Marx e Engels e as perspectivas de revolução na Rússia

É aparente que Marx e Engels eram extremamente bem informados sobre a posição do movimento russo e da sociedade russa em geral. Um boato burguês ainda está por aí afirmando que Marx e Engels “não previram que a revolução ocorreria primeiro em um país atrasado como a Rússia, e não em um país capitalista desenvolvido, como a Inglaterra ou a Alemanha”.

É verdade, com certeza, que nos escritos mais antigos, tanto Marx quanto Engels não apenas esperavam, também pensavam que muito provavelmente a revolução proletária se desenvolveria em países em que o capitalismo estivesse totalmente desenvolvido. Mas na metade, e especialmente no fim de suas vidas e carreiras, ambos previram corretamente que o elo fraco estaria provavelmente na Rússia:

Exceto a Alemanha e a Áustria, o país em que deveríamos focar nossa atenção permanece sendo a Rússia. O governo lá, assim como nesse governo é o aliado-chefe do movimento. Mas um muito melhor que nosso Bismarck, Stieber e Tessendorf. A corte russa, que está agora firmemente no controle, tenta retrair todas as concessões feitas durante os anos da “nova era” que se iniciou em 1861, e com métodos genuinamente russos. Então novamente agora, apenas “filhos das classes altas” são permitidos a estudar, e para conduzir essa política todos os outros devem falhar nos exames de graduação. Em 1873 apenas esse era o destino que esperavam 24.000 jovens cujas carreiras estavam bloqueadas, sendo proibidos até de se tornarem professores da escola primária. E mesmo assim pessoas estão surpresas com a difusão do “niilismo” na Rússia. … Parece que a próxima dança irá começar na Rússia. E se isso acontece enquanto a inevitável guerra entre o império germânico-prussiano e a Rússia está em curso – o que é muito provável – repercussões na Alemanha também são inevitáveis.

(Escrito em Londres em 15 de Outubro de 1875; Engels, Frederick; “Carta a August Bebel em Leipzig; em: “Marx-Engels: Cartas Escolhidas”; Moscou; 1982; p. 282)

Na época da formação da Segunda Nova Internacional, Engels queria estar preparado até que a batalha começasse. Novamente – ele acreditava que essa batalha começaria na Rússia, e deu o sinal para o renascimento “oficial” da Internacional, em uma ação orientada e não em manifestação teórica:

Pensamos que a hora para … uma nova Internacional formalmente reorganizada somente causaria uma nova perseguição na Alemanha, Áustria, Hungria, Itália e Espanha… Por outro lado a Internacional na verdade continua a existir. Há uma conexão entre os trabalhadores de todos os países, na medida do possível. Qualquer jornal socialista é um centro internacional… Quando o grito de guerra das forças chegar será uma questão de momentos e sem precisar de preparação demorada… Os nomes de todos os campeões do povo em qualquer país serão conhecidos em todos os outros e um manifesto assinado e promovido por todos eles criariam uma imensa impressão… por essa mesma razão uma demonstração assim deve ser resguardada para o movimento em que ela puder ter um efeito decisivo, i.e.; quando eventos na Europa se fizerem necessários. Caso contrário, o efeito no futuro será estragado e tudo será um tiro no ar. Tais eventos estão entretanto maturando na Rússia onde a vanguarda irá se empenhar na luta. Isso e seu inevitável impacto na Alemanha é uma coisa que nossa opinião deve esperar, e então virá também a hora de uma grande demonstração e estabelecimento oficial e formal da Internacional que não mais poderá ser uma sociedade de propaganda mas somente uma sociedade para a ação.

(Escrito em Londres em 10 de Fevereiro de 1882; Engels, Frederick; “Carta a Johann Phillip Becker em Genebra; em: “Marx-Engels: Cartas Escolhidas”; Moscou; 1982; p. 328-329)

Mas talvez a melhor ilustração venha da carta de Vera Zasulich endereçada a Engels. Engels claramente mostra um otimismo exuberante na revolução russa. É verdade que ele pode estar 20 anos atrasado, mas apesar de tudo, ele claramente identificou as forças motoras da “Velha Toupeira” na Rússia. [I.S.: Marx dizia que a revolução era como uma “velha toupeira”, que circula incessantemente por baixo da terra, sem que se perceba a sua trajetória] Ele até tornou claro que a situação era tão séria, que em um “determinado” sentido pode ser uma situação relativamente única – uma em que algum grau de teoria blanquista seria relevante.

