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Hungria, 1956: Revolução ou contrarrevolução? – Parte 1

03 ago

Leia a parte 2: https://iglusubversivo.wordpress.com/2011/08/19/hungria-1956-2/

É importante notar a natureza do levante húngaro de 1956, que não foi uma revolta “contra a burocracia stalinista encabeçada pelo povo trabalhador” como repete incansávelmente a propaganda anticomunista.

Assim como Khruschev e outros revisionistas russos diziam que queriam resgatar Lenin, ao abandonarem o legado revolucionário de Stalin, os húngaros revoltosos diziam que estavam defendendo o socialismo, ao dizer não para a União Soviética. Porém não foi a oposição ao socialismo — ou a qualquer outro modelo político-econômico — que ocasionou o levante húngaro contra a União Soviética. A causa foi mais uma explosão de um sentimento nacionalista, não por acaso, que a vontade por “mudanças político-econômicas” e por um “novo socialismo” (que de socialismo tinha pouco). Os dirigentes do Partido Comunista desse país (e também da Alemanha oriental e Romênia) foram parcialmente responsáveis, mas também deve ser deixado claro que eles já “não se importavam mais”, burocratizaram-se pelo conformismo: havia incapacidade de manter um grande e verdadeiro contato com as massas e construir um socialismo revolucionário como o soviético, o chinês e o norte-coreano; isso serviu de pretexto para a execução dos planos muito bem arquitetados por uma minoria oportunista. O porquê dessas afirmações você descobrirá no decorrer da leitura.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a situação da República Popular da Hungria era basicamente determinada pelo fato de que o país começou a construir o socialismo sob a liderança da classe trabalhadora e tornou-se membro da comunidade socialista mundial. O estabelecimento e fortalecimento do sistema socialista era o mais importante fator externo do desenvolvimento da Hungria e no trabalho criativo do povo húngaro.

A união da comunidade de países socialistas emergiu numa ferrenha luta de classes internacional entre dois sistemas sociais opostos. Simultaneamente, havia a luta de classes entre as forças progressistas e reacionárias nos novos países socialistas. Os imperialistas ajudaram com todos os meios à disposição as forças reacionárias, tentando fomentar conflitos entre países que escolher o caminho socialista.

Nos anos 50 as forças socialistas do mundo atingiram sucessos substanciais às custas das políticas da Guerra Fria. O fim da Guerra da Coreia (1953), a Conferência de Genebra (1954), o Tratado do Estado Austríaco (1955), e assim por diante. Como resultado e no emergir dos sucessos dos movimentos de libertação nacionais, as posições dos imperialistas foram brutalmente atingidas. Isso deu evidência, em primeiro lugar, da força e do imenso papel do sistema socialista mundial.

Pela primeira vez na história, a Hungria fez parte do grupo de países que estava lutando pelas ideias mais progressistas, que buscam a prosperidade e liberdade para todo o povo trabalhador. Em decorrência de sua situação econômica favorável e política pacífica, a República Popular da Hungria estabeleceu relações diplomáticas com 41 países e relações comerciais com 91 Estados durante os 12 anos seguintes à Segunda Guerra Mundial. Durante sua existência, o novo Estado húngaro e seus órgãos se tornaram membros de 300 organizações internacionais. Seguindo os oito anos de luta, a República Popular da Hungria ocupou uma cadeira nas Nações Unidas, no outono de 1955.

O fato de que a Hungria pertencia ao mundo socialista se tornou uma condição essencial para sua prosperidade econômica. Apesar de ser pobre em matéria-prima, estabeleceu uma indústria razoavelmente moderna fundada sobre a base de matérias-primas da União Soviética. Em 1955, a URSS significava para a Hungria 28,2% das importações anuais; e as exportações para a URSS: 32,2%. A maioria das encomendas da Hungria era matéria-prima.

O desenvolvimento socialista, entretanto, não é um processo livre de obstáculos. Derrotar a sua “própria” burguesia, travar constantes batalhas com o imperialismo internacional (com sua poderosa base material e alianças) e encontrar o método mais possível e vitorioso na construção de um novo mundo sob condições econômicas atrasadas são tarefas extremamente exigentes. Hoje sabemos que a luta pelo caminho correto também levou a erros sérios, desvios desnecessários e sacrifícios que poderiam ser evitados na primeira década da construção socialista.

