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O MARXISMO, A QUESTÃO LGBT E A FALTA DE DIALÉTICA DOS CONSERVADORES DE “ESQUERDA” (NAZBOLS E AFINS)

10 nov

1. O antagonismo de classe como contradição principal e sua relação com as contradições secundárias

O marxismo caracteriza-se por ser a expressão política e teórica da classe trabalhadora na luta contra a burguesia e pelo socialismo (com base na ciência), mas isso significa que ele se resuma às pautas de classe? Com certeza não, sendo uma sociedade humana algo muito complexo para se limitar a somente uma única contradição – existem, na verdade, várias.

Existe uma contradição principal, com um aspecto central, e várias contradições secundárias conduzidas pela principal (mas não são totalmente determinadas por ela), que numa sociedade capitalista é a contradição de classe. São contradições secundárias aquelas entre o imperialismo e suas colônias, entre camadas da burguesia, entre heterossexuais e outras orientações sexuais, entre homens e mulheres, entre “brancos” e “não-brancos”, e assim por diante.

A pauta de classe é, também, antagônica, porque burgueses e proletários estão necessariamente em posições sociais opostas, com interesses conflitantes, etc. Diferente das contradições não-antagônicas, como essas citadas.

O antagonismo de classe reflete em todos os aspectos da vida social, até mesmo dentro de cada partido comunista, que leva ao surgimento de facções que adotam métodos corretos ou incorretos. Com os movimentos sociais não poderia ser diferente: existem grupos variados, uns que surgem do seio da burguesia e outros do seio do proletariado. Geralmente estes atuam dentro de partidos comunistas, e não se pode acusá-los nesse caso de deixarem a pauta de classe de lado.

O capitalismo atua, em relação às contradições secundárias, no sentido de se apropriar de seu discurso e tentar manipulá-las em seu benefício. Por isso, é preciso ficar atento à natureza de cada protesto, organização, facção, etc. para não cair em generalizações grotescas e simplificações. Inclusive para não jogar determinadas demandas no colo da burguesia, deixando que o capitalismo as absorva como bem entender. É na capacidade da classe trabalhadora atender demandas históricas justas para além da contradição principal (como fizeram os comunistas russos, chineses, entre outros, com o campesinato) que se manifesta na prática o que Marx e Engels apontaram no Manifesto Comunista: a classe trabalhadora, ao se emancipar através da revolução, libertará também a humanidade.

A luta proletária é em direção ao fim da sociedade de classes, do fim de um mundo com exploradores e explorados. Nesse sentido, diz Lenin que “(…) antagonismo e contradição não são de maneira alguma uma e a mesma coisa. No socialismo, o primeiro desaparecerá e a segunda subsistirá”. (Notas sobre o livro de Nikolai Bukharin – A Economia do Período Transitório) É uma observação que se encontra também em Marx quando diz que o socialismo é uma sociedade que nasce a partir da queda de uma sociedade capitalista e mantém várias de suas contradições. O mesmo ocorreu ao capitalismo em relação ao feudalismo, como se nota até hoje em diversas regiões.

Levando isso em consideração, o comunista tem que estar atento para não reproduzir opressões, apagando-as com base numa suposta defesa do anticapitalismo. Uma defesa que tem bases frágeis, devido ao dogmatismo e à falta de compreensão do tema.

2. Conservadorismo de esquerda: dublê de ortodoxia ou aberração revisionista

Por não compreenderem bem a dialética e muito menos o marxismo, algumas pessoas que se dizem de esquerda (uma minoria que só vive de falar asneiras na internet) acabam tentando deturpar o marxismo-leninismo para justificar os próprios preconceitos. De acordo com estes, toda luta de “minoria” aparece como “pós-modernismo” e os preconceitos, especialmente a homofobia, seriam o “verdadeiro” marxismo. Sobre tamanha ignorância, faz-se necessário tecer alguns breves comentários:

a) Quem discorda de qualquer luta de “minoria” por si mesma não entendeu nada de marxismo. A capacidade de entrelaçar a demanda de classe com outras perspectivas (dos camponeses, das mulheres, dos negros, dos povos colonizados, etc.) foi a grande chave para o sucesso dos projetos comunistas no século XX, já que permitiu que a classe trabalhadora direcionasse a luta de determinados segmentos contra o capitalismo e o imperialismo, potencializando, assim sua força.

