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Natureza humana

17 jul

Tradução de um artigo que li no International Socialist Review. Ele se inicia com um post que apareceu dia 31 de julho de 2007 no blog Darwinian Conservatism, por Larry Arnhart. Depois, há a resposta de Phil Gasper. Seguem os textos.

“Humanos instintivamente buscam o poder”, por Larry Arnhart

A edição de julho / agosto da International Socialist Review tem um artigo escrito por Phil Gasper criticando meu argumento de conservadorismo darwiniano.

Gasper insiste que Karl Marx e Friedrich Engels aceitaram a ciência de Darwin, o que mostra que a ideologia da esquerda socialista é compatível com o darwinismo. Mas Gasper não diz a seus leitores que Marx e Engels criaram uma dicotomia entre a natureza animal e a cultura humana, de modo que eles poderiam dizer que a ciência darwiniana explica o mundo natural dos animais e do corpo humano, mas não o mundo exclusivamente humano da história cultural . Embora outros animais tenham alguma capacidade para o trabalho, Marx afirmou que somente os seres humanos tem a capacidade para o trabalho intencional sobre o mundo para estar de acordo com algum plano na imaginação. Ao mudar o mundo natural para satisfazer suas necessidades, o homem também “muda sua própria natureza.” Isso permite a Marx proteger sua visão utópica de perfectibilidade socialista de ser subvertida pelo naturalismo darwiniano. Essa mesma tendência socialista de olhar o ser humano como capaz de uma liberdade utópica transcendente da natureza se manifesta na atração de Gasper à visão de Stephen Jay Gould da liberdade transcendental humana.

O erro que vem de tão utópico transcendentalismo — característica geral de todo pensamento da esquerda — se recusa a reconhecer os limites estabelecidos pela imperfeição humana. Por exemplo, Marx afirmou que a maior mudança revolucionária viria com o governo do proletariado, o que traria uma sociedade sem classes e, portanto, o fim de toda a dominação de uns sobre outros. Contra Marx, o anarquista Mikhail Bakunin alertou que “a ditadura do proletariado” de Marx seria realmente tornar-se um novo “despotismo de uma minoria governante.” “Quem duvida disso”, Bakunin insistia, “simplesmente não conhece a natureza humana.” Marx respondeu a ele ridicularizando suas “alucinações sobre a dominação”.

Como Marx, Gasper rejeita a minha afirmação de que “os seres humanos instintivamente buscam o poder.” De acordo com Gasper, podemos concluir que não há “instinto de poder” quando vemos “exemplos de cooperação e solidariedade”. Ele cita o relato do antropólogo Richard Lee dos bosquímanos !Kung, mostrando que “as primeiras sociedades humanas não foram baseadas em competição, desigualdade e hierarquia.” Aqui Gasper segue Marx ao afirmar que o comunismo puro restauraria o comunismo primitivo original de caçadores-coletores.

Gasper não diz ao leitor que Richard Lee calculou que a taxa de homicídios entre os !Kung foi comparável à de Detroit. (Ver o livro de Lee “The !Kung San”, 1979). Nem Gasper diz aos seus leitores que Lee estudou padrões de “liderança” entre os !Kung. Embora não houvesse estruturas formais de chefia ou de governo, alguns indivíduos tinham mais status ou poder do que outros. Os !Kung Foram igualitários no sentido de que eles trabalharam duro para punir as pessoas que poderiam se tornar muito arrogantes em seu bullying. Mas esse é exatamente o ponto — eles tinham que trabalhar duro para conter a tendência humana de dominar.

Longe de conter esta tendência humana para a dominação, utopias socialistas apelaram ao “instinto de poder”, como expressa no desejo de liderança revolucionária. Nesta mesma edição da International Socialist Review, há artigos sobre Fidel Castro e Hugo Chávez. Castro é citado como dizendo que, quando era um jovem rapaz, ele admirava pessoas como Alexandre o Grande e Napoleão. Tornando-se o líder da revolução socialista permitiu-lhe satisfazer o seu sonho de poder e glória. Chávez mostra o mesmo amor de glória, proclamando o “socialismo para o século XXI.” O autor do artigo sobre Chávez o abre com uma emoção sem fôlego: “A ‘revolução bolivariana’ da Venezuela está avançando rapidamente.” Bem, sim, e tudo pela glória de Hugo Chávez.

