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Cai por terra a estória das “fotos alteradas por Stalin”

09 nov

“Fotomontagem soviética do período stalinista revela detalhe pitoresco”

Por Ícaro Leal Alves

Há muito tornou-se lugar comum considerar o regime socialista soviético do período de Stálin (período de 1923-1953) uma ditadura totalitária horrenda e sanguinária. Tal leitura da história soviética do período de Stálin tornou-se popular após a leitura por Nikita Kruschov, então Secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, do seu relatório secretário sobre o culto a personalidade de Stálin e seus efeitos, perante o plenário de uma seção especial do XX Congresso do PCUS de 1956.

A imagem apresentada de Stálin por Kruschov destoava totalmente do que era então aceita como realidade pelo movimento comunista internacional, apesar de ser completamente condizente com o que diziam os meios de informação dos países burguês-capiÍcaro Leal Alvestalistas, imperialistas ou coloniais.

Entre os muitos crimes atribuídos a Stálin pela leitura do seu período dominante desde então e que quase não é rebatida por uma contra-leitura encontra-se a de falsificação de fotos históricas. Em sua desesperada tentativa de apagar os demais personagens da história o líder-ditador soviético teria criado uma fábrica de falsificações de imagens. Diversas fotografias teriam sido adulteras para remover personagens incômodos, ou, que simplesmente pudessem obscurecer a imagem pouco reluzente daquele georgiano de origem simples.

Essa acusação é feita por diversos contraditores do regime da URSS daquele período e encontra-se mesmo muitas publicações que trazem fotos que os historiadores afirmam terem sido adulteras pela policia secreta soviética ou qualquer outro órgão de governo.

Um exemplo de publicação que defende tal tese é um livro da Editora Instituto José Luís e Rosa Sundermann saída em 2005. O título é o clássico da doutrina trotskista A Revolução Traída de Leon Trotsky(1). Nessa versão dá obra os editores adicionaram um encarte, encarte intitulado “a revolução desfigurada”, titulo de um livro de Trotsky, que inspira os editores a organizar tal encarte, onde o autor denúncia “as enormes adulterações da história da Revolução de Outubro, que começavam a encher os livros escolares e os discursos da burocracia dirigente”. O mencionado encarte trás fotos do período soviético, sempre acompanhadas de segundas ou terceiras fotos que diferem da anterior. Na maioria dos casos remoção de algum dirigente presente na foto original. E em seguida a legenda explicando que se trata de uma “adulteração stalinista”. Uma fotomontagem.

O encarte trás uma série de problemas, mas aqui nós focaremos em um. Primeiro as legendas trazem sempre o ano em que as fotos foram tiradas ou apareceram, nunca trazem o nome da publicação em que elas apareceram, o que torna difícil acreditar que se trata de uma adulteração soviética. Já que os editores não fornecem fontes não há como o leitor ir até ela conferir. Qualquer leitor mais rigoroso cobraria isso. Obvio que para a imensa maioria dos leitores é impossível consultar publicações soviéticas dos anos 1930 para saber se essas alterações foram mesmo feitas pelos soviéticos, mas sempre sobram os pesquisadores, institutos de pesquisa, etc. que podem querer confirmar a informação para um estudo do mesmo tema.

O Estudo das fotos também revela detalhes inquietantes. Realizaremos aqui um desses estudos. Trata-se do “mais emblemática dos exemplos de falsificações da história”, segundo os editores do livro. Trata-se de uma foto de 1926, segundo os dados que nos fornecem os editores, onde estão reunidos Antipov, Stálin, Serguei Kirov e Nikolai Shvernik. “Todos membros da fração stalinista”, mais uma vez segundo as próprias palavras dos editores.

Segue a foto:

Os editores seguem nos esclarecendo, em legenda, como com a consolidação do poder stalinista os membros da foto vão sendo removidos por “falsificações” até sobrar somente Stálin. Como regra, os editores nunca nos indicam a fonte de onde removeram a foto original e as falsificações. Uma falta grave para quem acusa alguém de “adulterações”, “falsificações”, “fotomontagens”. Mas prossigamos.

Segue a última foto, onde só restou Stálin:

Como se vê, na versão acima só restara Stálin. Como solitário ditador soviético. O curioso é que essa última foto data de 1953, ano em que Stálin morrera. Teria o ditador-falsário cometido esse último crime contra a história antes de se despedir do mundo? Para já não falar da remoção de Kirov. Homem que aparece no livro História do Partido Comunista (bolchevique) da URSS(2) como herói do Partido e do país assassinado pela oposição trotskista. Acontece que esse livro aparece assinado por todo Comitê Central do Partido, em 1938, e reaparece mais tarde com a assinatura de Stálin nas suas obras completas em 14 volumes editados entre 1946-1954. Alguns autores chegam a afirmar que Stálin teria utilizado o assassinato de Kirov por Nikolaiev, ex-militante do Partido e membro da oposição, em 1933, para desencadear a repressão contra os seus opositores internos(3). Por que então Stálin tentaria apagar da história o mártir que ele mesmo construiu?

Existe ainda um detalhe mais inquietante nessa história toda.