b) Reduzir o pós-modernismo à “luta de minorias” é algo esdrúxulo não só pelo desconhecimento do marxismo (já citado) como também do que seria o pós-modernismo, que é um fenômeno muito mais complexo que tal espantalho, caracterizado por uma série de posições epistemológicas e políticas (que devem ser combatidas pelos marxistas de forma séria, não com reducionismos típicos de quem tem preguiça de pensar)1.

c) Entretanto, apesar da justa linha adotada com diversas contradições secundárias, a questão LGBT foi realmente um ponto no qual algumas experiências socialistas não se diferenciaram dos países capitalistas (Marx e Engels mesmo têm comentários homofóbicos em suas obras). Mas a autocrítica é uma postura inerente ao marxismo-leninismo. O próprio Fidel Castro declarou abertamente o equívoco quanto à questão em Cuba. Se alguém acha que Fidel Castro é pós-moderno aí há que demonstrar isso. De qualquer forma, não podemos esquecer que o marxismo não se desenvolve fora da sociedade, assim é importante ressaltar que até os anos 1980 a própria OMS (Organização Mundial de Saúde) considerava a homossexualidade uma doença.

d) Hoje, indo nessa postura de renovação, a guerrilha maoísta nas Filipinas não só defende as pautas LGBT como ainda coloca isso em prática nos territórios libertados pela crítica das armas, realizando, por exemplo, casamentos entre homossexuais. Seria interessante ver alguns “machos alfa” de internet indo lá chamá-los de “pós-modernos”.

e) Mas, ainda que de forma excepcional, outras nações socialistas já descriminalizaram a homossexualidade antes. A Alemanha Oriental, por exemplo, serve de inspiração pra Cuba nos dias atuais, onde Mariela Castro, filha de Raul Castro, é uma das principais expoentes na luta pelos direitos da população LGBT.

No caso alemão (oriental), após a libertação do nazismo, a lei que criminalizava as relações homoafetivas caiu. A Corte Superior de Halle, na Zona Ocupada Soviética, removeu a seção 175a, que impunha sanções legais contra pessoas por simplesmente serem homossexuais. Isso ocorreu no ano de 1958. A reforma dessa lei foi conduzida por Rudolf Klimmer, que se casou com uma mulher lésbica como proteção própria na época do nazismo. Ele queria acabar com o Estatuto 175, gradualmente conquistou apoio no partido. Em 1968, o Estatuto 175 foi completamente eliminado. Cinco anos mais tarde, durante o Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes em Berlim Oriental, Peter Tatchell organizou a primeira manifestação por direitos dos homossexuais e lésbicas em um país comunista. Esse protesto ajudou a espalhar as ideias de libertação de homossexuais e lésbicas para movimentos progressistas no mundo. Na República Democrática da Alemanha, essa manifestação contribuiu para a formação dos primeiros grupos, e no Reino Unido levou os partidos de esquerda a romper com o passado homofóbico para legitimar as demandas desse novo movimento. Isso, porém, não era feito sem princípios, pois alguns grupos de homossexuais eram reprimidos, por conta da aproximação com outros grupos da República Federal da Alemanha (vulga Alemanha Ocidental, a Alemanha capitalista-burguesa).

Há pouco tempo a Coreia Socialista lançou uma nota declarando não só ser contrária à discriminação contra homossexuais como ainda alegando que, ao contrário de vários países capitalistas, ali homossexuais jamais foram perseguidos. Ainda que seja discutível a observação que a nota faz ao que entende ser uma “cultura gay ocidental”, que, alega a nota, partindo de um gay estereotipado se apropria da luta com fins comerciais. De qualquer forma, vários movimentos tidos como “minorias” também combatem os diversos estereótipos difundidos pela grande imprensa e outros meios (afinal, combater estereótipos a instrumentalização dos movimentos é bem diferente de combater os movimentos em si mesmos).

