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(3) PCB: Vitória sobre o nazi-fascimo, Conferência da Mantiqueira e as ilusões constitucionais

03 dez
Núcleo de estudos do Marxismo-leninismo-maoísmo
O Partido Comunista do Brasil havia ousado assaltar os céus: 1935! Mas o Levante Popular armado fora derrotado e os comunistas e as massas duramente perseguidos, presos, torturados e mortos. Nos anos que se seguiram os gendarmes do fascismo em nosso país brindavam a uma vitória impossível, a destruição do partido comunista. Em 1941, Paris sucumbira à blitzkrieg nazista, atrás dela estavam Holanda, Noruega, Bélgica e Dinamarca. No apogeu da vitória nazista, Vargas saudara a nova era hitleriana e um navio cargueiro alemão era recebido no Brasil com honras de Estado. Delírios febris de uma longa noite que não tardaria em ser rasgada por inscrições firmemente desenhadas nos portos, fábricas e muros da cidade: Abaixo Vargas! Viva o Partido Comunista do Brasil – PCB!

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Derrota do fascismo na Europa, em 2 de maio de 1945

Introdução

As inscrições haviam sido feitas pela Comissão Nacional de Organização Provisória — CNOP, formada em 1941, que reunia quadros e militantes de diversas regiões do país que escaparam do cerco da repressão e assumiram a tarefa de reconstruir os fios da organização partidária entre as massas trabalhadoras. Estavam entre eles: Pedro Pomar, Maurício Grabois, João Amazonas, Diógenes de Arruda Câmara, Amarílio Vasconcelos, Júlio Sérgio de Oliveira e Mário Alves.

A luta pela reconstrução e consolidação do PCB teve que enfrentar o surgimento de posições liquidacionistas de ex-dirigentes encarcerados e vindos do exterior, que advogavam que esse processo seria um entrave à política de União Nacional. Entre eles estavam Fernando Lacerda, Silo Meireles, Carlos Marighella, Agildo Barata, Orestes Timbaúva e José Maria Crispim.

Conferência da Mantiqueira

Dois anos depois a CNOP realiza uma Conferência Nacional, que ficará conhecida como Conferência da Mantiqueira. Nela foram eleitos para o Comitê Nacional, além dos quadros da CNOP, Luis Carlos Prestes e Carlos Marighella.

Na Conferência as definições se resumem às questões táticas do momento. Também não é realizado um profundo balanço sobre o Levante de 35. Esta era tarefa fundamental com que se poderia tirar preciosas lições e elucidar questões cruciais da revolução brasileira.

Entretanto, o PCB é tomado pela falsa ideia de que, com a situação de vitória sobre o fascismo e a atmosfera democrática criada com o fim da guerra, abrira-se a possibilidade para uma transição pacífica no mundo. Pensando assim, a nova direção cairá nas ilusões constitucionais e lançará a palavra de ordem “Constituinte com Vargas”. O reformismo se impulsiona lançando bases profundas no PCB, acarretando graves prejuízos para a revolução brasileira. Estas mesmas bases terão grande peso no desenvolvimento posterior do partido.

Para compreender estes acontecimentos se faz necessário abordar de forma mais detida alguns aspectos da situação mundial à época, dada a importância das modificações ocorridas no mundo após a II Guerra Mundial. A compreensão desta nova situação e um acertado balanço da experiência acumulada pelo proletariado no período se tornara decisiva para compreender os novos desafios que o movimento comunista enfrentava.

A situação política no pós-guerra

A II Guerra Mundial em seu início (1939) era “injusta, predatória e imperialista em caráter”, como afirmou Mao Tsetung. Mas quando, em 22 de junho de 1941, a Alemanha invadiu a União Soviética, ocorreu uma importante mudança no caráter deste confronto. A URSS opôs à guerra injusta de dominação, a guerra justa de libertação do povo, atraindo o apoio e a solidariedade da classe operária e dos povos oprimidos de todo o mundo. A II Guerra tornou-se assim um componente importante da revolução proletária mundial.

