Dimitrov sobre a dissolução da III Internacional — Kurt Gossweiler

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VII Congresso da Internacional Comunista, em 1935

Kurt Gossweiler é o especialista mais reputado da história do fascismo alemão. É também um especialista da história do revisionismo no seio do movimento comunista internacional. (www.kurt-gossweiler.de)

O presente texto foi originalmente publicado no Weiseneer Blätter, 4.º trimestre, 2001. Todas as indicações de páginas referem-se aos escritos de Georgi Dimitrov, intitulados Diário 1933- 1943, publicado em alemão por Bernard H. Bayerlein. Traduzido do russo e do búlgaro por Vladislav Hedeler e Brigit Schievenz, Edição Aufbau, Berlim 2000.

O presente texto é a segunda parte de um artigo surgido na revista Les dossiers do BIP, n.º 89, em Dezembro de 2002. Estes dossiers estão editados pelas Edições Démocrite, bd Roger Salengro 52, 93190 Livry-Gargan, França. E-mail: democrite@wanadoo.fr


Nota do Editor (Para a História do Socialismo):

As citações do Diário de Dimitrov foram cotejadas com a sua versão em russo no artigo de V.V. Marina, “Dimitrov e os líderes do Kremlin”, publicado na revista Mejdunarodni Istoritcheskoi Jurnal, n.º 12, Novembro/Dezembro de 2002, http://history.machaon.ru/all/number_12/istori4e/dimitrov/index.html.


 

Dimitrov sobre a dissolução da III Internacional

Numa discussão com destacados camaradas do DKP sobre a dissolução do Bureau de Informação Comunista por Kruschev, durante a qual caracterizava esta dissolução como uma das medidas através das quais Kruschev, introduziu no movimento comunista o “nacional comunismo”, propagandeado pelo partido de Tito [1], em lugar do princípio marxista-leninista do internacionalismo proletário, foi-me respondido:

Então, deves dirigir essa crítica, em primeiro lugar, a Stalin, pois foi ele que, em 1943, ordenou diretamente, sem perguntar nada a ninguém, a dissolução da Internacional Comunista, infligindo assim um duro golpe no movimento comunista!

Esta perspectiva sobre a dissolução do Komintern, dominante quer no DKP quer no PDS, e ainda mais em todos os partidos e grupelhos trotskistas, tem tão pouco a ver com a verdade como as lendas tratadas nos capítulos anteriores e refutadas com a ajuda das notas do diário de Dimitrov. [2]

Dimitrov conta-nos, igualmente, o que se passou na realidade. Pertence aos antecedentes uma lei dos EUA assinada pelo presidente Roosevelt em 17 de Outubro de 1940. Esta lei proibia as organizações norte-americanas de terem qualquer filiação internacional. O Partido Comunista dos EUA podia ser proibido por causa da sua filiação na Internacional Comunista. Na altura, o seu secretário-geral, Earl R. Browder [3], estava na prisão. Tinha sido condenado, em Janeiro de 1940, a quatro anos de cadeia por “delito de passaporte”. A seu pedido, o partido interpelou o Comitê Executivo da Internacional Comunista, colocando a questão se não seria adequado, para evitar a proibição do partido, desfiliar-se da Internacional Comunista. [4] A seguinte nota do Diário de Dimitrov relaciona-se manifestamente com esta interpelação:

16.11.40: Ercoli [Togliatti] [5], Marty [6] e Gottwald [7] [estiveram] comigo por causa da interpelação do PC americano relacionada com o seu congresso extraordinário. Concordamos na seguinte resposta: “Se for absolutamente necessário tomar uma decisão sobre a questão da filiação [na organização do Komintern], então ela deverá sublinhar a fidelidade do partido ao marxismo-leninismo e ao internacionalismo proletário no preciso momento em que o partido se vê forçado a interromper temporariamente a ligação à IC para manter a possibilidade de trabalhar legalmente.

(p. 319)

Cinco meses mais tarde, em Abril de 1941, Dimitrov relata as observações de Stalin no círculo de camaradas dirigentes:

20.4.41: Brindou-se à minha saúde. Nesta ocasião I.V. [Stalin] disse: Dimitrov tem partidos no Komintern que estão a sair (alusão ao partido americano). Isso não é mau. Pelo contrário, devia-se tornar os partidos comunistas completamente independentes em vez de secções da IC. Eles devem tornar-se partidos comunistas nacionais com diferentes designações – partido operário, partido marxista, etc. O nome não é importante. O importante é enraizarem-se no povo e concentrarem-se nas suas tarefas específicas. Devem ter um programa comunista, devem apoiar-se numa análise marxista, mas, sem estarem a olhar para Moscou, deveriam resolver autonomamente as tarefas concretas que se lhes colocam em cada país. A situação e as tarefas nos diversos países são completamente diferentes (…) Quando deste modo os partidos comunistas se reforçarem, então reconstruir-se-á de novo a sua organização internacional.

