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José Rosa — A presença de Marighella

“Minha força vinha mesmo era da convicção política, da certeza de que tudo isso é ditadura e de que a liberdade não se defende senão resistindo”

Um ardil preparado pela forças repressivas no dia 4 de novembro de 1969, na Alameda Casa Branca, em São Paulo, dá fim à vida do grande combatente da liberdade, Carlos Marighella, nascido em Salvador, Bahia, a 5 de dezembro de 1911. Filho de um imigrante italiano com uma mulher negra, ele se orgulhava de ter o mesmo sangue dos que lutaram contra a escravidão. Caminho traçado e marcado em toda a sua existência na relação do marxismo com a liberdade. Num de seus poemas deixou marcado: “Independente à dor, morrer sorrindo a murmurar teu nome: liberdade!”

Essa unidade está presente em toda sua trajetória. “O marxismo é uma doutrina revolucionária. Como tal, não pode haver nada capaz de ultrapassá-lo em matéria de liberdade. Pois o marxismo é a revolução definida em seu verdadeiro sentido histórico e constitui-se, em essência, na doutrina que, na teoria e na prática, encarna a liberdade”. (Escritos de Carlos Marighella, Editorial Livramento).

Em 1932, Marighella foi preso pela primeira vez por causa de um poema que escreveu com críticas ao interventor na Bahia, Juraci Magalhães. Depois disso, perseguido constantemente devido a sua militância política, foi obrigado a interromper seus estudos no 3º ano do curso de Engenharia. Em 1935, transferiu-se para o Rio de Janeiro. É novamente preso no dia 1º de maio de 1936 e enfrenta 23 dias de terríveis torturas praticadas pela Polícia Especial de Felinto Muller. Ele só é libertado em 1937, com a anistia. É deslocado então para São Paulo, que daí por diante passa a ser o centro de sua vida e de sua luta, até o momento em que é assassinado.

Marighella, desde o início de sua militância revolucionária, defendia a importância do trabalho de massas, de enraizar o Partido nas massas, desprezando ilusões sobre as possibilidades de alianças com a burguesia.

Mais tarde, quando escreve Porque resisti à prisão afirma que “tudo depende de que o trabalho de base tenha importância fundamental, pois é este o trabalho que impele as massas e dá solidez à ação”. E reagindo ao medo e ao pavor engendrado pela violência das classes dominantes afirmou que “a liberdade jamais será fruto do conformismo”.

É preso novamente em 1939 e torturado sadicamente no Presídio Especial de São Paulo, quando seus pés foram queimados com maçarico. Revolucionário e comunista, mais uma vez, negou-se a falar, não cedendo qualquer informação aos torturadores. Infringindo assim a seus algozes uma grande derrota, conseguiu brilhante vitória moral e política, fruto de sua inabalável e invencível fortaleza ideológica.

Durante os seis anos que esteve preso na Ilha de Fernando de Noronha, ele organizou e dirigiu o coletivo revolucionário da prisão, transformando a barbárie carcerária estadonovista em local de trabalho e de educação política.

As grandes mobilizações populares no Brasil, ocorridas no período final da 2ª Grande Guerra Mundial, põem fim ao Estado Novo, conquistam a anistia e demonstram o prestígio dos comunistas. Com isto, Marighella é eleito, pela Bahia, deputado à Assembléia Nacional Constituinte, momento em que a tribuna parlamentar torna-se uma fulgurante trincheira revolucionária de luta pelos direitos do povo.

Em 1948, com a ofensiva da reação, o PCB é cassado e Marighella passa à clandestinidade, de onde se dedica a construir a resistência popular ao avanço do fascismo. Em maio de 1964, localizado pela polícia num cinema na Tijuca, Rio de Janeiro, ele resiste combativamente à prisão, preso somente após ser atingido por um disparo no peito, quando grita: “Abaixo a ditadura militar fascista! Viva a democracia! Viva o Partido Comunista!”.