Estou orgulho de saber que existe um partido entre a juventude da Rússia que francamente e sem equívoco aceita as grandes teorias econômicas e históricas de Marx e que definitivamente quebrou com todas as tendências anarquistas e algumas poucas eslavófilas ainda existentes de seus predecessores… O que eu sei ou acredito que saiba sobre a situação na Rússia me faz pensar como os russos estão rapidamente alcançando o seu 1789. A revolução pode ocorrer a qualquer dia. Nessas circunstâncias o país é como uma mina carregada que precisaria apenas de um único fósforo aceso. Principalmente desde o 13 de março (N.E.: assassinato do czar Alexandre III) esse é um dos casos excepcionais onde é possível um punhado de pessoas fazer uma revolução, i.e., dar um pequeno ímpeto para fazer cair um sistema inteiro (usando uma metáfora de Plekhanov) que está em equilíbrio mais que lábil [Nota do Editor: deslizante], e por uma ação insignificante em si mesma liberar forças explosivas que depois se tornam incontroláveis. Bem, se alguma vez o blanquismo – a ideia fantástica de derrubar uma sociedade inteira pela ação de um grupo pequeno de conspiradores – teve uma certa raison d’être [N.E.: condição de existência], isso é certamente agora em São Petersburgo. Uma vez que a centelha foi colocada sobre a pólvora… as pessoas que colocaram a faísca na mina serão varridas pela explosão …. Suponha que essas pessoas imaginem que podem tomar o poder, que mal isso faz? .. Para mim, o importante é que o impulso na Rússia seja dado, que a revolução deve sair. Se essa ou aquela facção dá o sinal, se isso acontece sob esta bandeira ou aquela é uma questão de completa indiferença para mim. Se fosse uma conspiração de palco, seria varrida amanhã. Em um país onde a situação está tão tensa, onde os elementos revolucionários se acumulam em tal grau, onde as condições econômicas das pessoas tornam-se cada vez mais impossíveis, onde está representada toda etapa do desenvolvimento social, desde a comunidade primitiva até a moderna grande indústria de escala e finanças elevadas, onde todas essas contradições são arbitrariamente controladas por um despotismo sem exemplo, um despotismo que se torna cada vez mais insuportável para o jovem em quem a dignidade e a inteligência de uma nação estão unidas – quando 1789 já foi lançado em um país desse tipo, 1793 não estará longe.

(Escrito em Londres, 23 de abril de 1885; Engels, Frederick; “Carta para Vera Ivanovna Zasulich em Genebra”; em: “Marx-Engels: Cartas Escolhidas”; Moscou; 1982; pp. 361-363)

Lenin fez um estudo especificamente das visões de Marx e Engels sobre a Rússia. Aqui estão algumas notas de seu famoso e enciclopédico “Cadernos sobre o Imperialismo” [Iglu Subversivo (I.S.): Esse texto serviu de base para o “Imperialismo: fase superior do capitalismo” e pode ser lido em inglês clicando aqui] – e foram feitas usando dois artigos de Engels. Um pós-escrito [N.E.: post scriptum] ao artigo de Engels “Sobre as Relações Sociais na Rússia” (de 1894) – termina assim:

Ela – a revolução na Rússia – não apenas resgatará as grandes massas da nação, os camponeses, do isolamento de suas vilas, que constituem seu ‘mir’, de seu mundo, e os dirigirá para o grande palco, onde conhecerão o mundo exterior e a eles mesmos, seu próprio posicionamento e os meios de salvação de seu estado de carência, mas também dará um novo ímpeto e novas e melhores condições de luta para o movimento dos trabalhadores no Ocidente, e acelerar a vitória do proletariado industrial moderno, sem o qual a Rússia atualmente não consegue encontrar seu caminho, seja através da comuna de vila ou do capitalismo, para uma transformação socialista da sociedade.

(Lenin, V. I. ; “Notas sobre ‘Acerca das Relações Sociais na Rússia’ de Engels’; Citado em Lenin; “Obras Escolhidas”; ‘Cadernos sobre o Imperialismo’; Volume 39; Moscou; 1968; p.506)

VI. A situação interna na Rússia é ‘quase urgente’… ‘Essa China Europeia’… A ruína dos camponeses depois de 1861… ‘Esse caminho da revolução econômica e social – capitalismo – na Rússia’ é predominantemente um caminho destrutivo no momento. Empobrecimento do solo, desmatamento, etc. O crédito russo caindo. Não é a França que precisa da Rússia, mas a Rússia que precisa da França… Se ela tivesse um pouco de noção, a França poderia obter qualquer coisa que gostaria. Ao invés disso, a França rasteja com a barriga diante do czar. A Rússia vive da exportação de centeio – principalmente para a Alemanha. Assim que a Alemanha começar a comer pão branco ao invés de preto, a Rússia irá de uma vez à falência.

