O caminho do socialismo soviético à restauração capitalista

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Kosygin, um dos cabeças do processo de restauração do capitalismo na URSS, na Cúpula de Glassboro – à sua esquerda, o presidente estadunidense Lyndon B. Johnson

Depois da queda dos sistema político-econômicos de vários países socialistas, tornou-se comum ouvir na grande mídia que isso significou “o fim do socialismo”, “o fim da história”, “a vitória final do capitalismo”, “a prova de que o socialismo não funciona”. Qual é o problema dessa visão? É o que este texto tenta responder.

Fala-se muito do “colapso do socialismo na União Soviética”, porém o termo “colapso” é um erro, por dar a ideia de que as razões são internas. Se alguém for assassinado, não se fala em um “colapso”. A culpa de uma contra-revolução não se encontra no exercício do poder das vítimas desta, mas o fato dessas vítimas terem perdido o poder.

A conquista do poder pelo proletariado e a eliminação de velhas instituições burguesas não levam por si próprias à instauração de novas relações de produção, nem estas novas relações surgem imediatamente, nem são ordenamentos legislativos instaurados mediante decisão estatal. Recai sobre o poder proletário a responsabilidade de criar instituições sociais adequadas às forças produtivas e de desenvolver tais forças, tecnicamente e politicamente (neste aspecto, dar a elas um viés coletivista e democrático, bem diferente do que se encontra em qualquer empresa capitalista, por exemplo).

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Efeitos Especiais de Georg Lukács (Lúcio Junior)

Lukács é um autor interessante. Tido por stalinista por alguns, é um dos grandes inspiradores do marxismo ocidental, juntamente com Trotsky e Gramsci. Em um artigo recente de Brian Williams na revista Socialist Action, Williams explicou bem as diferenças entre Lênin e Lukács. Resumindo, são as seguintes: para Lukács, o importante é que o sujeito conheça o objeto, ou seja, que a classe proletária tome consciência de si mesma: aí ela está pronta para a revolução. Para Lênin, a revolução não depende somente da própria classe operária e sim da correlação das classes, massas, partidos e forças, assim como, num dado país, a revolução só irá acontecer quando a classe superior não puder levar as coisas da mesma maneira e quando a classe operária não puder mais viver da antiga maneira. Além disso, é preciso estudar e levar em conta todas as forças e classes que estão em jogo – e não somente se trata
de uma identificação entre a classe operária consigo mesma, numa tomada de consciência iluminadora que enche o seu ser de poder. O poder é exterior, não está na consciência. Lukács tende ao idealismo subjetivo, a pensar que a consciência da revolução gera a revolução, a idéia gera a matéria.

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A superação do anti-stalinismo

uma importante condição para a reconstrução do movimento comunista enquanto movimento marxista-leninista unido (1994)

Documento retirado de www.kurt-gossweiler.de
Tradução do alemão de PG, revisão e edição de AN, 26.06.08

Para os marxistas não é de forma nenhuma surpresa que o fim da União Soviética e dos estados europeus socialistas tenha trazido consigo o regresso da guerra à Europa e o início de uma ofensiva geral do capital contra a classe trabalhadora e todo o povo trabalhador. Esta brutal ofensiva do capital só pode ser rechaçada com uma defesa conjunta, unitária, de todos os atingidos. Só por isto é urgentemente necessária a reconstrução de um movimento comunista unido, já para não falar da tarefa de acabar com o domínio do imperialismo. Infelizmente, porém, o movimento comunista ainda está muito longe de ser
um movimento unido.

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Hungria, 1956: Revolução ou contrarrevolução? – Parte 2

Leia a primeira parte: https://iglusubversivo.wordpress.com/2011/08/03/hungria-1956-1/

Trechos relevantes de: A URSS e a contra-revolução de veludo – partes II, III e IV, por Ludo Martens (R.I.P.), em agosto de 1989

Hungria: a emergência de uma camada muito rica…

Na Hungria, velhos quadros comunistas, reagrupados na Sociedade Ferenc Munnich e no Centro da Plataforma Marxista, denunciam a “restauração burguesa” no seu país. Os princípios do marxismo-leninismo foram liquidados a tal ponto que o novo número um, Rezso Nyers, já não acha necessário manter as aparências: perfila-se abertamente como um aliado do imperialismo americano, como um representante dos novos capitalistas húngaros e como um correligionário da social-democracia ocidental. Vejamos os fatos:

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(Trotskismo: Contrarrevolução Disfarçada) A Revolução Chinesa

Moissaye J. Olgin


A Revolução Chinesa

A Revolução Chinesa é, ao lado da Revolução Russa, a maior conquista das massas trabalhadoras do mundo. Pela primeira vez na história, o imperialismo mundial foi abalado em uma de suas fortalezas em um país atrasado, que foi brutalmente roubado pelo capital britânico, francês, japonês e americano. A Revolução Chinesa é excelente prova da correção do marxismo-leninismo, que vê duas forças fundamentais da revolução mundial: o movimento proletário nos países capitalistas e do movimento de libertação nacional, nas colônias, e que insiste que essas duas forças principais se unam em uma frente comum contra o inimigo comum, o imperialismo.