Ao descrever este episódio no mesmo livro Porque resisti à prisão, Marighella afirma que “minha força vinha mesmo era da convicção política, da certeza de que tudo isso é ditadura e de que a liberdade não se defende senão resistindo”. Reafirmando seus princípios ele faz de sua prisão um instrumento de combate e denúncia dos crimes da ditadura militar, que golpeou o país desde o 1º de abril, criando assim um amplo movimento de solidariedade, que culmina em sua libertação através de um habeas corpus.

Daí em diante, começa a questionar a postura reformista e pacifista do PCB. “Uma direção pesada como é, com pouca ou nenhuma mobilidade, corroída pela ideologia burguesa, nada pode fazer pela revolução. Eu não posso continuar pertencendo a esta espécie de academia de letras, cuja única função consiste em se reunir…” escreve ele em sua Carta ao Comitê Central do PCB. E, convicto de que a violência empregada pelos golpistas de 64 não era estranha à violência empregada pela burguesia, pelo latifúndio e pelo imperialismo para oprimir o povo, ele constrói a resistência armada, organizando a Ação Libertadora Nacional (ALN), que viria tornar-se a maior e mais importante organização de luta armada no Brasil, não dando ao regime militar um minuto de trégua para que pudesse propagandear sua suposta democracia.

Sua crítica ao reformismo e ao pacifismo do PCB; seu horror ao burocratismo; seu convencimento de que a violência das classes dominantes não deixa à classe operária e ao povo nenhuma outra via que não seja a da violência revolucionária para a conquista da liberdade, o leva a uma análise sobre o elo mais débil da dominação de classes no Brasil. Para ele, este elo débil é o campo, que trata como semicolonial e semifeudal em seu trabalho Alguns aspectos da renda da terra no Brasil. E mais, ele considera que “só em um país de fortes revivências feudais seria possível, em uma só peça, a junção de dois elementos tão opostos como o latifundiário e o capitalista, para uma exploração tão brutal”. Mais adiante Marighella afirma: “dado que a produção de café é mais destinada ao exterior e a servir aos interesses do imperialismo e dos grandes fazendeiros, pouco contribui para o desenvolvimento do meio circulante no campo… Uma tal situação, influindo em prejuízo do nosso desenvolvimento geral e contribuindo para entravar as forças produtivas, vem mostrar com clareza a força da renda pré-capitalista em todas as nossas relações agrárias”. Ele compreende que a penetração capitalista não significa a eliminação da semi-feudalidade e garantia de liberdade para os trabalhadores do campo e o melhoramento de suas condições de vida.

O conjunto de experiências e práticas marcadas pelo apego ao marxismo faz de Marighella um exemplo de comunista, que deve ser estudado e compreendido para assim verificarmos onde se localizam suas falhas.

Todo seu esforço teórico, sua concepção esbarra, a nosso juízo, na sua negação do Partido. Ele não o vê como um Partido de novo tipo, capaz de cumprir todas as tarefas preconizadas por ele próprio, cuja síntese é que tudo deveria ficar em torno dos grupos revolucionários, da luta armada. Marighella não compreendeu que o imperialismo produz a militarização generalizada e leva a uma concentração econômica maior em sua lenta agonia e morte inexorável, e que necessita de controle total sobre tudo e todos.

Mas o marxismo, como teoria científica da classe operária resolveria estes novos problemas em seu desenvolvimento no próprio processo de desenvolvimento da situação revolucionária no mundo e com a bancarrota do revisionismo. Já àquela época, apontava, através de duras lutas, o caminho que todos os comunistas e revolucionários deveriam trilhar.

Hoje, a presença de Marighella seria a de seguir lutando pela liberdade, pois para ele a situação de escravo — que muitos assumiram com prazer (com capitulação e traição) pois perderam a perspectiva histórica e estão submetidos inteiramente ao imperialismo, principalmente norte-americano — sempre foi inadmissível e inaceitável para o filho de uma negra em cujas veias circulava o sangue dos que lutaram contra a escravidão. E o mulato baiano estaria agora clamando pela liberdade de nosso Brasil, sorrindo para a morte, sempre murmurando o nome liberdade, desta vez para conquistá-la de forma definitiva.


* José Rosa é ex-militante da ALN
 

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