A Internacional foi fundada no tempo de Marx na expectativa da revolução internacional iminente. O Komintern foi criado com Lenin, igualmente num período idêntico. Agora as questões nacionais passam para primeiro plano em cada país. Porém, a situação dos partidos comunistas enquanto secções de uma organização internacional, subordinadas ao Comitê Executivo da Internacional Comunista, constitui um entrave. Não se agarrem ao que existia ontem. Avaliem rigorosamente as novas condições criadas. (…)

A filiação dos partidos comunistas no Komintern, nas atuais condições, facilita a perseguição da burguesia contra eles e o seu plano para os isolar das massas do próprio país; e impede os partidos comunistas de se desenvolverem autonomamente e de resolverem as suas tarefas enquanto partidos nacionais.

Conclusão de Dimítrov:

Foi colocada de maneira clara e precisa a questão da existência do Komintern nos próximos tempos e das novas formas de ligação e de trabalho internacional nas as condições da guerra mundial.

(p. 374 e seg.)

Dimitrov reuniu-se com camaradas dirigentes do Comitê Executivo da Internacional Comunista (CEIC) sobre esta questão:

21.4.41: Confrontei Ercoli e Maurice [Thorez] [8] com a questão da suspensão da atividade do CEIC nos próximos tempos enquanto instância dirigente dos comunistas, da concessão de total autonomia a cada um dos partidos, da sua transformação em verdadeiros partidos comunistas nacionais dos respectivos países, orientados por um programa comunista, mas resolvendo as suas tarefas concretas à sua maneira, de acordo com as condições nos seus países, e assumindo a responsabilidade pelas suas decisões e ações. Criar no lugar do CEIC um órgão de informação e de apoio político e ideológico dos partidos comunistas. Ambos consideraram a colocação do problema como, no essencial, correta e inteiramente correspondente à situação atual do movimento operário internacional.

(p. 375)

Pouco tempo depois, Dimitrov teve mais reuniões com outros camaradas, como D.Z. Manuílski [9] e de A.A. Jdanov [10], levou a cabo outras consultas sobre esta questão.

12.5.41: Discutiu-se com D.Z. Manuílski como se devia justificar a resolução sobre a suspensão da atividade do CEIC. Múltiplas questões difíceis e confusas estão relacionadas com esta reorganização. No CC (com Jdanov). Falamos sobre o Komintern.

1) A resolução deve ter uma fundamentação de princípio, uma vez que teremos de explicar seriamente no estrangeiro, bem como aos nossos comunistas soviéticos, por que razão se dá tal passo. O Komintern tem uma grande história e de repente deixa de existir e agir como um centro internacional homogêneo. Na resolução deveríamos prever antecipadamente todos os possíveis golpes do inimigo, por exemplo, de que se trata supostamente de uma manobra ou que os comunistas renegaram o internacionalismo e a revolução proletária internacional. A nossa argumentação deve ser de forma a proporcionar um desenvolvimento dos partidos comunistas e não crie um ambiente fúnebre e de desânimo. (…) As ideias do Komintern penetram profundamente nas camadas de vanguarda da classe operária dos países capitalistas.

Na etapa atual é necessário que os partidos comunistas se desenvolvam enquanto partidos nacionais autônomos. Na base do florescimento do movimento comunista nacional em cada país, ressurgirá na etapa seguinte uma organização internacional comunista numa base mais firme e mais ampla. É preciso mostrar com clareza que a dissolução do CEIC não significa a renúncia à solidariedade proletária internacional. Pelo contrário, mudam-se apenas as formas e métodos em que esta se manifesta por formas e métodos mais bem adaptados à etapa atual do movimento operário internacional.

2) Este passo deve de ser absolutamente sério e consequente. Não devemos fazê-lo como se mudasse apenas a roupagem e se deixasse todo o resto como antes, isto é, o CEIC dissolve-se, mas na prática o centro dirigente internacional continua a existir sob outra capa.

3) É muito importante a questão de quem tomará a iniciativa: por iniciativa própria da direção ou por proposta de uma série de partidos comunistas? A última parece preferível.

4) Neste assunto, que não é assim tão urgente, não nos devemos precipitar, mas sim discuti-lo e prepará-lo seriamente. Três questões necessitam de ser discutidas:
a) como fundamentar em termos de princípio;
b) por iniciativa de quem deve ser tomada a resolução;
c) como continuar a herança da IC?