Massas de todo o mundo exigiram que os governos de seus países decretassem guerra ao Eixo. Partidos comunistas de países acossados pelo fascismo, na clandestinidade, assumem a vanguarda das guerrilhas antifascistas em diversos países da Europa. O Partido Comunista da China, através da Frente Única Antijaponesa, combate a agressão nipônica. Por iniciativa da Cominter são formadas as Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola, para onde concorrem milhares de comunistas de todo o mundo. Muitos brasileiros combateram na Espanha contra o fascismo.

Com a vitória sobre o Eixo, a situação política no mundo pós-guerra se modifica substancialmente. A derrota do nazi-fascismo significou uma derrota para todo o sistema capitalista mundial e modificou a correlação de forças no mundo.

“Das seis chamadas grandes potências imperialistas (Alemanha, Japão, Inglaterra, Estados Unidos, França, Itália), três foram eliminadas em consequência da sua derrota militar (Alemanha, Itália e Japão). Também a França foi debilitada e perdeu a sua antiga importância como grande potência. Deste modo, restaram somente duas “grandes” potências imperialistas mundiais — os Estados Unidos e a Inglaterra; mas as posições de um desses países, a Inglaterra, foram abaladas”1 .

Logo, em 1949, um acontecimento de transcendental importância produz grandes mudanças no cenário mundial. A vitória da Revolução Chinesa incorporou 475 milhões de pessoas ao campo socialista e representou uma verdadeira viragem na História. Como observou Mao Tsetung, a China era o “centro de gravidade da Ásia, ao apoderar-se da China os imperialistas se apoderariam de toda Ásia”2. Com isso a Revolução Proletária Mundial atingira um equilíbrio estratégico de forças com o imperialismo.

Após a vitória da revolução na China, o imperialismo foi derrotado em suas agressões na Coréia (1950-53), Vietnã (1946-54); Cuba (1959), Argélia e outros países da África (1956-62).

Podemos resumir as modificações ocorridas no pós-guerra da seguinte forma:

  1. Surgimento do campo socialista, reunindo 12 países com uma população total de cerca de 1 bilhão de pessoas, ou um terço da população mundial.
  2. As lutas dos povos na Ásia, África e América Latina, como zonas onde convergem as contradições no mundo contemporâneo. “Centros da tempestade da revolução mundial”.
  3. Crescimento do movimento de massas nas metrópoles imperialistas.
  4. Um grande desenvolvimento do Movimento Comunista Internacional.

O novo papel do imperialismo ianque

Ao contrário de uma paz duradoura, esta tinha um caráter apenas relativo e transitório, dada a situação criada com o fim da guerra. Logo, o imperialismo ianque ocupou o lugar dos fascistas alemães, italianos e japoneses na campanha anticomunista e estendeu um império mundial sem precedentes. Sua política de dominação aponta principalmente para a Europa, Ásia e América, e suas armas para a pátria do socialismo no mundo, a URSS.

É preciso ver que, diferentemente de um fenômeno meramente europeu, o fascismo cresceu como fruto direto do desenvolvimento das formas de dominação burguesa em sua etapa imperialista. O fascismo evoluiu especialmente a partir da grande Revolução de Outubro de 1917 como contrarrevolução armada e se tornara meio convencional de dominação. Basta dizer que em 1935, quando se reuniu o VII Congresso da Cominter, dos 76 partidos comunistas que estavam representados, apenas 22 viviam na legalidade.

A democracia burguesa após 1945, diferentemente de renunciar aos métodos fascistas, do anticomunismo, passou a combinar a caça às bruxas com a ação do oportunismo e os métodos social-democratas de chantagem e suborno.

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Mao Tsetung proclama a República Popular da China, 1º de outubro de 1949

Em seu informe à Conferência dos Partidos Comunistas na Polônia de 1947,Zhdanov alertara que “a campanha contra o comunismo, proclamada pelos círculos dirigentes americanos, que se apoiam nos monopólios capitalistas, tem como consequência logicamente inevitável a violação dos direitos e dos interesses vitais dos trabalhadores americanos, a fascistização interna da vida política dos Estados Unidos. (sublinhado nosso)

O plano militar estratégico dos Estados Unidos prevê a criação, em tempo de paz, de numerosas bases militares e quartéis muito distantes do continente americano, destinados a serem utilizados para objetivo de agressão contra a URSS e os países da nova democracia.