As teses sobre o problema colonial e nacional apresentadas por Lenin para o Segundo Congresso da Internacional Comunista (1920) dizem:

“O capitalismo europeu extrai seu poder, principalmente, não de os países industrializados europeus, mas a partir de seus domínios coloniais. Para a sua existência, o controle sobre vastos mercados e um amplo campo de exploração são necessários. . . .

“Os superlucros recebidos das colônias são a principal fonte dos meios do capitalismo moderno. A classe trabalhadora européia conseguirá derrubar o sistema capitalista só quando essa fonte secar.

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Hungria, 1956: Revolução ou contrarrevolução? – Parte 1

Leia a parte 2: https://iglusubversivo.wordpress.com/2011/08/19/hungria-1956-2/

É importante notar a natureza do levante húngaro de 1956, que não foi uma revolta “contra a burocracia stalinista encabeçada pelo povo trabalhador” como repete incansávelmente a propaganda anticomunista.

Assim como Khruschev e outros revisionistas russos diziam que queriam resgatar Lenin, ao abandonarem o legado revolucionário de Stalin, os húngaros revoltosos diziam que estavam defendendo o socialismo, ao dizer não para a União Soviética. Porém não foi a oposição ao socialismo — ou a qualquer outro modelo político-econômico — que ocasionou o levante húngaro contra a União Soviética. A causa foi mais uma explosão de um sentimento nacionalista, não por acaso, que a vontade por “mudanças político-econômicas” e por um “novo socialismo” (que de socialismo tinha pouco). Os dirigentes do Partido Comunista desse país (e também da Alemanha oriental e Romênia) foram parcialmente responsáveis, mas também deve ser deixado claro que eles já “não se importavam mais”, burocratizaram-se pelo conformismo: havia incapacidade de manter um grande e verdadeiro contato com as massas e construir um socialismo revolucionário como o soviético, o chinês e o norte-coreano; isso serviu de pretexto para a execução dos planos muito bem arquitetados por uma minoria oportunista. O porquê dessas afirmações você descobrirá no decorrer da leitura.

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Considerações sobre a experiência iugoslava

Nesse post colocarei três textos para formação política e histórica que julgo serem de extrema importância para os comunistas. O primeiro é escrito pelo historiador belga Ludo Martens; o segundo é escrito pelo comunista albanês Enver Hoxha; o último são trechos que julguei mais valiosos de um texto escrito pela redação das revistas chinesas Renmin Ribao e Hongqi, chamado “A Iugoslávia é um País Socialista? Comentário Sobre a Carta Aberta do CC DO PCUS (III)”, em 26 de setembro de 1963.

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O texto abaixo é retirado do livro Stalin, um novo olhar (Un autre regard sur Stalin), do historiador Ludo Martens. Páginas 128 e 190 a 194. Editora Revan.
Link para baixar o PDF da edição portuguesa: http://www.hist-socialismo.com/docs/UmOutroOlharStaline.pdf

A essência do titoísmo

Em 1948, a Iugoslávia tornou-se o primeiro país socialista a voltar-se para o bukharinismo. Tito recebeu o apoio decidido dos Estados Unidos. Desde então, as teorias titoístas infiltraram-se na maior parte dos países da Europa do Leste.

O livro de Cohen, Bukharin and the Bolshevik Revolution, e o publicado pelo social-democrata inglês Ken Coates, presidente da Bertrand Russel Peace Foundation, serviram de base à campanha internacional de reabilitação de Bukharin durante os anos 70. Esta campanha aliava os revisionistas dos partidos comunistas italiano e francês aos sociais-democratas – desde Pelikan a Gilles Martinet – e, é claro, às diversas seitas trotskistas. Estas mesmas correntes apoiariam Gorbachev até ao dia da sua queda. Todos afirmaram que Bukharin representava uma “alternativa bolchevique ao stalinismo e alguns chegaram a proclamá-lo precursor do eurocomunismo.” (L’Affaire Bukharine, Blanc et Kaisergrüber, pp. 11 e 16)

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