Em qualquer caso, o movimento comunista pode obter grandes vantagens com este passo:
a) todos os pactos anti-komintern perdem de imediato qualquer fundamento;
b) a burguesia fica privada do seu grande trunfo, de que os comunistas são subordinados de um centro estrangeiro, quer dizer, “traidores”;
c) os partidos comunistas reforçarão a sua independência e transformar-se-ão em verdadeiros partidos populares nos respectivos países;
d) facilita-se também a adesão ao partido comunista daqueles operários ativistas que agora não aderem por considerarem que com isso se afastam do seu povo.

(p. 386 e seg.)

Como vemos, seis semanas antes do ataque da Alemanha nazi contra a União Soviética, a dissolução da IC estava pois, por assim dizer, decidida. Contudo, o início da guerra patriótica contra a Alemanha fascista passou compreensivelmente para primeiro plano, sobrepondo-se a todas as outras questões. Além disso, nas condições totalmente alteradas da aliança da União Soviética, da Grã- Bretanha e dos Estados Unidos, por um certo período, a direção dos partidos comunistas pelo CEIC adquire uma vez mais grande importância. É só depois da grande vitória do Exército Vermelho na batalha de Stalingrado, em Maio de 1943, vitória que permitiu conduzir definitivamente os exércitos da Alemanha fascista para a via da derrota, que voltamos a encontrar no diário de Dimítrov a primeira alusão à dissolução da Internacional Comunista desde o início do ataque fascista.

8.5.43: À noite, em casa de Molotov com Manuílski. Conversamos sobre o futuro do Komintern. Chegamos à conclusão de que, nas atuais condições, o Komintern, enquanto centro de direção, constitui para os partidos comunistas um obstáculo ao seu próprio desenvolvimento autônomo e à realização das suas tarefas específicas. Elaborar um documento para a dissolução deste centro.

Entre 8 e 22 de Maio de 1943 não há um só dia no diário de Dimitrov sem uma referência aos debates sobre esta questão. Em 11 de Maio de 1943, um projeto de declaração do CEIC, redigido por Dimitrov e Manuílski, é apresentado a Stalin, que manifesta o seu acordo. Examinado várias vezes no Presidium do Komintern, o projeto foi redigido na sua versão definitiva em 20 de Maio de 1943, aceite unanimemente pelo Bureau Político do Partido Comunista da URSS, em 21 de Maio de 1943, e publicado no Pravda, em 22 de Maio de 1943, sob o título “Comunicado do Presidium do Comitê Executivo da Internacional Comunista”. [11]

O seu teor era o seguinte:

O papel histórico da Internacional Comunista, que surgiu em 1919, a seguir ao desmoronamento político da esmagadora maioria dos velhos partidos operários de vanguarda, consistiu na defesa dos ensinamentos do marxismo contra o seu rebaixamento e a sua distorção por elementos oportunistas do movimento operário. Consistiu em favorecer numa série de países a unificação da vanguarda dos operários progressistas em verdadeiros partidos operários, ajudá-los a mobilizar as massas de trabalhadores para a defesa dos seus interesses políticos e econômicos, para o combate contra o fascismo e a guerra que este preparava, e apoiar a União Soviética como principal baluarte da luta contra o fascismo. A Internacional Comunista revelou, no momento próprio, o verdadeiro significado do “pacto anti-Komintern”, do qual os hitlerianos se serviam como instrumento para a preparação da guerra. Bem antes disso, o Komintern já tinha denunciado incansavelmente o vergonhoso trabalho de sapa dos hitlerianos noutros estados, atividade que disfarçavam com atoardas sobre uma pretensa ingerência da Internacional Comunista. Muito antes da guerra tornara-se claro que, face à complexidade crescente da situação tanto interna como externa dos diversos países, a resolução das tarefas do movimento operário em cada país pelas forças de um qualquer centro internacional deparar-se-ia com dificuldades insuperáveis. A diferença das vias históricas de desenvolvimento dos diferentes países do mundo, o carácter diferenciado, até mesmo o contraste da sua estrutura, a diferença de nível e de ritmo da sua evolução social e política e, finalmente, a diferença de grau de consciência e de organização dos trabalhadores fazem com que tarefas distintas se imponham à classe operária dos diferentes países. O desenrolar dos acontecimentos no quartel de século entretanto decorrido e a experiência adquirida pela Internacional Comunista mostraram de maneira convincente que a forma de organização escolhida no momento do I Congresso da Internacional Comunista para a unificação dos trabalhadores – e que correspondia às exigências do período inicial de renascimento do movimento operário – perde cada vez mais eficácia com o crescimento do movimento operário nos diferentes países e a complexidade das suas tarefas e tornando-se mesmo um obstáculo ao desenvolvimento ulterior dos partidos operários nacionais.