Para o ano de 1947-48, os Estados Unidos destinaram às suas forças armadas 35% de seu orçamento, onze vezes mais do que em 1937-38. No início da II Guerra Mundial, o exército dos Estados Unidos ocupava o 17º lugar entre os exércitos dos países capitalistas, enquanto hoje ocupa o primeiro. A expansão da sua política de dominação se encontrava clara no plano Marshall3.

No que concerne à Europa, os planos de expansão do imperialismo encontravam na chamada “Doutrina Truman” as seguintes medidas:

  1. Criação de bases americanas na parte oriental da bacia mediterrânea, com o fim de consolidar o domínio americano nesta zona;
  2. Apoio ostensivo aos regimes reacionários da Grécia e da Turquia, que representam fortalezas avançadas do imperialismo ianque contra a nova democracia nos Bálcãs (ajuda militar e técnica, concessão de empréstimos).

O próprio A. Zhdanov alertara repetidamente que: “O perigo principal para a classe operária consiste, atualmente, na subestimação das próprias forças e na superestimação das forças do adversário”4.

Dissolução da Cominter

Em 1943 fora apresentada pelo Presidiun Executivo da Internacional Comunista a proposta de sua dissolução, baseada principalmente nos seguintes pontos:

  1. A IC cumprira seu papel. Agrupou e impulsionou as diferentes forças do movimento operário, formando e desenvolvendo autênticos partidos marxistas-leninistas.
  2. À maior complexidade e diversidade da situação política e das tarefas em cada país já não correspondiam aos métodos e formas existentes na Cominter, tornando-se mais um empecilho no desenvolvimento dos partidos comunistas em cada país.
  3. Se desmascararia com isso toda a propaganda imperialista dos pactos anti-Cominter e de que os partidos comunistas não são organizações nacionais e sim representantes dos interesses “russos”.

A declaração sobre a dissolução salientava ainda que para os comunistas as formas de organização devem servir à política e não o contrário, e de que também Marx, que havia fundado a Primeira Internacional, procedeu a sua dissolução quando esta já havia cumprido sua missão.

Todo o período dos anos de 1930 e 1940 como continuação das décadas anteriores constituem não apenas uma das mais heroicas páginas na epopeia da humanidade pela liberdade, mas também uma extraordinária experiência para o movimento comunista internacional acerca da estratégia e tática do proletariado. No entanto, experiências capitulacionistas como a do Partido Comunista da Itália, sob liderança de Togliatti, impunham a realização de um balanço mais detido.

Em particular se fazia necessário o balanço da experiência concreta da aplicação da linha de Frente Única, definida pelo VII Congresso da IC, pelos diferentes partidos comunistas no mundo. O aprofundamento de tal balanço poderia levantar importantes problemas e questões de suma importância para estabelecer corretamente a estratégia e tática do proletariado e seus métodos de luta, assim como responder aos novos desafios que a nova situação demandava. Neste sentido, a Cominter dissolvida em 1943, e mesmo o órgão que a substituiu, a Cominforn (Informação Comunista), poderia ser um importante instrumento para a luta ideológico-política deste balanço.

Além disso, a situação que se abrira após 1945, de imenso desenvolvimento do MCI, fez surgir em seu seio, como antítese de seu desenvolvimento, uma contracorrente revisionista, oposta ao socialismo e à revolução.

Browderismo e o revisionismo moderno

Este novo revisionismo foi representado primeiro por Earl Browder, secretário do Partido Comunista do USA. Nele já estavam contidos os principais elementos do revisionismo moderno, que logo foi desenvolvido por Tito na Iugoslávia, Togliatti na Itália, Thorez na França, sendo finalmente sistematizado por Krushov no XX Congresso do PCUS, em 1956.

“Browder começou a revelar seu revisionismo por volta de 1935. Seu lema era: “O comunismo é o americanismo do século XX”5.

