Resposta à animação “Os Invencíveis”, do Instituto de Memória Nacional da Polônia — Parte 2

Leia também a Parte 3.

A luta dos comunistas dentro dos campos de concentração

O vídeo esconde o fato de que os maiores levantes armados ocorridos em campos de concentração, como o do Gueto de Varsóvia, foram liderado por jovens comunistas e de outras matizes de esquerda.

Era comum a ideia de que essa perseguição nazista era mais um fardo que o povo judeu deveria carregar e aguentar; isso denota a inserção de uma ideologia de colaboracionismo com os nazis dentro dos campos. Porém, nem todos pensavam dessa forma. Contra essa desmoralização, círculos rebeldes auto-organizados se formaram; seções do Gueto eram compostas por indivíduos de esquerda: social-democratas, socialistas-sionistas e comunistas. Todos os partidos – o Partido Comunista polonês; o Bund, organização judia de massas social-democrata; o grupo de jovens marxistas-sionistas Hashomer Hatzair; e o partido sionista de esquerda Po’alei Zion se dedicaram à estratégia de organizar células que buscavam reviver atitudes coletivistas, entre uma juventude judia emocionalmente paralisada e desmobilizada.

Essa estrutura de células das organizações de jovens revolucionários de esquerda foi como uma âncora social e psicológica contra a fome e a depressão. Relata a jovem comunista Dora Goldkorn: “O dia em que pude restabelecer contato com meu grupo, foi o primeiro dos dias mais felizes em minha vida dura e trágica no gueto”. Manter o espírito confiante era crucial; atos de solidariedade como compartilhar comida foram tão importantes quanto distribuir literatura anti-nazista.

Em 1942 as várias organizações juvenis se sentiram confiantes o bastante para formarem um Bloco Anti-Fascista, cujo jornal era o Der Ruf. Sob insistência dos comunistas, um manifesto foi escrito que buscava unificar a esquerda judia no Gueto de Varsóvia, com a esperança de generalizar essa unidade política para os outros guetos. Clamando por uma “frente nacional” contra a ocupação, pela unidade de todas as forças progressistas na base de demandas comuns e pelo antifascismo armado, o manifesto ecoou as Frentes Populares do pré-guerra em sua metodologia organizacional. O Po’alei Zion e o Hashomer Hatzair se juntaram com entusiasmo, re-enfatizando a “fidelidade” à União Soviética, apesar de algumas divergências ideológicas. Apenas o Bund ficou receoso, diante do seu histórico anticomunismo e rejeição da via armada; um partido que afirmava categoricamente que a Polônia era o lugar dos judeus. O jornal deles louvava a resistência soviética e incentivava os habitantes dos guetos a resistirem porque havia uma iminente libertação a caminho, nas mãos do Exército Vermelho. O bloco tinha militantes de vários movimentos operários, entre eles Pinkus Kartin, um comunista veterano das Brigadas Internacionais à Espanha e cuja prisão e assassinato em Junho de 1943 marcaram o fim do Bloco Anti-Fascista, com a subsequente escalada da repressão aos jovens comunistas.

Meses depois é formada a Organização Judia de Combate (“Żydowska Organizacja Bojowa”), ou ŻOB, uma expressão armada do movimento de trabalhadores judeus. Um de seus comandantes mais famosos, considerado o líder do Levante do Gueto de Varsóvia, era Mordechai Anielewicz. No início, não havia muitos comunistas no ŻOB, apesar da linha política ter sido aplicada por um dos líderes do Po’alei Zion, Abraham Fiszelson, braço-direito de Kartin. Ao mesmo tempo foi criada uma organização rival, a União Militar Judaica (“Żydowski Związek Wojskowy”), ou ŻZW, que levantava suspeitas por conta de suas conexões com o nacionalismo polonês de extrema-direita, com o governo antissemita polonês no exílio e com o movimento revisionista-sionista de direita. Enquanto a propaganda do ŻZW era fortemente nacionalista, a propaganda e literatura do ŻOB encorajava o internacionalismo antirracista, oferecia posicionamentos de intelectuais sobre a situação mundial, e debatia o movimento dos trabalhadores.