Em adição a essas dificuldade objetivas, a situação era agravada por líderes que baseavam suas políticas em visões alienadas ao marxismo-leninismo; e pela Guerra Fria imposta sobre os países socialistas pelos imperialistas e suas provocações.

Os inimigos internos e externos tentaram fazer uso dessas áreas de tensão de acordo com seus próprios interesses. Em suas ações, um papel importante foi realizado pela provocação armada em 17 junho de 1953 em Berlim, organizada sob o nome de “Dia-X”. A propaganda dos provocadores procurava, além de tentar resgatar o anticomunismo fascista, romper com a unidade dos países socialistas e tornar mais difíceis as condições para a construção do socialismo.

Para piorar a situação, na União Soviética Khruschev faz o seu famoso discurso contra Stalin, durante o XX Congresso do PCUS, em fevereiro de 1956. Um grande golpe no Marxismo-Leninismo, de proporções internacionais. A Hungria não podia ficar de fora. Como em tantos outros países (inclusive o Brasil) o Partido Comunista do país seguiu os passos dos revisionistas, sem qualquer autocrítica. Foi acesa a centelha do anticomunismo, ironicamente iniciada por pessoas que diziam estar “defendendo o legado de Lenin”. Retórica, bela retórica… Na prática, negar o importante papel de Stalin na construção prática e continuidade teórica e correta do socialismo científico, é se aproximar do oportunismo que, como hoje sabemos, destruiu o socialismo na União Soviética e seus mais próximos aliados, no Leste Europeu.

A Doutrina Truman foi enunciada em 1947 como meios políticos de “contenção”; o Plano Marshall foi elaborado em 1947-48 como sua ferramenta econômica e em 1949, a OTAN, um bloco militar agressivo, foi estabelecido. Sob a proteção da OTAN, os Estados Unidos agruparam os países capitalistas sob a liderança de uma aliança militar agressiva contra o socialismo.

Em junho de 1950, a Comissão de Defesa (dos EUA) adotou o “Lodge Act”, submetido pelo senador Henry Cabot Lodge. Ele decretou que uma “legião estrangeira” seria estabelecida sob o esquema; 12,5 mil elementos reacionários e fascistas que voaram para os países do Leste Europeu, seriam recrutados e armados até 1953. Foi decidido depois, em 1955, aumentar esse número para 25 mil.

Outra lei substancial foi feita em 1951. O Congresso estadunidense adotou o Artigo 101(a) da Lei de Segurança Mútua [Mutual Security Bill] em 12 de outubro. Ela autorizou o financiamento de 100 milhões de dólares anualmente em atividades realizadas por “quaisquer pessoas elegidas que residem em ou fugitivos da União Soviética, Polônica, Checoslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária, Albânia, Lituânia, Letônia e Estônia… para transformar essas pessoas em elementos das forças militares que apoiam a Organização do Tratado do Atlântico Norte [OTAN] ou para outros propósitos.” Tornou-se evidente pelos comentários feitos pelos senadores que discutiam a lei que “outros propósitos” significava espionagem, sabotagem e subversão. No verão do Congresso de 1956 foi aprovada uma soma adicional de 25 milhões de dólares como suplemento aos iniciais 100 milhões.

A Radio Free Europe começou suas inflamantes transmissões, os emigrantes reacionários húngaros foram reativados e suas organizações receberam assistência financeira. A revista dos emigrantes militares fascistas da Hungria, Hadak Utjdn (“No Caminho dos Exércitos”), escreveu com confiança em sua edição de maio de 1950: “apenas a força armada pode abrir o caminho para o retorno de húngaros sem-teto para sua terra natal… e nós temos boas razões para acreditar que com o desenvolvimento de negócios internacionais o poder militar dos Estados Unidos abrirá o caminho para nosso retorno.”

Na campanha presidencial de 1952 nos Estados Unidos, Dwight Eisenhower e John Foster Dulles propagaram os princípios de uma nova política, a doutrina da “libertação”. Eles descreveram os países engajados na construção do socialismo como “nações prisioneiras” e prometeram ações para ajudar todas as nações prisioneiras a resistirem.