Em suas obrasTeerã: Nosso Caminho na Guerra e na Paz”; “Teerã e América”, e “Os Comunistas e a Unidade Nacional”, Browder “pregava que a Declaração de Teerã, firmada pela União Soviética, Estados Unidos e Grã-Bretanha tinha aberto perante o mundo uma época de ‘prolongada confiança e cooperação’ entre o capitalismo e o socialismo e podia assegurar uma ‘paz estável por gerações’ (…) .

Portanto, era necessário opor-se a toda ‘explosão do conflito de classes em nosso país’ e ‘reduzir ao mínimo e colocar limites definidos’ à luta de classes interna.

Browder advogava que depois da II Guerra Mundial, certos países ‘alcançaram as condições em que se tornou possível uma transição pacífica ao socialismo’.

Difundia o ponto de vista de que uma nova guerra seria ‘uma devastação verdadeiramente catastrófica de uma grande parte do mundo (…)’ e de que era necessário ‘nossa ênfase num acordo que supere todas as divisões de classe’ para acabar com o desastre da guerra6.

Como observara Mao Tsetung: “A linha oportunista de Browder não foi criticada e liquidada pelo movimento comunista internacional em seu conjunto. Nas novas circunstâncias do pós-guerra, a corrente revisionista experimentou um novo desenvolvimento nas fileiras comunistas de certos países que declararam sua adesão à linha de ‘transição pacífica’. Esta linha tem sua representação destacada na teoria das ‘reformas estruturais’ de Togliatti, que advoga que o proletariado chegue à direção do Estado pela via legal da democracia burguesa e que se leve a cabo a transformação socialista da economia nacional mediante uma ‘nacionalização’ e uma ‘programação’ que sirvam ao capital monopolista”7.

Partidos comunistas como o italiano (2,3 milhões de membros) e o francês (1,3 milhão de membros), que haviam desenvolvido heroicamente as guerrilhas antifascistas, capitularam frente a burguesia, desarmando suas unidades militares, eliminando a condição de se garantir a hegemonia do proletariado na frente única, integrando-se à legalidade da democracia burguesa.

Assim se concretizara o perigo de tomar a luta contra o fascismo como uma etapa estratégica à parte da revolução. O próprio Dimitrov advertira no VII Congresso da Cominter (1935), o perigo de se relegar às mãos da burguesia a hegemonia na frente.

O caso mais notório foi o da Itália, onde o Partido Comunista, PCI, comandou o desarmamento das forças guerrilheiras e ingressou no governo de coalizão hegemonizado pela burguesia, tornando-se Togliatti ministro da justiça.

A vitória da Guerra Popular na China

Também na China a influência do browderismo teve eco através das posições de Liu Shao Chi, que, após a guerra de resistência contra o Japão, preconizou que a China havia passado a uma nova etapa “de democracia e paz” e que os partidos comunistas deveriam passar da luta armada à luta não armada, de massas e parlamentar. Queria que fossem entregues o exército e as bases de apoio revolucionárias a Chiang Kai-shek, para alçar postos oficiais no governo reacionário e cooperar com a construção do país, ou seja, a “União Nacional”.

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Prestes sai da prisão e sobe ao palanque do lado de Vargas

Para derrotar as influências do revisionismo no interior do partido, o PCCh, aplicando resolutamente a dialética materialista, foi quem compreendeu a questão do revisionismo no interior do partido comunista e a luta de linhas como força impulsionadora do desenvolvimento partidário8.

Mao Tsetung refutou as falsas considerações de Browder e demonstrou como os imperialistas ianques substituíam Hitler nas palavras de ordem anti-soviéticas como pretextos para explorar e dominar o povo em seu país e em outras nações. Frente à ameaça de uma agressão imperialista à URSS, a luta no campo diplomático e determinados acordos com as potências capitalistas eram justas. Entretanto, tais compromissos estabelecidos na diplomacia internacional “não exigem dos povos do mundo capitalista compromissos com seus próprios países“. Pelo contrário, de que conjurar a guerra imperialista era possível se “as forças populares passassem à luta resoluta e efetiva contra as forças da reação mundial”9.