A guerra mundial desencadeada pelos hitlerianos acentuou ainda mais as diferenças na situação nos diversos países, cavou um fosso profundo entre os países representantes da tirania hitleriana e os povos amantes da liberdade, que se juntaram na poderosa coligação anti-hitleriana. Enquanto nos países do bloco hitleriano a tarefa principal dos trabalhadores, dos operários e de todos os homens honestos consiste em colaborar de todas as formas para a derrota deste bloco, minando a máquina de guerra hitleriana, em contribuir para a queda dos governos responsáveis pela guerra, nos países da coligação anti-hitleriana é um dever sagrado das amplas massas populares, e sobretudo dos trabalhadores progressistas, apoiar de todas as maneiras os esforços de guerra dos governos destes países para esmagar o mais rapidamente possível o bloco hitleriano e assegurar a colaboração das nações na base da igualdade de direitos. A este propósito é preciso não perder de vista que alguns países reunidos na coligação anti-hitleriana têm também as suas tarefas específicas. Assim, por exemplo, nos países ocupados pelos hitlerianos e privados da sua independência estatal, a tarefa principal dos trabalhadores progressistas e das amplas massas populares consiste no despontar da luta armada com vista a transformá-la em guerra de libertação nacional contra a Alemanha de Hitler. Em concomitância, a guerra de libertação dos povos amantes da liberdade contra a tirania hitleriana pôs em movimento as mais amplas massas populares que, sem distinção de partido ou de crença religiosa, se juntaram às fileiras da poderosa coligação anti-hitleriana e mostraram claramente que o ardor nacional e a mobilização das massas, na sua melhor forma e mais frutífera para uma vitória mais rápida sobre o inimigo, podem ser uma realização da vanguarda do movimento operário de cada país, no âmbito do seu Estado.

Já o VII Congresso da Internacional Comunista, em 1935, tinha assinalado que as mudanças que se estavam a operar diante de si, tanto na situação internacional como no movimento operário, exigiam uma grande mobilidade e autonomia das secções da Internacional Comunista. Na redação da resolução sobre as questões do movimento operário, o congresso sublinhou a necessidade de o Executivo da Internacional Comunista partir das condições concretas e das particularidades de cada país e de evitar qualquer tipo de intervenção direta nas tarefas organizativas internas dos partidos comunistas.

Estas considerações foram tidas em conta pela Internacional Comunista quando, em Novembro de 1940, o Partido Comunista dos Estados Unidos da América comunicou a sua decisão, que seria aprovada, de sair das fileiras da IC.

Guiados pelos ensinamentos dos fundadores do marxismo-leninismo, os comunistas nunca foram partidários da manutenção de formas de organização obsoletas. Sempre submeteram as formas de organização e os métodos de trabalho das suas organizações aos interesses políticos fundamentais do movimento operário no seu conjunto, às particularidades da situação histórica concreta existente e às tarefas diretamente emanadas dessa situação. A sua memória guarda o exemplo do grande Marx, que juntou os trabalhadores progressistas nas fileiras da Associação Internacional dos Trabalhadores – a I Internacional –, que estabeleceu os fundamentos do desenvolvimento do partido operário nos países da Europa e da América. Perante a necessidade amadurecida de criar partidos operários nacionais de massas foi dado o passo de dissolver a I Internacional, uma vez que esta forma de organização já não correspondia às necessidades.

Partindo de uma avaliação do presente, tendo em conta o crescimento e a maturidade política dos partidos comunistas e dos seus quadros dirigentes nos respectivos países, bem como o fato de que, com o desencadear da presente guerra, uma série de secções levantaram a questão da dissolução da Internacional Comunista enquanto centro dirigente do movimento operário internacional, o Presidium do Comitê Executivo da Internacional Comunista, impossibilitado de nas condições da guerra mundial convocar o Congresso da Internacional Comunista, toma a iniciativa de submeter à aprovação das secções da Internacional Comunista a seguinte proposta: dissolver a Internacional Comunista como centro dirigente do movimento operário internacional e desvincular as secções da Internacional Comunista das obrigações decorrentes dos seus estatutos e suas decisões.

O Presidium do Comitê Executivo da Internacional Comunista apela a todos os filiados da Internacional Comunista a concentrarem os seus esforços no apoio unilateral e na participação ativa na guerra de libertação dos povos e dos estados da coligação anti-hitleriana com vista ao esmagamento mais rápido possível do inimigo mortal dos trabalhadores: o fascismo da Alemanha e dos seus aliados e vassalos.