3. Conclusão

Quem quer fundir conservadorismo (reproduzindo o mesmo discurso do Bolsonaro, por exemplo) com marxismo se esconde através de uma suposta “ortodoxia”, mas não deve nem saber o que essa palavra significa. Unir conservadorismo com marxismo não passa de heterodoxia esdrúxula, que vomita no legado de Alexandra Kollontai, Clara Zetkin, Huey Newton, Agostinho Neto, Ho Chi Minh, Mariela Castro, entre outros. Ao contrário do alegado, tal conservadorismo envernizado de vermelho é uma heterodoxia revisionista que precisa ser denunciada pelos revolucionários como uma deturpação do marxismo.

Tal revisionismo fica claro nas pessoas que aderem esse discurso e são mais sinceras consigo mesmas: os nazbols (que pretendem juntar nazismo com marxismo). Nada mais esclarecedor sobre o verdadeiro caráter de tal ecletismo conservador do que estes representantes “sinceros”.

O conservadorismo burguês não deve se misturar com o marxismo-leninismo, muito menos reivindicá-lo. Os comunistas são contra toda forma de opressão.

Notas

1 – De forma simplificada, pode-se dizer que o pós-modernismo é um fenômeno histórico baseado, como o próprio nome já diz, na negação das ideias que marcaram a “modernidade”, porém não uma negação declaradamente “conservadora”, mas sim baseada na ideia de superação, como se a “modernidade” tivesse “passado da validade”. A negação desses projetos das “modernidades”, os projetos basicamente oriundos do iluminismo, fundamentados na ciência e na totalidade, é, na prática, a negação do filho mais rebelde do iluminismo, o marxismo. Inclusive é fácil identificar cronologicamente esse anti-comunismo embutido no pós-modernismo, pois é justamente com a avalanche ideológica durante a crise do socialismo no Leste Europeu que ele vai se difundir com mais força. O ápice será a declaração do sr. Fukuyama, um intelectual financiado pelos EUA, que disse que com a queda da URSS era “o fim da História”, ou seja, ali estava supostamente provado que o socialismo deu errado e que as pessoas deveriam se contentar com o capitalismo, aceitando que a História havia chegado ao fim, Daí você tem desdobramentos práticos e epistemológicos desse princípio de negação da modernidade (da ciência, da totalidade e do comunismo), pois, se não há um projeto total a ser defendido e nem esperança de superação do capitalismo, logo, cada “minoria” deveria lutar por si mesma, já que nenhum projeto maior poderia surgir como campo de interseção de tais demandas (como fez a luta de classes pelo socialismo no século XX na luta das mulheres, dos negros, dos povos colonizados, etc.). O culturalismo e o anticientificismo são alguns paradigmas comuns ao fenômeno pós-moderno, que não se manifesta enquanto uma corrente teórica unificada (inclusive raramente se declara “pós-moderno”).

Referências bibliográficas

CARDOSO, Ciro Flamarion. Epistemologia pós-moderna, texto e conhecimento: a visão de um historiador. Disponível em: https://pt.scribd.com/doc/34283681/Epistemologia-pos-moderna-Ciro-Flamarion

CARDOSO, Ciro Flamarion. História e paradigmas rivais. Disponível em: https://www.dropbox.com/s/8fwntn9be13vv0o/HIST%C3%93RIA%20E%20PARADIGMAS%20RIVAIS%20Ciro%20Flamarion%20Cardoso.pdf?dl=0

CASTRO, Mariela. Uma nação socialista deve defender a igualdade de todos (entrevista sobre a questão LGBT em Cuba – dividida em quatro partes). Disponível em: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/entrevistas/26927/mariela+castro+uma+nacao+socialista+deve+defender+a+igualdade+de+todos.shtml

LENIN, Vladimir. Marxismo e revisionismo. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1908/04/16.htm

MAO, Tsé Tung. Sobre a contradição. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/mao/1937/08/contra.htm

MAO, Tsé-Tung. Sobre a prática. Disponível em https://www.marxists.org/portugues/mao/1937/07/pratica.htm

MINH, HO CHI. O caminho que me levou ao leninismo. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/ho_chi_minh/1960/04/leninismo.htm

PARTIDO COMUNISTAS DAS FILIPINAS. Gays e Lésbicas no movimento revolucionário. Disponível em: http://www.novacultura.info/#!Filipinas-Gays-e-L%C3%A9sbicas-no-movimento-revolucion%C3%A1rio/c216e/5550186b0cf21fee137e16ed

 
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Publicado por em 10/11/2016 em Padrão

 

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