Não seria mais prudente reconhecer a necessidade de limitar o governo para proteger contra um potencialmente tirânico “instinto de poder” que é também profundamente enraizado na natureza humana a ser abolido pelo socialismo?

“O comportamento humano é maleável”, por Phil Gasper em resposta a Larry Arnhart

Larry Arnhart levanta três questões principais em sua resposta ao meu artigo recente sobre Darwin e política (“Darwins dangerous ideas”, ISR 54, Julho-Agosto 2007).

Primeiro, Arnhart acusa socialistas, desde Marx e Engels até o biólogo evolucionista Stephen Jay Gould, de acreditar que “seres humanos [são] capazes de uma liberdade utópica transcendente da natureza.” Isto é simplesmente falso. Gould, por exemplo, é bastante explícito que os fatos da biologia humana limitam os tipos de sociedade humana que são possíveis. Mas pode-se aceitar isso enquanto se rejeita a ideia simplista de que o comportamento humano é baseado em impulsos biológicos que foram supostamente selecionados em nossos ancestrais. A característica mais notável da evolução humana é o surgimento de cérebros maiores, o que resultou em uma espécie com grande flexibilidade comportamental e criatividade, e a capacidade de tomar decisões que não são biologicamente motivadas. Por exemplo, muitos de nós optamos por usar o controle de natalidade ou por fazer sacrifícios que beneficiam estranhos, decisões que não fazem sentido para aqueles que acreditam que o comportamento humano é movido pelo objetivo de propagar os nossos genes para a próxima geração.

Em segundo lugar, as reclamações de Arnhart que os seres humanos são biologicamente dispostos a buscar dominar os outros. É bastante divertido que um conservador como Arnhart cita o anarquista do século XIX Mikhail Bakunin em apoio a esta alegação, ainda mais tendo em conta que Bakunin não partilha dos pontos de vista de Arnhart. Na verdade, Bakunin foi um defensor de uma sociedade sem classes na qual a propriedade privada e do estado fossem abolidos, juntamente com a exploração e opressão, então ele obviamente acreditava que tal estado de coisas era compatível com a natureza humana. A discordância de Bakunin com Marx não era sobre se tal sociedade era possível, mas como ela poderia ser realizada. Bakunin acreditava, e bem implausivelmente, na minha opinião, que depois do Estado capitalista ser derrubado uma sociedade sem estado poderia ser instituída imediatamente. Marx, por outro lado, argumentou que uma revolução bem sucedida primeiro precisa configurar um novo e altamente democrático Estado dirigido por trabalhadores e seus aliados, que iria começar uma transição gradual para uma sociedade completamente sem classes. Argumento de Bakunin foi baseado em sua crença de que todos os Estados são igualmente ruins e subvertem o potencial humano de solidariedade e igualitarismo, não que os seres humanos têm um instinto geral para a dominação em todas as circunstâncias.

Arnhart acredita que sua visão também é apoiada pela investigação do antropólogo Richard Lee sobre os !Kung ou povo San no sul da África. Mas a taxa de homicídios que ele cita diz respeito aos !Kung somente após o contato com o mundo moderno, incluindo o colonialismo. Lee, de fato, descreve a tradicional sociedade !Kung como altamente igualitária. Em outro estudo bastante conhecido, Marjorie Shostak diz que a sociedade !Kung era originalmente não-hierárquica, com decisões tomadas por consenso, e relativa igualdade entre os sexos.

Por fim, Arnhart menciona artigos do ISR sobre Fidel Castro e Hugo Chávez, mas ele parece não ter lido nenhum deles com muito cuidado. O ISR sempre rejeitou a ideia de que a Cuba de Castro representa qualquer tipo de socialismo genuíno.* Por outro lado, as alterações sociais que Chávez iniciou na Venezuela têm permitido o aparecimento de correntes sociais que podem empurrar o processo em direções ainda mais radicais. Como os artigos do ISR argumentaram com algum detalhe, a situação contém elementos contraditórios, mas a caracterização de Arnhart sobre o que está ocorrendo como nada mais que uma viagem de poder de Chávez não é um análise séria. Ele não nos diz nada sobre a Venezuela e muito menos sobre a natureza humana.

* Nota do autor do post: Essa posição contrarrevolucionária não é compartilhada pela equipe deste blog.

 

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