Foi neste período que, demarcando posição sobre a situação internacional, Mao Tsetung formulara sua importante tese e conceito fundamental para o povo revolucionário: “O imperialismo e todos os reacionários são tigres de papel”. Mao explicou a dupla natureza do imperialismo: do ponto de vista tático são tigres verdadeiros, devoradores de gente, enquanto que do ponto de vista estratégico são tigres de papel. Na realidade, em longo prazo não são os reacionários, mas o povo que é poderoso.

Em essência, somente o  PCCh, sob a liderança de Mao Tsetung, soube aplicar corretamente a linha da Frente Única, derrotando as posições de Liu Shao-chi. Diante da invasão japonesa, o PCCh formou a frente única com o Kuomintang e outras forças democráticas. Dirigindo o Exército Popular de Libertação, manteve a independência do proletariado no seio da Frente Única Antijaponesa. Quando foi expulso o invasor entrou em questão a hegemonia, e o PCCh soube romper esta unidade e desenvolveu a terceira guerra civil revolucionária como guerra de libertação contra a grande burguesia compradora-burocrática representada pelo Kuomintang e contra o imperialismo ianque que a apoiava, levando a revolução até o final, proclamando a República Popular em 1949.

Diferentemente da França e Itália, na China o proletariado não entregou as armas e partindo de suas bases de apoio desenvolveu a luta armada como Guerra Popular até a tomada do poder em todo o país. Esta não é apenas uma especificidade da Revolução Chinesa, mas uma continuação direta do desenvolvimento dialético do movimento revolucionário do proletariado desde a Comuna de Paris (1871) e a Revolução de Outubro (1917), dentro das condições surgidas após o ascenso do fascismo e da guerra.

É precisamente isso que Stalin destacava ao afirmar a particularidade do desenvolvimento da revolução na China, que representava uma viragem na história da humanidade. Consiste em que a contrarrevolução armada combate não mais o povo desarmado, mas a revolução armada. Stalin afirmava que esta era uma das particularidades e uma das vantagens da Revolução Chinesa.

Assim podemos ver como era questão chave tirar lições das experiências destes grandes acontecimentos para poder se preparar para a nova situação criada no pós-guerra, separar marxismo de revisionismo e estabelecer a linha geral para o movimento comunista internacional. A ausência deste balanço (síntese) de forma organizada não permitiu assimilar toda a riqueza dos erros e acertos para impulsionar a ofensiva da revolução proletária, terminando por favorecer a ação do revisionismo moderno que se gestara desde o início dos anos de 1940.

O PCB e a política de “União Nacional”

Também no Brasil as posições do browderismo penetraram profundamente na direção do PCB, influenciando a luta interna e causando grandes prejuízos para o partido e a revolução brasileira.

A Conferência da Mantiqueira definira como principal tática concentrar todas as forças na luta decidida para ajudar a derrotar o nazi-fascismo e apoiar a União Soviética. Os comunistas organizaram ativa campanha pelo envio de tropas brasileiras ao lado dos aliados.

Vargas rompe relações diplomáticas com a Alemanha e a Itália, declara guerra ao Eixo e decide enviar tropas à guerra ao lado das forças aliadas.

Já em 1944 o PCB substitui a consigna revolucionária de 1935 de “Todo poder à ANL” pela oportunista de “União Nacional na Paz e na Guerra”. A mesma de Browder, logo substituída por União Nacional para a Democracia e o Progresso.

Com a vitória dos aliados em 1945, o PCB organiza vigorosa jornada pela anistia aos presos políticos, coroada de pleno êxito, sendo Prestes e demais dirigentes libertados. Prestes assume a direção do Comitê Nacional eleito e o amplia para quadros vindos do liquidacionismo, sem que estes tenham feito nenhuma autocrítica.

O balanço superficial de 1935, tomado como um erro de tipo golpista, e a entrada do Brasil na guerra levam a direção do PCB a mudar a caracterização do governo Vargas, passando a considerá-lo um representante da ala “progressista” da burguesia nacional, sendo um aliado da classe operária e cabendo ao partido apoiar setores progressistas no governo através da política de “União Nacional”.

