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Experiências de Almir na União Soviética

25 ago

Por Thiago Dutra Vilela

Conheci o Almir pela internet, numa comunidade do orkut. Depois de participar de alguns tópicos obtive a informação de que ele havia morado na União Soviética entre as décadas de 70 e 80. E atualmente mora na minha cidade!

Foi a chance de obter mais informações sobre essa época tão pouco estudada e tão mal lembrada – pela direita e pela esquerda. Acredito que há de se compreender o que aconteceu para poder aprender com todos os erros e acertos do chamado “socialismo real”.

E para termos acesso à verdade não basta apenas investigar os relatos de Moscou. Adianta menos ainda apenas analisarmos a propaganda dos Estados Unidos e da mídia Internacional. Apresento, então, o ponto de vista de Almir, um comunista, na época estudante universitário, estagiário e posteriormente um trabalhador do país. Almir fala sobre a juventude, a imprensa, a economia e a política soviética na sua época.

Vamos começar então perguntando, porquê e quando você foi para a URSS Almir?

Tive que fugir da Ditadura Brasileira, onde inclusive fiquei preso durante um tempo. Fui estudante e estagiário (sou engenheiro geólogo-petroleiro) em um campo de exploração de petróleo na Bielorússia (cidade de Rhêtchitsa). Estive na URSS de 1974 a 1985.

E como era o perfil da juventude soviética? A escola era bem vista? Muitos faziam faculdade?

A juventude que conheci era bastante tranqüila. Após cursar uma escola de 11 anos todos estavam preparados para a vida adulta. Podiam então ou continuar estudando ou trabalhar.

Se decidissem pelo ensino superior todos os estudantes eram bolsistas. Praticamente não havia cursos noturnos para jovens. Os cursos noturnos destinavam-se a adultos que desejavam fazer alguma suplementação.

Como praticamente todos os rapazes serviam as forças armadas eles ingressavam na universidade um pouco mais maduros que as jovens. Uns poucos “escapavam” do serviço militar e ingressavam na universidade, mas eram obrigados a “servir” em épocas especiais (verão e início do outono) durante os estudos.

Como a diferença salarial não era muito grande, não havia a pressão muito grande para entrar na universidade. Havia inúmeros cursos técnicos de segundo grau (incluidos na formação geral de 11 anos) e os cursos superiors de duração menor (chamados de “térrnikum”). Terminada a universidade havia a opção de continuar uma pós-graduação ou trabalhar. Havia a “rhaspridilênie” (distribuição) – que era o emprego através de uma guia de encaminhamento.

Como havia regiões que o governo queria desenvolver (Sibéria, Mar Branco e outras) havia o incentivo salarial e outros benefícios. Se o salário em Moscou era 100, naquelas regiões especiais chegava a ser 140, ou mais… além de incentivos como moradias novas e outros.

Muito interessante. E quanto as problemas sociais, haviam “crianças de rua” e mendigos nesse período?

Há um fenômeno extremamente degradante nas ruas das nossas cidades (moro em Niterói). Em muitos cruzamentos (sinais ou semáforos) há crianças (adultos, velhos, adolescentes) vendendo coisas.

Ultimamente as crianças tentam fazer os chamados “malabares”. Morei onze anos na URSS, viajei (como estudante de geologia) a várias repúblicas (Ucrânia, Moldávia, Bielorússia) e conheci o “profundo campo” – interior do país.
Nunca vi uma criança descalça ou mal vestida. Todas as crianças estavam na escola integral. Ainda sobre crianças, havia uma organização chamada “pioneiros”. Nos clubes dos “pioneiros” havia atividades culturais, esportivas e educacionais.

Perto do circo (novo) de Moscou (estação de metrô “leninskye góri) está o “Palácio dos Pioneiros” – um capítulo a parte. Lá no “palácio (uma área enorme com vários prédios) havia vários “círculos”. Fui voluntário de um destes “círculos” que se chamava “Clube Internacional da Amizade” – em russo KID. No KID as crianças aprendiam línguas estrangeiras. Eu dei aula de português.

