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Manoel Lisboa

Manoel Lisboa, um Homem de Verdade
Fausto Arruda

https://i0.wp.com/www.anovademocracia.com.br/images/74/16.jpgManoel Lisboa de Moura nasceu no dia 21 de fevereiro de 1944, em Maceió, capital de Alagoas. Lisboa figura entre os maiores revolucionários de nossa pátria. Ao lado de Pedro Pomar, está dentre aqueles que melhor compreenderam a realidade brasileira nos intensos anos das décadas de 1960 e 1970. Como verdadeiro militante revolucionário, não se limitou a interpretar a arcaica sociedade brasileira, mas dedicou sua vida à luta por sua transformação.

A primeira vista, o que mais chama a atenção na biografia de Manoel Lisboa é sua precocidade. Lisboa foi assassinado na tortura, após ser preso no Parque Ian Flemming, no Recife, em 1973. Quando de sua prisão contava apenas 29 anos e apesar de sua pouca idade deixou um conjunto de escritos e exemplos que continuam a inspirar novas gerações de homens e mulheres que lutam por um Brasil livre da exploração e opressão.

 

Viva Manoel Lisboa, herói do povo brasileiro!

Nascido em 1944, em Maceió Alagoas, aos 16 anos Manoel Lisboa iniciou sua militância ingressando na Juventude Comunista. Foi um destacado líder estudantil, organizou lutas combativas nas escolas e universidades de Alagoas. Desenvolveu um amplo trabalho de organização e agitação política na Universidade Federal de Alagoas, onde cursava medicina. Aos 20 anos, em 67, foi impedido de continuar seu curso devido às perseguições do regime militar-fascista. Participou, em 62, do processo de Reconstrução do Partido Comunista do Brasil, que resultou na conformação do PCdoB. Manteve-se em posição de combate irreconciliável contra o revisionismo e o oportunismo. Em fevereiro de 1966, juntamente com Amaro Luís Carvalho (Capivara), Emanuel Bezerra e outros dirigentes fundou o Partido Comunista Revolucionário (PCR).

O curto tempo de atividade teórica e prática do PCR sob direção de Manoel Lisboa foi extremamente produtivo e legou importantes aportes à causa revolucionária em nosso país, expressas em seus documentos principalmente na “Carta de 12 pontos aos comunistas revolucionários”. Nas difíceis condições de luta contra regime militar-fascista deu grande exemplo de abnegação e entrega à causa revolucionária. Defendendo os princípios do marxismo, entregou seu contributo de sangue e o esforço teórico para compreender de forma mais profunda o processo revolucionário brasileiro e levar o combate implacável não somente contra o regime fascista e o imperialismo, mas para se opor ao reformismo e ao revisionismo traiçoeiro.

O camarada Manoel Lisboa foi assassinado aos 29 anos no dia 4 de setembro de 73 pelo regime militar fascista juntamente com dois outros dirigentes do PCR, Emanuel Bezerra e Manoel Aleixo. Manoel Lisboa foi preso no centro de Recife e recambiado para o DOPS de São Paulo, onde foi brutalmente torturado. Conta-se que Manoel foi torturado pelo famigerado delegado Fleury, mas nada foi capaz de dobrar a decisão revolucionária deste grande comunista. Manoel Lisboa foi assassinado sem prestar nenhuma informação aos gendarmes fascistas.

A “Carta de 12 Pontos”

Manoel Lisboa é sem dúvida um dos maiores expoentes da juventude estudantil brasileira. No entanto, sua importância para o processo revolucionário ultrapassa sua posição firme diante da ditadura militar e dos torturadores. Ele foi um dos comunistas que melhor entendeu a realidade e as características da sociedade brasileira, bem como foi capaz de elaborar uma estratégia revolucionária criadora para a revolução brasileira. O pensamento e proposições de Manoel Lisboa estão registrados em alguma dezenas de documentos e artigos escritos por este revolucionário. Documentos que tratam desde a importância de resistir a tortura, à necessidade de reorganizar o movimento estudantil brasileiro, sobre as tarefas do movimento camponês e chegam na histórica “Carta de 12 Pontos as Comunistas Revolucionários”.

A Carta de 12 pontos, escrita por Manoel Lisboa quando ele tinha 22 anos, guiou o processo de fundação do Partido Comunista Revolucionário. A Carta é uma brilhante síntese onde sistematiza a análise de classes de nossa sociedade, a correlação entre elas, formulando que as forças revolucionárias fundamentais são o proletariado como força dirigente, o campesinato como seu aliado principal, os estudantes e intelectuais, podendo ainda contar com setores da burguesia nacional (média burguesia), que aponta seu duplo caráter – oprimida pelo imperialismo e temente à revolução popular. Define a revolução brasileira como democrática antiimperialista como primeira etapa da luta pelo socialismo no Brasil, partindo da compreensão de que a contradição que opõe o imperialismo norte-americano à imensa maioria do nosso povo é a principal e da necessidade de derrubar o poder da grande burguesia e do latifúndio para destruir o poder pró-imperialista no país. Manoel Lisboa deixa bastante claro a relação entre as classes revolucionárias ao expor sua concepção de Frente Única: “Sobre um segundo tipo de aliança, ou mais precisamente a frente única com a burguesia nacional, autenticamente nacional, submetida também ao imperialismo ianque, a condição básica para sua efetivação é a formação das forças armadas populares através do próprio desenvolvimento da guerra popular. Seria erro grave e ilusão de classe supor que a aliança se faça antes do início da insurreição armada, à base de conversações ou trocas de pontos de vistas.”