É de suma importância destacar desde já que esta tese da existência de “setores progressistas no governo”, devendo então os revolucionários “apoiar tal governo”, é a enfermidade que se tornou crônica no movimento popular e de esquerda no país, manifestando-se quase que como ato contínuo na vida do partido comunista, de suas frações e da “esquerda” brasileira, no período mais recente e dias atuais.

A influência do browderismo como reformismo fica evidente quando, com o PCB já na legalidade, Prestes, em seu famoso discurso no estádio de São Januário, no Rio de Janeiro, afirma: “Antes da guerra, nós, comunistas, lutávamos contra a democracia burguesa aliada dos senhores feudais mais reacionários e submissa ao capital estrangeiro colonizador, opressor, explorador e imperialista. Hoje, o problema é outro, a democracia burguesa volta-se para a esquerda(sublinhadonosso). Prestes fala de uma “derrota definitiva do fascismo” como sendo possível através da política de “União Nacional”. Ora, na condição de país semicolonial, a experiência histórica confirma, é pura traição pretender unir o povo em torno do velho Estado que é o principal instrumento da dominação imperialista.

Vejamos como Prestes repete os mesmos argumentos de Browder, de capitulação frente ao imperialismo e de conciliação de classes: “Mas cabe igualmente a todos nós, os democratas do mundo inteiro, apoiar e sustentar a colaboração das três grandes potências, lutando sem repouso pela paz interna em nossa própria Pátria, não poupando esforços para encontrar sempre a solução harmônica e pacífica de todas as divergências e contradições de classes que porventura nos possam separar e dividir” (Prestes, 1945).

E ainda: “Todos juntos, porém, operários e patrões progressistas, camponeses e fazendeiros democratas, intelectuais e militares, havemos de vencê-la, dirigir nossa Pátria pelo caminho do progresso e salvar nosso povo do aniquilamento físico”. (…) “O imperialismo está moribundo e o capital estrangeiro perde a sua característica mais reacionária para se transformar em fator de progresso e prosperidade para todos os povos” (Prestes, 1945)(todos sublinhados são nossos).

O governo Vargas chegara ao final da guerra profundamente desgastado. Os grandes clamores das massas no mundo e no Brasil, em defesa da democracia e contra o fascismo, tornavam a sua permanência no governo e seu Estado Novo insustentáveis.

Temendo perder o controle frente às crescentes manifestações populares pela democracia, a grande burguesia e os latifundiários, orientados pelo imperialismo ianque, promovem um golpe militar de Estado depondo Vargas. Para tal serviram-se da glória da FEB, da qual um dos comandantes, o general Eurico Gaspar Dutra, totalmente integrado ao comando das forças armadas do USA, tornara-se homem de sua confiança.

O governo Dutra convoca eleições gerais e a Assembleia Constituinte e o PCB obtém expressivas votações populares e bancadas fortes no parlamento.

O PCB, desde sua reconstrução, realizara fecunda atividade entre as massas, lançando bases para o rápido desenvolvimento de suas fileiras. Por sua combatividade e destemor nos anos do Estado Novo, os comunistas gozavam de grande prestígio entre as massas no país. São os heroicos combatentes de 1935, são também parte dos contingentes que lutaram contra o nazi-fascismo na Europa, incorporados na FEB e nas resistências armadas organizadas pelos comunistas naquele continente.

O PCB impulsiona amplas organizações na cidade entre trabalhadores, estudantes, artistas e intelectuais de peso, como Jorge Amado, Cândido Portinari, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e outros. Grandes comícios são realizados. No campo, organiza ligas camponesas em diversas partes do país.

Nas eleições de 1947 são maiores os êxitos eleitorais do PCB, que se torna majoritário em vários centros operários do país. Neste ano, o partido chega a ter mais de duzentos mil afiliados. A euforia com o reformismo e o legalismo tomam conta do Partido. Esta euforia, no entanto, não duraria muito tempo.