Atualmente vários adultos russos falam português que aprenderam comigo no “Palácio dos Pioneiros”.

Vamos entrar então num assunto mais polêmico. Todo mundo sabe que durante a Guerra Fria os EUA não pouparam esforços para satanizar o Estado Soviético. Isso era nítido desde as produções cinematográficas até o noticiário local.

Vocês tinham acesso a jornais internacionais? Como eram as publicações soviéticas? Como era o sistema de televisão soviético?

A imprensa soviética era muito ampla, com dezenas de títulos dos mais variados. De acordo com o interesse você podia encontrar publicações desde futebol e xadrez até ciência popular. Claro que havia a imprensa especializada para os mais diferentes círculos de leitores: Revista de geologia, por exemplo, se podia adquirir por assinatura.

As editoras lançavam catálogos de publicações para o ano seguinte e você podia fazer encomenda. Quando o livro chegava na livraria, você recebia um aviso e ia lá adquirí-lo. Os preços dos livros, jornais e revistas eram muito baixos.

Havia jornais (semanais) com resumos dos jornais estrangeiros (jornal “Zarubijom” – que significa “no exterior”). As publicações de diversos paises socialistas eram adquiridas dos “kiosks” (banca de jornal) também a preço baixo. As bancas dos jornais recebiam todo tipo de publicação do exterior como “Veja”, “Jornal do Brasil”, “Newsweek”, “Times”, “Der Spigel”, “Corrieri de la serra”, “Le monde” “Tribula Ludo” (da Polônia), “L’Humanite”, Lunitá (enfim todos os jornais dos PCs de todo o mundo – naturalmente a nossa “Voz Operária”).

Sobre a televisão, haviam programas especiais sobre noticiário internacional “Cevódnia v mire” (“Hoje no mundo” -programa diário). O programa “Vrêmia” (“Tempo”) era uma grande revista noticiosa diária com vários segmentos (tipo JN); programas infantis (os desenhos eram muito bons) como “Spakóinaia nótch malichí” (“boa noite pequeninos”). Ainda na TV: muitos filmes das mais variadas origens (do exterior – basicamente dos paises do CAME-Conselho de Ajuda Mútua Econômica-, mas havia bons filmes dos paises capitalistas também).

Nas repúblicas federadas havia os programas locais em língua local e os programas nacionais (de toda a União) em russo.

E como a população, de forma geral, entendia o lado oposto do sistema? Como era visto a interferência estadunidense? O que sabiam da América Latina? O que pensavam sobre Cuba, por exemplo?

A população era muito bem informada sobre o que acontecia “do outro lado”. No entanto havia uma certa dúvida.

Vou dar um exemplo concreto: Houve um filme feito aqui no Brasil baseado na obra de Jorge Amado “Capitães da Areia”. Ali são apresentadas as crianças pobres de Salvador tendo que “se virar” para ganhar a vida. Mal sabia Jorge Amado que a situação iria piorar e muito.

Pois bem, um motorista de taxi perguntou-me se realmente há crianças tão pobres ou se aquilo era “propaganda do governo”.

Na cabeça dos soviéticos não cabia uma realidade tão cruel – as cenas daquele filme lhes parecia coisa inventada. Eles já haviam esquecido que as crianças russas já tinham passado por aquela mesma situação na época do czar. Ou seja, aquela situação para eles era um passado remoto.

As informações sobre a América Latina e sobre Cuba eram amplas. Muitos soviéticos passavam férias em Cuba – como em outros paises do CAME (URSS, Polônia, RDA, Hungria, Romênia, Bulgária, Tchecoeslováquia, Mongólia, Cuba).

Mudando um pouco de assunto, qual é a sua opinião sobre Stálin? Como o povo soviético o considerava?

Bem, personalidades históricas têm que ser vistos dentro do contexto em que viveram e atuaram. Não podemos perdoar Stálin pelos seus erros (como diziam os soviéticos – evitando a palavra crimes). Foi uma grande infelicidade a morte prematura de Lênin. O modelo de democracia interna do partido foi destroçado pela personalidade forte e centralizadora de Stálin.