O objetivo do ŻOB era provocar uma insurreição anti-nazista. Reconheciam que para isso era necessário estreitar o contato com o restante da comunidade judaica, incluindo o combate sem perdão aos que colaboravam com os nazistas, com intimidação e execuções a essa “linha auxiliar do fascismo”, entre eles o policial Jacob Lejkin, por sua “dedicação” em deportar judeus para Auschwitz, seguido de Alfred Nossig em fevereiro de 1943. Isso encorajava a construção de uma resistência para além das fileiras do ŻOB.

Na manhã de 18 de janeiro, seis meses depois da primeira deportação em massa de judeus de Varsóvia (que reduziu o número de habitantes do gueto de 400.000 para aproximadamente 75.000), militantes do ŻOB emergiram da multidão de deportados para atacar os soldados alemães, matando vários. Uma série de ataques se seguiu por quatro dias, com militantes infiltrados nas linhas de trabalhadores escravos marchando em direção a “Umschlagplatz” [Deportação de Judeus], assassinando os guardas alemães depois de dado o sinal. Isso demonstrou aos outros que uma luta concreta contra o nazismo era possível.

Havia uma atenção geral de que o gueto seria inteiramente liquidado. Uma revolta armada geral foi marcada para acontecer na próxima provocação nazi. Em 19 de Abril, 5 mil soldados da SS liderados por Jürgen Stroop entraram no gueto para remover seus últimos habitantes; em resposta, 220 voluntários do ŻOB começaram seu ataque, cada um armado com uma pistola e vários coquetéis molotov. A saída para os nazistas, humilhados por seus próprios prisioneiros, foi no final de Abril queimar os esconderijos que os combatentes criaram para escapar da captura.

Nos prédios controlados pelo ŻOB, os rebeldes hasteavam tanto a bandeira vermelha quanto a bandeira azul-e-branca. Houve uma “unidade política exemplar”, na fraternidade entre os vários grupos de esquerda em combate, de acordo com um documento anônimo e interno do Bund, que chegou a Londres em Junho de 1943. Uma passeata de Primeiro de Maio sobre as ruínas do gueto foi realizada, onde cantaram a Internacional, indicando que a juventude socialista ainda estava lutando no gueto, mesmo sob a face da morte.

Dirigentes do ŻOB cometeram um suicídio em massa no dia 8 de Maio, cercados pelo exército alemão. Na metade de Maio, o Gueto de Varsóvia foi dizimado, e a Grande Sinagoga de Varsóvia foi pessoalmente explodida pelo general Stroop, celebrando “o fim da resistência judia”. Apenas 40 combatentes do ŻOB escaparam.

A tentativa de apagar a luta política que estava envolvida em tão heroica resistência é muito perigosa, sendo uma enorme falta de respeito para com a memória dos combatentes antifascistas caídos em batalha. Na semana de 14 de Abril de 2017, a Universidade de Vilnius na Lituânia anunciou que honraria os estudantes judeus mortos pelo Holocausto – contanto que não tivessem participado em atividades políticas de esquerda ou em militância armada anti-nazista.

Contra esse ataque à história, é uma tarefa de toda a esquerda fazer um resgate real à memória dos combatentes do ŻOB, não ocultando o que muitos deles eram – jovens militantes, comprometidos com ideias de esquerda, entusiastas da construção de um novo mundo, que inspiraram republicanos espanhóis presos, camponeses franceses comunistas, e seus amigos poloneses assistindo por detrás das paredes do gueto, e seus amigos judeus que definhavam nos campos de concentração.

A história da Organização Judia de Combate é um lembrete sobre a brutalidade e falta de esperança do Holocausto, mas também um exemplo luminoso daqueles que, nas piores das circunstâncias – nas palavras do poeta partisan Hirsh Glik – nunca poderiam dizer que chegaram ao caminho final. Como dito no vídeo de propaganda do Instituto de Mentira Nacionalista da Polônia: “Nós vencemos. Porque nós não imploramos por liberdade, nós lutamos por ela”.

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