(Notas de Lenin sobre o artigo de Engels’: Citado em Lenin; “Obras Escolhidas”; ‘Cadernos sobre o Imperialismo’; Volume 39; Moscou; 1968; “Pode a Europa se Desarmar?” [I.S.: texto presente no caderno “ni” (\nu)] pp. 501-502)

E foi necessário Lenin, em outro lugares, apontar contra aqueles que argumentavam em 1905 que os bolcheviques não deveriam nutrir possibilidades “jacobinas” para a revolução de 1905, que Marx e Engels argumentaram o contrário:

Pegue a carta de Marx de 27 de Setembro de 1877. Ele ficou consideravelmente entusiasmado com a crise oriental:

“A Rússia esteve há muito no limiar de uma reviravolta, todos os elementos para isso estão preparados……. Os valentes turcos apressaram a explosão por anos com a surra que eles tomaram…. A reviravolta começará secundum artem (de acordo com as regras da arte) com alguns atuando no constitucionalismo e então haverá uma boa fileira. Se a Mãe Natureza não é particularmente favorável conosco, viveremos para vermos ainda a diversão!” (Marx tinha então 59 anos)”.

(Lenin, V. I.; “Prefácio à tradução russa das cartas de Johanne Becker, Joseph Dietzgen, Frederick Engels, Karl Marx e outros para Friedrich Sorge e Outros“; Abril de 1907; em Obras Escolhidas”; Volume 12; Moscou; 1962; p. 376)

Ou pegue a carta de Marx de 5 de novembro de 1880. Ele estava deliciado com o sucesso do Capital na Rússia, e conduziu os membros da organização Narodnaya Volya contra o recém-criado Grupo de Redistribuição Geral. Marx corretamente perceber os elementos anarquistas em suas visões. Não sabendo da futura evolução dos narodniks da Redistribuição Geral em social-democratas, Marx os atacou com todo seu vigoroso sarcasmo:

“Esses senhores estão contra todas as ações político-revolucionárias. A Rússia deve dar um salto mortal no milênio anarquista-comunista-ateu! Enquanto isso, eles estão se preparando para este salto com o doutrinismo mais tedioso, cujos chamados ‘principes courant la rue depuis le feu Bakounine’ [N.E.: ‘princípios que correm na rua desde o fogo Bakunin’]”.

Podemos concluir isso a partir da forma que Marx teria apreciado o significado para a Rússia de 1905 e os anos seguintes à ação ‘político-revolucionária’ da social-democracia.

(Lenin V.I: “Prefácio à tradução russa das cartas de Johanne Becker, Joseph Dietzgen, Frederick Engels, Karl Marx e outros para Friedrich Sorge e Outros”; Abril de 1907; em Obras Escolhidas”; Volume 12; Moscou; 1962; p. 376)

Há uma carta de Engels datada de 6 de abril de 1887: “Por outro lado, parece que uma crise é iminente na Rússia. Os atentados recentes perturbam o carrinho de maçã”. O exército está cheio de conspiradores descontentes (Lenin acrescenta: Engels naquela época ficou impressionado com a luta revolucionária da organização Narodnaya Volya, colocou suas esperanças sobre os oficiais e ainda não viu o espírito revolucionário dos soldados e marinheiros russos, que se manifestou tão magnificamente dezoito anos depois). Eu não penso que as coisas durarão mais um ano; e uma vez que ela (a revolução) disparar na Rússia, então, hurra!”

Uma carta de 23 de abril de 1887: “Na Alemanha há perseguição atrás de perseguição contra socialistas. Parece que Bismarck quer ter tudo pronto para que no momento em que a revolução estourar na Rússia, que agora é apenas uma questão de meses, a Alemanha poderia seguir imediatamente seu exemplo”.

(Lenin V.I: “Prefácio à tradução russa das cartas de Johanne Becker, Joseph Dietzgen, Frederick Engels, Karl Marx e outros para Friedrich Sorge e Outros”; Abril de 1907; em Obras Escolhidas”; Volume 12; Moscou; 1962; p. 377)

Sim, Marx e Engels cometeram muitos e frequentes erros na determinação da proximidade da revolução nas suas esperanças na vitória da revolução (por exemplo, em 1848 na Alemanha), na sua fé na iminência de uma “república” alemã (“morrer pela República”, escreveu Engels daquele período, lembrando de seus sentimentos como participante da campanha militar para uma constituição do Reich em 1848-9) … Mas esses erros – os erros dos gigantes do pensamento revolucionário, que procuravam elevar, e elevaram, o proletariado do mundo inteiro acima do nível de pequenas tarefas comuns e triviais – são mil vezes mais nobres e magníficas e historicamente mais valiosas e verdadeiras do que a trivial sabedoria do liberalismo oficial, que elogia, grita, apela e sustenta sobre a vaidade de vaidades revolucionárias a futilidade da luta revolucionária e os encantos das fantasias “constitucionais” contra-revolucionárias.

(Lenin V.I: “Prefácio à tradução russa das cartas de Johanne Becker, Joseph Dietzgen, Frederick Engels, Karl Marx e outros para Friedrich Sorge e Outros”; Abril de 1907; em Obras Escolhidas”; Volume 12; Moscou; 1962; p. 377-378)

Há portanto nenhuma justificativa para a visão de que Marx e Engels erraram em “não prever” a Revolução Russa.

Fonte: ALLIANCE Marxist-Leninist (North America) Number 36: September 2000

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