Confiram de novo a foto:

Existe do lado da mão esquerda de Stálin uma assinatura. Quase indecifrável, mas bem perceptível e de inegável caráter artístico.

Mais de perto:

Trata-se inegavelmente de uma assinatura. Alguém consegue imaginar, por um segundo que seja, um aparatischk tão orgulhoso de seu trabalho de falsificação que o tenha assinado? Talvez na tentativa de deixa a população soviética avisada de que era ele o autor da fraude?

O ano indicado (1953), o estudo da aparência da imagem e essa gritante assinatura, assim como a inexistência de qualquer fonte indicada pelos editores para assegurar o que dizem deixa provado que se trata de um trabalho artístico feito para homenagear Stálin, então falecido e não de uma fotomontagem, uma falsificação, como querem os editores. E é essa, segundo dizem, a mais emblemática falsificação da história. Concordamos com isso. Mas os autores da farsa não falam o russo nem estão do lado de Stálin. Quantas outras falsificações da história soviética não esperam por ser desvendadas?

Notas

(1) TROTSKY, Leon. Revolução Traída; o que é e para onde vai a URSS. – São Paulo: Editora Instituto José Luís e Rosa Sundermann, 2005. (as fotos encontram-se em encarte anexado após a página 176)

(2) STÁLIN, Josef. História do Partido Comunista (bolchevique) da URSS. – Pernambuco: Edições Centro Cultural Manoel Lisboa, 1999. (nessa obra Kirov é lembrado como herói da causa do socialismo e da luta contra a oposição trotskista e essa imagem nunca de tal personagem histórico nunca foi alterada durante todo o período staliniano)

(3) Sobre o assassinato de Kirov e de outros membros do Partido por opositores vide BRAR, Harpal. Trotskismo X Leninismo: Lições da História; tradução Pedro Castro. – Rio de Janeiro: Caravansarai, 2009. No capitulo 8 nas páginas 187-201. Entre as páginas 200-201 Brar discute a tese de que Stálin teria tramado o assassinato de Kirov ou o utilizado para exterminar dissidentes.

Fonte: República Socialista

 
3 Comentários

Publicado por em 09/11/2012 em Padrão

 

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3 Respostas para “Cai por terra a estória das “fotos alteradas por Stalin”

  1. Eustáquio

    23/12/2014 at 08:34

    Bem interessante. Sou admirador de Stalin. E ao mesmo tempo que me deixa perplexo o comportamento de muitos dos seus histéricos detratores, acho até graça, chega a ser cômico.

    No entanto, gostaria de fazer umas perguntas:

    Quem era, realmente, Béria? Um colaborador leal a Stalin? Um bajulador, traidor? Ele foi omisso no decorrer da morte de Stalin? Ele envenenou o líder soviético? Béria, na verdade, odiava Stalin? Qual seria mesmo o real motivo de Béria ter sido fuzilado, poucos meses, depois da morte de Stalin? Béria queria liberar o regime soviético?

    Por que Yagoda e tempos depois, Yezov, foram condenados e fuzilados?

     
    • xSGBDx

      13/05/2015 at 22:55

      Olá, Eustáquio. Perdão pela demora em visualizar o seu comentário, já que não atualizo o blog faz alguns meses. Bom ver mais admiradores de Stalin interessados!

      Beria, Malenkov e Molotov foram os principais opositores do golpe encabeçado por Khrushchev. Há indícios de que Stalin preferiria Malenkov no lugar de Yezhov, porém elegeram Béria como sucessor.

      (O que é interessante também porque mostra como Stalin não era onipotente e serve como crítica ao conceito de “totalitarismo”)

      Apesar dos boatos de envenenamento, Béria não era um suspeito. Ele e Malenkov eram favoráveis à reunificação da Alemanha, argumentavam que não fazia parte da formação histórica daquele povo. Contrário a isso ia Walter Ulbricht (o secretário-geral do SED), um esquerdista que queria manter o isolamento da Alemanha Oriental, além de sua política de coletivização ter sido cheia de erros, quebraram a unidade entre a classe operária e o campesinato. As duas coisas foram duramente criticadas principalmente por Béria, que foi acusado de ser um agente trabalhando para um país estrangeiro. Quando soube disso, Molotov o defendeu. Depois descobrimos que ele estava certo, pois foi causado mais divisionismo. E com o fuzilamento injusto de Béria, acentuou-se ainda mais o golpe revisionista.

      Malenkov foi afastado do Comitê Central por Kuznetsov e Abakumov (este também conseguiu afastar o general Zhukov), mas depois se torna primeiro-ministro, apontado por Stalin.

      Yagoda foi condenado por causa de sua aproximação com o bloco trotskista. Yezhov, por causa do que ficou conhecido como Yezhovschyna, que foi resumidamente matanças injustificadas. O fuzilamento após essas traições era uma tradição na polícia secreta, mas não sei dizer se é assim em toda polícia secreta do mundo.

       
      • Eustáquio

        14/05/2015 at 08:50

        Muito obrigado pela resposta, que foi muito pertinente e esclarecedora.

         

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