(J. Scott: Political Warfare; A Guide to Competitive Coexistence. The John Day Company, New York 1955, pp. 22-23.

D. F. Fleming: The Cold War and its Origins 1917-1960. New York 1961, pp. 806-807. )

Em Cincinnati, 21 de setembro de 1952, Eisenhower comentou que “esses princípios demandam que qualquer tática política, econômica e psicológica deve ser usada”. Em um discurso em Trenton, 17 de outubro de 1952, fez um apelo especial às organizações de emigrantes fascistas na Hungria e prometeu fazer qualquer coisa em seu poder para liberar os “sofredores e subjulgados” húngaros.

Pouco depois de tomar posse, o presidente Eisenhower mandou uma mensagem ao Congresso em 20 de fevereiro de 1953, sobre “solidariedade com os povos oprimidos”. Foi adotada uma resolução pelo Congresso em 26 de fevereiro. Um discurso do Secretário de Estado Foster Dulles preparou a adoção de uma resolução no Comitê de Relações Estrangeiras do Senado. Uma resolução similar foi adotada pelo Congresso em agosto de 1955.

Em 25 de janeiro de 1956, Eisenhower enviou uma carta de felicitações à conferência da Associação Campesina Internacional expressando seu apreço aos resultados atingidos pelos líderes emigrantes reacionários no campo da “aquisição de informações” pelo qual eles serviam à política de “libertação”.

Na visão de George F. Kennan, a ideia de “libertação” continha um objetivo duplo: parcialmente derrubar o poder soviético em qualquer lugar, incluindo a própria União Soviética e as Democracias Populares; e parcialmente que a destruição desse poder deve se tornar um ativo objetivo da política externa dos governos ocidentais, em particular, da administração dos Estados Unidos. Ele escreveu que a necessária e decisiva estimulação para esse fim devia ser realizado de fora, e não de dentro, através da esfera soviética por si só.

A visão acima expressa a natureza completamente agressiva da política de “libertação” e o perigo externo que ela constituiu aos países socialistas. Os líderes e chefes ideológicos do imperialismo nutriam a esperança de que a população das Democracias Populares se opusessem ao socialismo e que havia uma enorme distância entre “o governo e o povo”. De acordo com a visão deles, isso criou circunstâncias favoráveis para um grande movimento de “resistência” que abalou as bases do socialismo. Eles repetidamente enfatizavam que qualquer erro, dificuldade, vacilo e mudança no processo de construção do socialismo devem ser totalmente explorados.

Foi considerado assunto de prioridade máxima para enfraquecer a amizade entre os povos engajados na construção do socialismo por qualquer meio possível e para minar a união de forças. De acordo com uma série de artigos do New York Times (18, 21 e 23 de abril de 1956), a tarefa era explorar as diferenças de opinião, de interesses e nas intenções contrastantes dos povos do Leste Europeu. Eram as intenções deles separar e dividir os elementos do sistema socialista mundial, e destruir as conquistas do socialismo uma por uma em cada país, depois de eles se separarem de tal sistema. Eles consideraram úteis para o sucesso de seus objetivos, três fatores:

1. Forças internas: a) reacionários; b) dificuldades internas; c) insatisfação.

2. Forças pertubadoras dentro da comunidade socialista: a) disputas entre cada país filiado à comunidade, mas antes de tudo à União Soviética; b) atmosfera anti-soviética; c) nacionalismo (de direita).

3. Forças externas: a) determinação por parte do mundo capitalista, sobretudo dos Estados Unidos; b) atividades subversivas levadas a cabo pelas organizações imperialistas.

Em essência, a doutrina de “libertação” foi uma política de guerra.

Fogueira de livros na Hungria em Budapeste, 1956, empreendida por anticomunistas

Fogueira de livros na Hungria em Budapeste, 1956, empreendida por anticomunistas

Não lembra um fato anterior, ocorrido em outro país, porém muito semelhante?

Fogueira de livros na Alemanha Nazista, nos anos 30, empreendida por anticomunistas

Fogueira de livros na Alemanha Nazista, nos anos 30, empreendida por anticomunistas

 

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