O terror anticomunista

Dutra, como agente direto do imperialismo ianque, que agora consolidara suas posições enquanto potência dominante, aplicará a política do anticomunismo segundo os padrões ianques da “Guerra Fria” que tem como objetivo estratégico consolidar sua hegemonia no campo capitalista, através de sua integração mundial econômica, militar e política, ademais da ingerência e influência culturais.

No mesmo ano, o PCB é posto na ilegalidade e os mandatos dos comunistas, cassados.Dutra ordena feroz repressão e, sem qualquer pretexto, prende e tortura os comunistas, intervém nos sindicatos, destituindo seus dirigentes. Em janeiro de 1948 cassa o mandato de todos os parlamentares eleitos pela legenda do Partido Comunista do Brasil e passa, em operações encobertas ou não, a assassinar numerosos militantes.

O PCB volta à ilegalidade acossado pela brutal repressão. A ofensiva de Dutra é parte da ofensiva contrarrevolucionária capitaneada pelo imperialismo ianque. No interior do PCB ganha força a luta contra as ilusões constitucionais. Com o Manifesto de janeiro de 1948, o PCB iniciará um processo autocrítico do reformismo, que se aprofundará com o famoso Manifesto de agosto de 1950, retomando as teses do caminho revolucionário armado para a tomada do poder.

Em que pese todas as debilidades criadas com o fenômeno de um reformismo embasado teoricamente, o processo de desenvolvimento do PCB obtém importantes avanços. E o principal é a formação de uma nova geração de quadros e militantes comunistas mais forjados e com maior domínio do marxismo-leninismo. O PCB rompe profundamente com a forte tendência obreirista de suas origens, que buscava identificar as influências pequeno-burguesas apenas na origem de classe dos militantes. O PCB aumentara seu trabalho entre as massas e adquirira maior maturidade política.

Mas vejamos que, assim como ocorreu com a maior parte do movimento comunista internacional, o PCB não se empenhou em realizar um sério e aprofundado balanço sobre a experiência de Frente Única. Um esforço em sintetizar as experiências de 1935 com a ANL e a de outras internacionais, como a exitosa Revolução Chinesa, poderiam seguramente levar o PCB a tirar acertadas e preciosas lições. Poderia levar à ruptura com concepções dogmáticas, subjetivistas, atacar na raiz o reformismo para persistir pelo caminho revolucionário.

Em particular, os métodos conciliadores adotados por Prestes nesta fase servirão para fazer sobreviver no interior do Partido o revisionismo que fora fincando bases sólidas na direção do PCB, ora de forma aparente, ora de forma velada. Apesar de certa viragem à esquerda com o Manifesto de agosto de 1950, a influência do browderismo, com seu liquidacionismo, não tardaria a voltar à tona.

1 – Zhdanov, Andrei. Pela paz, a democracia, e a indepência dos povos.Setembro de 1947.

2 –  Mao Tsetung. Adeus Leighton Stuart!. Agosto de 1949

3Plano Marshall: consiste na formação de um bloco de países ligados com regular empenho aos USA e na oferta de créditos americanos aos países europeus, em pagamento da renúncia à sua independência econômica e, em seguida, à sua independência política. É, além disso, fundamental no “Plano Marshall” a reconstrução das regiões industriais da Alemanha Ocidental, controladas pelos monopólios americanos. (Zhdanov, Ibidem).

4 – Zhdanov. Op. Cit.

5A revolução proletária e o revisionismo de Kruchov, de março de 1964. Nono Comentário do PCCh na polêmica com o PCUS (1963/64). A Carta Chinesa. Ed Terra.

6 – Idem

7 – Ibidem

8 – O PCCh desenvolveu como método de luta de duas linhas as campanhas de retificação, sendo a primeira delas a realizada em Yenan em 1942, que combateu o subjetivismo, permitindo derrotar os desvios de direita e “esquerda” e integrar a linha política geral com amplas massas. Tal contribuição será decisiva para a luta contra o revisionismo moderno e desembocará na Grande Revolução Cultural Proletária, como abordaremos em artigos posteriores.

9 – Mao Tsetung, Entrevista com a jornalista americana Anna Louise Strong, agosto de 1946.

 
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Publicado por em 03/12/2011 em Brasil, História, Marxismo

 

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