse caso de deixarem a pauta de classe de lado.

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Sobre a crise política

O momento atual exige uma autocrítica dos apoiadores do “projeto democrático popular” e da conciliação de classes, pois o que se coloca explicitamente diante dos nossos olhos é a prova cabal das falhas desse projeto político reformista.

A maioria dos governistas que até ontem gritavam com alegria “Temer! Temer! Temer!”, estão tentando isentar o partido de qualquer tipo de crítica, o que é extremamente grave de acontecer em um partido – e principalmente em um partido de massas. Existe uma fração conciliadora – encabeçada por Lula e Dilma – que se tornou hegemônica no PT e outras correntes já viram que não existe saída para esse bloco que se formou, que defendeu alianças com Paulo Maluf, Fernando Collor, José Sarney, Marco Feliciano, Jader Barbalho, Kátia Abreu, Edir Macedo, Joaquim Levy, Eduardo Paes, Garotinho, acordos entre Haddad e Alckmin, etc.

Aplaudiram a repressão aos manifestantes da Copa, fecharam os olhos para os presos políticos, estiveram pouquíssimo preocupados com a reforma agrária, com a questão indígena, do aborto. Dilma entregou o Pré-Sal e vetou a auditoria da dívida. Ainda assim, não tiram o termo Dilmãe de seu vocabulário político. Vemos que ainda hoje a centro-esquerda continua tratando manifestações como brincadeira. Além de tentarem aparelhar qualquer uma que tenha sua presença; da última vez que isso virou notícia, foi no 8 de março desse ano, em que até homens agrediram uma feminista que criticou o governo federal no carro de som.

Cito também a falta de uma política fortemente contrária ao imperialismo – um fato bem simbólico foi quando Barack Obama disse que Lula era “o cara”; será que diria o mesmo de Hugo Chávez, Vladimir Putin, Kim Jong-un ou qualquer chefe de Estado que é uma pedra no sapato dos EUA?

Depois do mesmo fazer o tanto de ataques aos trabalhadores, indígenas, LGBT, até às mulheres e negros apesar da nova propaganda de “representatividade” ministerial, querem o apoio da nossa oposição? A esquerda brasileira precisa superar o projeto político que o PT representou aqui, que é o do reformismo e da conciliação com grandes empresas, bancos, latifúndios e com o imperialismo. O que muda hoje é que essa conciliação será maior, mas como ela já aconteceu com enormes concessões, deu no que deu.

De mim, continuarei fazendo o mesmo desde que me entendo como agente político, que é me manter do lado da minha classe, a trabalhadora.

O caminho do socialismo soviético à restauração capitalista

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Kosygin, um dos cabeças do processo de restauração do capitalismo na URSS, na Cúpula de Glassboro – à sua esquerda, o presidente estadunidense Lyndon B. Johnson

Depois da queda dos sistema político-econômicos de vários países socialistas, tornou-se comum ouvir na grande mídia que isso significou “o fim do socialismo”, “o fim da história”, “a vitória final do capitalismo”, “a prova de que o socialismo não funciona”. Qual é o problema dessa visão? É o que este texto tenta responder.

Fala-se muito do “colapso do socialismo na União Soviética”, porém o termo “colapso” é um erro, por dar a ideia de que as razões são internas. Se alguém for assassinado, não se fala em um “colapso”. A culpa de uma contra-revolução não se encontra no exercício do poder das vítimas desta, mas o fato dessas vítimas terem perdido o poder.

A conquista do poder pelo proletariado e a eliminação de velhas instituições burguesas não levam por si próprias à instauração de novas relações de produção, nem estas novas relações surgem imediatamente, nem são ordenamentos legislativos instaurados mediante decisão estatal. Recai sobre o poder proletário a responsabilidade de criar instituições sociais adequadas às forças produtivas e de desenvolver tais forças, tecnicamente e politicamente (neste aspecto, dar a elas um viés coletivista e democrático, bem diferente do que se encontra em qualquer empresa capitalista, por exemplo).

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