Esta declaração foi enviada a todas as secções do Komintern como uma tomada de decisão e todos os partidos a aprovaram sem exceção.

Na data de 29 de Maio de 1943, Dimitrov anotou o teor das declarações de aprovação dos partidos comunistas da Grã-Bretanha, da Áustria e da Iugoslávia, assim como o teor da entrevista dada por Stalin ao correspondente da agência Reuters em Moscou a propósito da dissolução do Komintern.

8.6.43: Realizamos a última sessão do Presidium do CEIC.
1. Constatamos que todas as secções saudaram unanimemente a proposta de dissolução do Komintern e que nenhuma secção levantou qualquer objecção a esta proposta.
2. Declaramos a dissolução do Comitê Executivo do Komintern, do seu Presidium e do Secretariado, bem como da Comissão de Controle Internacional.

10.6.43: O nosso comunicado de 8 de Junho de 1943 sobre a decisão do Presidium foi publicado no Pravda.

Assim, tanto a documentação como as notas de Dimitrov nos seus diários sobre a história da dissolução do Komintern desmentem completamente a lenda da “brusca dissolução da Internacional Comunista por um único decreto de Stalin”.

Eis a verdade: foi a lei americana de Outubro de 1940, que ameaçava interditar o PC dos Estados Unidos – caso continuasse a ser uma seção da Internacional Comunista –, que impulsionou a reflexão sobre a dissolução. O primeiro passo para a dissolução foi pois a subsequente suspensão da ligação do PC dos Estados Unidos à Internacional Comunista.

A razão decisiva da dissolução do Komintern foi, por um lado, a alteração das condições objetivas – por força das quais a continuação de uma direção central do trabalho dos partidos comunistas constituiria um obstáculo ao seu crescimento e ao aprofundamento da sua ligação aos trabalhadores dos respectivos países – e, por outro lado, a convicção de que, entretanto, os partidos comunistas tinham amadurecido suficientemente para se desenvolverem como partidos marxistas-leninistas sem necessidade da direção de uma central.

A dissolução concretizou-se após um ano de consultas do Presidium do CEIC e com a aprovação de todas as secções da IC de uma forma inegavelmente democrática. A dissolução da Internacional Comunista não foi, pois, de maneira alguma, uma transgressão do internacionalismo, uma vez que o internacionalismo manteve-se como componente essencial de cada verdadeiro partido marxista-leninista, independentemente da respectiva forma organizacional da sua colaboração. Além disso, foi expressamente apontada a intenção, tanto por Stalin como pela direção do CEIC, de recriar no futuro, em condições novas, uma organização internacional dos partidos comunistas na forma que correspondesse à situação então existente.

Como é sabido, o Bureau de Informação dos Partidos Comunistas e Operários (Kominform) foi fundado numa conferência em Varsóvia, em Setembro de 1947, porque, como referia o comunicado da conferência, a falta de contato entre os partidos representados tinha suscitado fenômenos negativos. Este Bureau de Informação teria como tarefa a organização de troca de experiências entre os partidos e, se necessário, a coordenação da sua atividade na base de um acordo mútuo. [12] Os participantes da conferência, membros fundadores da organização, chamada abreviadamente «Bureau de Informação», eram representantes de partidos comunistas no poder: PC da URSS, PC da Bulgária, PC da Iugoslávia, Partido Operário Polaco, PC da Romênia, PC da Tchecoslováquia, PC de França e PC de Itália.

O Bureau de Informação existiu durante nove anos. O seu fim não se distinguiu fundamentalmente do fim da Internacional Comunista. Exteriormente, decerto, a forma foi preservada. No “Comunicado de informação sobre a suspensão da atividade do Bureau de Informação dos Partidos Comunistas e Operários”, [13] a dissolução foi justificada igualmente pelas “novas condições para a atividade dos partidos comunistas e operários”, e salientou-se o seguinte: “Os comitês centrais dos partidos comunistas operários pertencentes ao Bureau de Informação trocaram opiniões sobre questões da sua atividade e reconheceram que o Bureau de Informação, por si criado em 1947, esgotou a sua função; neste contexto tomaram de comum acordo a decisão de suspender a atividade do Bureau de Informação (…) e de suspender a publicação do seu órgão, o jornal Para uma Paz Duradoura, Pela Democracia Popular.”

Hoje coloca-se a questão: o que é que de tão fundamental mudou entre 14 de Dezembro de 1955 e 17 de Abril de 1956 para se ter passado da defesa da existência do Bureau de Informação à opinião de que ele teria “esgotado a sua função”?

