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Valores morais

30 jun

Hoje estava lendo um artigo, no site Na Mira da Verdade, que afirma que o ateu não pode ser bom sem Deus. Isto é, não pode ter valores morais que não partam de Deus. O autor do artigo não se preocupou em investigar se há outros padrões morais além dos que estão na Bíblia ou em algum outro livro religioso. Se tivesse feito isso, com certeza teria encontrado algo chamado secularismo.

Recentemente meu amigo Erick Fishuk, do blog Materialismo – Filosofia, também escreveu sobre valores morais no ateísmo, nestes dois posts:

“1 – Questão de valores”: http://www.materialismo.net/2012/07/erick-fishuk-ser-ateu-e-bom-1-questao_11.html

“2 – Ciência e objetividade”: http://www.materialismo.net/2012/07/erick-fishuk-ser-ateu-e-bom-2-ciencia-e.html

A moral secular são aqueles valores que não nos obrigam ao teísmo para que possamos confiar neles. Um exemplo é “faça o bem sem olhar a quem”; qualquer pessoa pode ter esse valor em seu “código moral”, independente da crença, ou se não tiver crenças.

Estudando Antropologia¹, descobri que uma regra presente em todas as sociedades humanas é a proibição do incesto, daí Freud imaginou uma situação que pudesse ter dado origem a isso – em seu livro Totem e Tabu. Um antropólogo também chegou à mesma conclusão: Levi-Strauss. A proibição do incesto é um valor que não parte da religião ou da falta dela, parte de uma realidade social concreta, a passagem da natureza à cultura. Mesmo que diferentes sociedades humanas classifiquem parentes consaguíneos de formas diferentes. De acordo com a hipótese de Freud, na primeira sociedade humana, que chama de “horda primeva”, havia uma ordem paterna fundada na proibição da posse das mulheres do pai pelos filhos, na repressão dos desejos primordiais (que são incestuosos) e no evitamento do parricídio. De acordo com Freud, é daí que surge a exogamia. Levi-Strauss considera que a proibição do incesto é complementar e derivada da exogamia. Quer um ou outro estejam certos, aí está mais um exemplo de valor moral que independente de crença ou descrença.

Podemos encontrar esses valores seculares também na Bíblia, no Torá, no Alcorão, no Dharma (que não é um livro, mas é como é chamado o conjunto de conceitos budistas), etc. E nesses casos, não podemos dizer que são valores religiosos. Aliás, é interessante que alguns sejam comuns entre diversas religiões, seja pelo contato que tiveram (como quando Jesus foi à Índia) ou por terem uma origem em comum.

Na Europa, durante a Baixa Idade Média, com o aumento da complexidade e importância do comércio e o surgimento da burguesia, alguns religiosos cristãos passaram a defender o lucro. Esse é um valor que partia da realidade social em que estavam inseridos, era o mundo das cidades do comércio, com outra estrutura econômica, a partir da qual saem novas ideias. É um valor secular, pois poderia ser aceito por qualquer pessoa de um burgo, ou um comerciante, seja crente ou descrente em algum deus ou religião.

Uma pessoa que comentou ao artigo afirmou:

“Se não existe um “Ser Superior” que cuida de nós, para quê existimos? Simplemente para nascer, crescer, reproduzir, envelhecer e morrer? Que vantagem há nisso? Onde está a esperança?”

Penso que essa ideia também é simplista, pois não consegue ir além dos próprios valores e descobrir o que pensam as pessoas que não compartilham destes. As possibilidades são muitas e variáveis. Há pessoas que se apegam à família (estar feliz ao dar felicidade a seu cônjuge e seus filhos), ao trabalho (busca do sucesso profissional desejado), à política (lutar por mudanças que julga úteis na resolução de algum problema, como a miséria, desnutrição, o desrespeito à educação e à saúde públicas, etc ou a defesa da revolução), etc. Todos os valores que coloquei aqui, não necessitam da crença em Deus. Sou ateu, tenho esperança em qualquer mudança para melhor pois é o que se vê na história da humanidade – sempre caminhando em direção a uma situação superior à anterior, sou contra drogas, prostituição, etc – e tudo isso não parte de justificativas religiosas, mas políticas e humanistas -, quero que ninguém esteja fadado a se tornar uma mercadoria, explorado a cada dia, esse desejo pela liberdade plena.

O mesmo comenta que o ateísmo proporcionou as seguintes ideias…

“A verdade é relativa (você pode fazer sua própria verdade);”

Essa frase nada tem a ver com ateísmo; é uma ideia que tem origem na ideologia pós-modernista, que dá importância a coisas como pluralismo, fragmentação, relativismo, etc.

Cada um dá a sua vida o sentido que julgar melhor, seja Deus ou não, cada um tem a liberdade para isso e ninguém não tem nada a ver com isso, exceto os que possuem o “dom” da arrogância.

“A ajuda vem de dentro e não de fora (auto-ajuda);”

Se você se sente bem acreditando em Deus, bom para ti, mas para mim e todos os outros ateus isso não significa nada. Portanto, não buscamos “a ajuda” (seja lá para o que ela for) em Deus. É tudo uma questão do que resolve para cada um. O que resolve para um, pode não resolver para outra. Sejamos mais humildes.

“Você é o próprio deus e o diabo, ou bem e mal, aquele que você alimentar mais será seu senhor;”

Isso é irracional, já que ateus não possuem “senhores metafísicos”; essa questão do “bem” e do “mal” é puro maniqueísmo, uma ideia que não é compartilhada pela maioria dos ateus. Aliás, ateísmo é somente a descrença/não-crença em deuses. Qualquer coisa além disso não caracteriza o conceito de ateísmo e difere de indivíduo para indivíduo.

“Tudo é permitido e tudo me convém desde que não ultrapasse os limites de outrem.”

Por que isso seria errado? “A minha liberdade termina quando começa a do outro”. Fanáticos como ele deveriam aprender isso, afinal vivemos em um mundo com religiões diversas. Tentar impor uma determinada, porque você a julga melhor, apenas denuncia o caráter muito duvidoso de seus valores morais. Será mesmo que essa é uma atitude boa? Imagine se você vivesse em um país cuja religião majoritária não fosse o cristianismo, por exemplo, e passasse a ser abordado por pessoas de uma outra religião que querem forçá-lo a seguir aquelas crenças, mas que você não deseja para si. Como se sentiria? Obviamente, sentir-se-ia mal! A crença religiosa é uma questão puramente pessoal. Não se esqueça desse ensinamento, caro cristão: “Em tudo, faça aos outros o que você quer que eles lhe façam; nisto se resumem a lei e os profetas.” (Jesus Cristo, em Mateus 7:12) Na prática, uma frase que equivale também a “não faça aos outros o que não gostaria que fizessem contigo”, pelo motivo acima explicado.

Notas:

¹ Antropos e Psique, de Silas Guerreiro (org.), João Baptista Cintra Ribas, Kênia Kemp, Luiz Henrique Passador e Marian Dias Ferrari. Páginas 54 a 61.

 
1 comentário

Publicado por em 30/06/2012 em Filosofia, Religião

 

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Uma resposta para “Valores morais

  1. Erick Fishuk

    03/07/2012 at 11:08

    Muito bom! Não precisaria acrescentar mais nada ;=)

    Aliás, a questão do “Você precisa de Deus pra ser bom” já cai assim: pessoas também matam em nome de Deus, logo Deus não é necessariamente garantia de ordem moral… Isso devia ser óbvio para a maioria das pessoas, mas, por incrível que pareça, não é!

    “As pessoas não precisam de Deus, mas de polícia…”

    Grande abraço!

     

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