Na Carta de 12 Pontos, Manoel Lisboa sustenta que a revolução brasileira tem como único caminho possível a Guerra Popular prolongada. Explica que a aliança operária-camponesa não pode ser formal ou abstrata como fazem os revisionistas, mas sim com o deslocamento dos elementos portadores da ideologia do proletariado, o Partido Comunista, para o campo, aliando-se aos camponeses em sua luta pela terra, organizando a luta armada e desenvolvendo o Exército Guerrilheiro Popular. Afirma que: “O cerne da estratégia do proletariado e de seu Partido é o desenvolvimento da guerra popular através da guerra de guerrilhas”; que “Somente é a guerra que pode inverter os papéis e tornar o inimigo débil e as forças armadas populares fortes.”; e ainda “… por isso o Partido da Classe Operária deve elaborar sua estratégia e aplicá-la onde se reflete de modo mais agudo a contradição principal. Aí desenvolver, com profundidade, a aliança operário-camponesa, através do deslocamento para o campo dos elementos mais avançados da classe operária, dos intelectuais e estudantes com ideologia do proletariado para criar as bases de apoio rurais. (…) A guerra de guerrilhas, através das formas mais primitivas e rudimentares de combate, proporciona às massas organizadas na base de apoio um adequado método de luta, e possibilita que cada elemento de massa se converta num soldado da guerra popular.”

Revolução Brasileira: democrática e antiimperialista

Num Editorial do jornal “A luta” (Órgão dos Comunistas Revolucionários) chamado “O caráter da revolução brasileira”, Manoel Lisboa expõe sinteticamente a posição do PCR sobre esta questão fundamental. “O PCR define a Revolução Brasileira como democrática e antiimperialista em contraposição a vários setores da esquerda brasileira que a definem como socialista.”. Manoel Lisboa defende que a contradição principal no país naquela época era a que opunha imperialismo versus povo brasileiro: “A solução desta contradição principal é o conteúdo da revolução brasileira na atual etapa. Solução que se dará no momento em que um governo revolucionário, SOB HEGEMONIA DO PROLETARIADO, confisque todas as empresas ianques, destrua o latifúndio, confisque as grandes empresas ligadas ao imperialismo, institua a democracia no país.”. “Com a solução da contradição imperialismo x povo a contradição principal passará, imediatamente, a ser proletariado x burguesia.” (Os grifos são de Manoel Lisboa).

Manoel deixa claro a relação entre a revolução democrática como uma etapa inevitável da revolução socialista nas condições objetivas de nosso país. “Se a revolução nascesse na cabeça dos revolucionários e não das imposições da realidade econômica, definiríamos, sem pestanejar a revolução brasileira como socialista. É a realidade, nem sempre de acordo com os sentimentos dos revolucionários, que nos obriga a definir a Revolução Brasileira como democrática e antiimperialista.”

Ao defender a revolução brasileira como democrática, que seu caminho é o da guerra popular através do cerco da cidade pelo campo, da necessidade do Partido Comunista, do Exército Guerrilheiro e da Frente Única, ao combater sem conciliação o revisionismo e o reformismo, ao elucidar a realização da aliança operário-camponesa, ao trabalhar com o método da contradição, caracterizando sempre qual a contradição principal, ao fazer tudo isto Manoel Lisboa demonstra que sua fonte ideológica não foi outra senão o maoísmo, etapa mais desenvolvida do marxismo. E é justamente por isto que as formulações de Manoel foram tão corretas e que muitas continuam vigente ainda hoje.

Otimismo revolucionário

Uma das características pessoais de Manoel Lisboa era seu bom humor e otimismo revolucionário que carregava mesmo nas situações mais difíceis. Um amigo pessoal conta que em certa ocasião quando discutia a estratégia da revolução brasileira, ele teria explicado assim o problema do “cerco da cidade pelo campo”: “É claro que é o campo que tem de cercar a cidade, você já imaginou se seria possível a cidade cercar o campo?”. Outra vez discutindo com simpatizantes de seu Partido, que estariam um pouco frustados com a possibilidade de não poderem viver no mundo comunista, Manoel argumentou: “Vocês acham que estamos longe do comunismo?! Imaginem a condição de um escravo consciente trabalhando nas pirâmides do Egito para convencer seu companheiro de labuta a lutar? ‘Olha companheiro, nós agora teremos que derrubar o sistema escravista, mas não será aí que virá a libertação, pois teremos que lutar muitos séculos para destruir depois o feudalismo, porém aí virá o capitalismo, com ele surgirá o proletariado, passará mais alguns séculos chegaremos ao socialismo, e aí virá a libertação com o comunismo.”

Manoel Lisboa foi um grande exemplo de comunista e jovem revolucionário e deve sempre estar presente conosco. Devemos estudar detidamente seus escritos e mirar sempre em seu exemplo de luta e abnegação. O Partido fundado por Manoel Lisboa, depois de sua morte abandonou o caminho revolucionário e degenerou no revisionismo. Mesmo assim sua luta não foi em vão, as formulações do camarada Manoel Lisboa são o ponto de partida para a retomada da luta dos revolucionários brasileiros em nossa luta por um novo poder, uma nova democracia, pelo socialismo.

Rendemos, pois, nossa homenagem a este grande revolucionário, que fez de sua vida instrumento de luta pela emancipação das massas oprimidas e exploradas de nosso país.

 

Viva Manoel Lisboa!

Honra e glória aos heróis de nosso povo!

Viva a revolução democrática ininterrupta ao socialismo!

 

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