Em 14 de Dezembro de 1955, Kruschev e Bulganin [14] realizaram em Nova Deli uma conferência de imprensa comum, no decurso da qual Bulganin tomou a seguinte posição:

Por vezes, pergunta-se se não se poderia liquidar de uma forma ou de outra o Kominform. Por que razão os partidos comunistas deveriam renunciar a uma forma internacionalmente reconhecida de relações e de colaboração internacionais? Por que é que aqueles que levantaram a questão da liquidação do Kominform não têm nada contra a atividade da Internacional Socialista que uniu os partidos socialdemocratas? Por que é que lhes parece natural e justificado que os capitalistas se reúnam em monopólios internacionais e conferenciem regularmente para realizar os seus negócios em comum e ao mesmo tempo exijam que a classe operária renuncie à grande divisa da solidariedade internacional já pronunciada por Marx e Engels, “Proletários de todos os países uni-vos!”, que corresponde aos interesses mais legítimos de todos os trabalhadores?

Esta declaração foi pois uma completa derrota para estes senhores ocidentais, para quem o Kominform – terminologia usual no Ocidente para designar o Bureau de Informação – era há muito tempo uma espinha no pé! O que é que aconteceu para que quatro meses depois isto já não fosse válido? O que é que tinha mudado tão profundamente?

Só há uma resposta para isso. É que, entretanto, realizou-se o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, que iniciou uma viragem afastando-se da política leninista de luta contra o imperialismo com o objetivo de a substituir pela política de reconciliação e de “coexistência” pacífica e duradoura com o imperialismo. Tratava-se, pois, de uma distanciação relativamente à política revolucionária intransigente de luta de classes no espírito do Manifesto do Partido Comunista, com vista a adotar uma política revisionista de conciliação de classes.

O Bureau de Informação dos Partidos Comunistas e Operários, pela sua composição, podia tornar-se um centro de resistência contra a aplicação desta reviravolta no movimento comunista mundial. O Bureau também exercia uma pressão sobre a direção do PCUS para que concertasse as suas próprias decisões com as dos parceiros no seio de um órgão coletivo de deliberação – eis a função que foi declarada como “esgotada”. O Bureau de Informação devia pois desaparecer! Kruschev precisava de ter o caminho livre para a sua reconciliação com Tito em Junho de 1955, e, de seguida, para a sua tática de surpresa utilizada com sucesso no XX Congresso, que consistia em colocar os outros partidos comunistas perante factos consumados e, assim, perante a alternativa: a obediência ou a ruptura com o Partido Comunista da União Soviética! As consequências de uma recusa tornaram-se claras para todos em 1960, através do exemplo da ruptura com a Albânia e a China. Mas a direção revisionista só pôde fazê-lo porque já não havia qualquer órgão coletivo do movimento comunista.


Referências bibliográficas

1
Josip Tito, verdadeiro apelido Broz (1882-1980), nascido na no reino da Croácia e da Eslovênia, aderiu ao partido social-democrata em 1910. Combateu nos exércitos austro-húngaros durante a I Guerra Mundial, onde faz agitação antiguerra. É ferido em 1915 e feito prisioneiro da Rússia. Em 1917 participa na manifestação de Julho em Petrogrado contra o governo provisório. É preso e deportado para os Urais. Em Outubro entra para a guarda vermelha e participa na revolução em Omsk. Regressa à sua pátria em 1920 aderindo ao Partido Comunista da Iugoslávia (PCJ), então clandestino. Preso em 1928 é libertado em 1934, altura em que é eleito para o CC e para Politburo. Trabalha na IC em Moscou entre 1935 e 1936. Em 1937 torna-se líder do PCJ. Durante a guerra de libertação (1941-45) é comandante supremo das forças armadas e destacamentos de guerrilheiros. Eleito presidente do Comité Nacional de Libertação da Iugoslávia em 1943, ocupa em 1945 os cargos de presidente do Conselho de Ministros e ministro da Defesa, mantendo-se como à cabeça das forças armadas bem como do partido. Em 1974, no 10 Congresso, volta a ser eleito líder da União dos Comunistas Iugoslavos (designação adotada em 1952 no 6º Congresso), mas desta vez com um mandato vitalício. No mesmo ano recebe igualmente o mandato vitalício como presidente da Iugoslávia, cargo que ocupava desde 1953. (N. Ed.)

2
Georgi Mikhailovitch Dimitrov (verdadeiro nome Georgi Dimitrov Mikhaïlov) (1882-1949). Compositor tipográfico desde 1894, torna-se secretário do Sindicato dos Tipógrafos em 1901, em Sófia, capital da Bulgária. No ano seguinte adere ao Partido Operário Social-Democrata Búlgaro, juntando-se à corrente majoritária dos “socialistas estritos”. Entra para o CC em 1909, sendo eleito nesse ano secretário do Sindicato Geral Operário (1909-1923) e deputado ao parlamento (1913-1923). Foi um dos organizadores da insurreição armada de 1923 na Bulgária. Após a derrota da revolução, foi condenado à revelia com a pena de morte, sendo obrigado a refugiar-se no estrangeiro. Membro ativo do Komintern, foi preso em 1933 na Alemanha nazi sob a falsa acusação de ter participado no incêndio do Reichstag. Consegue provar a sua inocência no célebre processo de Leipzig, onde faz uma brilhante defesa. A URSS atribui-lhe a cidadania soviética e exige o seu repatriamento que se concretiza dois meses mais tarde. Nos anos 30, juntamente com Ernst Telman e Dolores Ibarruri, torna-se um dos líderes mais carismáticos do Movimento Comunista Internacional. Em 1935 é eleito secretário-geral do Comité Executivo do Komintern. Entre 1927 e 1945 foi deputado do Soviete Supremo da URSS. Após a dissolução do Komintern, em 5 de Abril de 1943, é nomeado responsável pelo Departamento de Política Internacional do PCU(b). Após a libertação da Bulgária pelo Exército Vermelho regressa ao seu país, tornando-se presidente do Conselho de Ministros e, em 1947, secretário-geral do PCB. (N. Ed.)

3
Earl Russell Browder (1891-1973), membro do Partido Socialista entre 1906 e 1912, opositor à participação dos EUA na I Guerra, passa dois anos na prisão (1919-1920), aderindo ao Partido Comunista em 1920, para cujo CC é eleito em 1921 e do qual se torna secretário-geral em 1930. Membro do CEIC desde 1935, é sob a sua direção que o PC dos EUA atravessa um período de acentuado crescimento atingindo os 100 mil militantes. Em 1940 volta a ser preso e condenado a quatro anos de cadeia, mas é libertado ao fim de 14 meses. É então que surge com a teoria da «paz de classes» e da «colaboração de classes», salienta o carácter progressista do capitalismo americano e propõe a dissolução do partido e a sua transformação numa associação política. Em Maio de 1944, o 12.º Congresso aprova a sua proposta de dissolução do partido, que volta a ser reconstituído em 1945. Em 1946 é expulso. (N. Ed.)

4
Wolfgang Kießling, Partner im “Narrenparadies”, Berlim, 1994, p.97

5
Palmiro Togliatti (1893-1964), membro do Partido Socialista Italiano desde 1914, participa na fundação do semanário comunista Ordine Nuovo (1919), destacando-se com tradutor e propagandista das obras de Lenin. Contribui para a formação da fração comunista que funda o PC em Janeiro de 1921. No 2º Congresso (1922) é eleito para o CC integrando a direção do partido no ano seguinte. Em 1924 funda com Gramsci o jornal L’Unitá, sendo nesse ano eleito para o CEIC e em 1928 para o seu Presidium. Em 1926 é eleito secretário-geral do PCI. Participa na guerra civil de Espanha (1937-39), vivendo na URSS entre 1940 e 1944. Entre 1944 e 1946 integra o governo italiano, ocupando os cargos de ministro em pasta, da Justiça e vice-primeiro-ministro. Deputado desde 1947, é gravemente ferido por atentado em 1948. (N. Ed.)

6
André Marty (1886-1956), na marinha francesa desde 1908, torna-se engenheiro mecânico (1917) e desenvolve atividade revolucionária ligada à SFIO. Em 1919, a bordo do contra-torpedeiro “Protet” junto a Odessa, organiza um motim de marinheiros que exigiam ser desmobilizados uma vez que a guerra tinha terminado. Condenado a 20 anos de trabalhos forçados, torna-se um símbolo do recém-criado Partido Comunista Francês. Na URSS, os operários da Fábrica Dinamo elegem-no para o Soviete de Moscou. Amnistiado em 1923, adere ao PCF, é eleito para o CC e torna-se deputado na Assembleia Nacional. Em 1935 é eleito para o Presidium e secretário do Komintern, onde trabalha até à sua dissolução em 1943. Participa até ao fim na guerra civil de Espanha. Em 1952, acusado de ser um informador da polícia, é expulso do partido. Nos últimos anos de vida aproximou-se dos anarquistas e dos trotskistas. (N. Ed.)

7
Klement Gottwald (1896-1953), nascido na Morávia, integra o movimento social-democrata em 1912, tornando-se num dos fundadores do Partido Comunista da Checoslováquia (1921). Redator de vários jornais comunistas, integra o Politburo em 1925, sendo eleito secretário-geral em 1929. É membro do CEIC desde 1928 e seu secretário entre 1935 e 1943. Após o acordo de Munique instala-se em Moscou, de onde dirige o movimento de resistência à ocupação nazi. Integra o primeiro governo da Frente Nacional, como vice-presidente (Abril de 1945), e torna-se o chefe do executivo da coligação no ano seguinte. Em 1948 é eleito presidente da República. (N. Ed.)

8
Maurice Thorez (1900-1964), membro do Partido Socialista desde 1919, participou ativamente na luta pela adesão à Internacional Socialista, tornando-se num destacado dirigentes do Partido Comunista Francês constituído em Dezembro de 1920. Integra o CC em 1924, o Bureau Político em 1925 e é eleito secretário-geral em 1930, cargo que mantém até ao final da sua vida. Deputado do parlamento desde 1932, membro do CEIC (1928-43) e do seu Presidium (1935-43). Contribui ativamente para a formação da Frente Popular que governa a França em entre 1935 e 1938. Após a interdição do PCF em 1939 instala-se na URSS, de onde organiza o movimento de resistência. Entre 1945 e 1947 ocupa vários postos ministeriais, sendo vice-presidente do Conselho de Ministros entre Novembro de 1946 e Maio de 1947.

9
Dmitri Zakháronovitch Manuílski (1883-1959), membro do partido desde 1903, do CC entre 1922 e 1952 (candidato desde 1922). Participante ativo na revolução de 1905, exila-se em França entre 1907 e 1912 aderindo ao grupo dos otzovistas, opositores à linha de Lenin, que exigiam a retirada dos deputados sociais-democratas na Duma tsarista. Em Maio de 1917 regressa à Rússia e enquanto membro do grupo dos “Inter-Regionais” adere ao Partido Bolchevique em Julho desse ano. Em 1918 é enviado para a Ucrânia, onde é eleito, em 1921, primeiro secretário do CC do Partido. A partir de 1922 trabalha no Komintern, cujo Presidium integra em 1924, desempenhando funções de secretário do Comité Executivo entre 1928 e 1943. Em 1944 é designado ministro dos Negócios Estrangeiros e vice-presidente do Conselho de Ministros da Ucrânia, permanecendo neste último cargo entre 1946 e 1953, ano em que é aposentado por motivos de doença. (N. Ed.)

10
Andrei Aleksandrovitch Jdanov (1896-1948), membro do partido desde 1915, do CC desde 1930 (candidato desde 1925) e do Politburo desde 1939 (candidato desde 1935). Participante na Revolução de Outubro e na Guerra Civil, sucedeu a Kirov na direção da organização de Leningrado, dirigindo aqui a frente de batalha entre 1941-45, bem como toda a vida da cidade durante os 900 dias do cerco alemão. A partir de 1944 exerce funções de secretário do CC para as Questões Ideológicas. (N. Ed.)

11
In: Komintern und revolutionäre Partei. Auswahl von Dokumenten, 1919-1943,Berlim, 1986, p. 313.

12
“Pela Paz e Democracia Popular”. Relatório sobre a atividade de alguns partidos comunistas apresentado na Conferência na Polônia no final de Setembro de 1947, Berlim, 1947, p. 4.

13
Pela Paz Duradoura, Pela Democracia Popular, N.º 16, de 17 de Abril de 1956.

14
Nikolai Aleksandrovitch Bulganin (1895-1975), membro do Partido desde 1917 do CC (1937-61), candidato desde 1934 do Politburo (1948-58), candidato desde 1946 do Orgburo (1946-52). Trabalha nos órgãos de segurança (1918), no Conselho Superior da Economia Nacional (1922-27), como diretor de uma fábrica de material elétrico em Moscou (1927-31). É eleito presidente do Soviete de Moscou em 1931, torna-se presidente do governo da República da Rússia (1938-41), e a seguir vice-presidente do Conselho de Ministros da URSS (1947-53). Durante a guerra integra os conselhos militares de diversas frentes, é vice-comissário da Defesa desde 1941, ministro da Defesa entre 1947-49 e das Forças Armadas entre 1953- 56. A partir de 1953 ainda exerce funções de primeiro vice-presidente e de presidente do Conselho de Ministros da URSS (1955-58). Afastado do governo da URSS em 1958, é nomeado presidente do Conselho da Economia de Stavropol. Dois anos mais tarde é aposentado. Marechal da União Soviética desde 1947 foi despromovido para coronel-general em 1958. (N. Ed.)

15
N.A. Bulganin/N.S. Chruschtschow, Reden während des Besuches in Indien…, Berlim, 1955, S. 141

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