Sua personalidade doentia causou profundos males na construção do socialismo na URSS. Conhecemos as vítimas famosas de Stálin (como Burrárin, Preabrajênski, Kaminev, Trótski, Zinoviév), mas muitas foram as vítimas anônimas dentro do partido. O que se atribui a Stálin como o êxito obtido na transformação de um país atrasado em primeira potência da Europa, deve-se ao estoicismo do povo soviético.

Os soviéticos eram muito discretos quando se referiam a ele. Uma vez eu vi um caminhão (durante uma prática geológica na Criméia) com a foto do Stálin no pára-brisa. Comentamos com o professor-orientador e ele respondeu: “Aní ivó uvajáiut” – “Eles o respeitam”. Lembrando que o governo de Bréjneve foi de certo modo uma reação à desestalinização de Rruchóv.

Enfim, hoje sabemos de todos aqueles acontecimentos lamentáveis de 1936-1938 (o grande expurgo) e Stálin passa para a História como um sanguinário como foram Ivan “Gróznyi”(conhecido como terrível-em russo ameaçador) e tantos outros.

Tenho me perguntado: “pode uma personalidade tão ruim produzir coisas boas?” A resposta é sim. Pois com toda a perversidade de uma personalidade doentia, a União Soviética foi, na prática o melhor Estado para o povo trabalhador. Nenhum país capitalista pode oferecer ao seu povo trabalhador os benefícios que a URSS proporcionou ao seu povo.

Estamos chegando na parte central da entrevista.
Como eram as relações de produção na URSS?
De quem era o controle efetivamente?
O trabalhador tinha autonomia na produção?

Como diria o médico nazista vamos por partes, cada item é um tema vasto!

Relações de produção

A URSS era um estado socialista. Portanto, as relações de produção eram radicalmente diferentes das relações no capitalismo. Aqui podem ser feitas muitas perguntas sobre a relação “empregado” x “empregador”, já que não se pode usar a expressão “capital-trabalho”. O grande empregador era o Estado, mas não no sentido de “funcionários públicos”, como a burguesia adora difundir.

O direito ao trabalho era garantido pela constituição. A partir daí não havia a figura do “desempregado”. O trabalho era um direito mas também um dever (como é o voto no Brasil), consequentemente não havia a figura do parasita “vivendo de rendas”. Só não trabalhavam os crianças, os velhos aposentados e os incapazes (físicamente e ou mentalmente).

Os prisioneiros (conforme a pena) eram obrigados a trabalhar. Um capítulo a parte pode ser os famosos “gúlag” que nada mais é do que uma sigla da administração penitenciária.

Controle de produção

Sobre a produção, cada uma obedecia a um plano. Os planos foram introduzidos em 1928. Nas últimas décadas falava-se em plano quinquenal, sendo que alguns objetivos a ser alcançados tinham uma maturação de até 15 anos.

Cada setor (ou ente econômico – não sei como chamam isso) da produção tinha o próprio objetivo a ser alcançado, ou seja, as metas. As metas eram distribuidas no tempo. Metas semanais, mensais, sazonais, semestrais, anuais.

Assim que havendo cumprido a meta (obrigatória) partia-se para a produção “além do plano” (“sver plana”).

Para sobrecumprir a meta havia o “interesse material” (“materiálhnaia zaintereçôvnasth”) compensado através dos “prêmios” (adicional de salário).

E se as metas não fossem atingidas, haviam punições ou castigos?

Bom, aí cabia um estudo das causas: se o plano foi bem feito, se houve circunstâncias desfavoráveis etc.

Os planos eram elaborados pelo “Gasplan” – ministério da planificação, mas os setores produtivos opinavam sobre a possibilidade da realização do plano. Muitas vezes o plano era corrigido “para cima”. Não havia a maracutaia de fazer uma “meta” pequena e depois sobrecumprí-la em 300% para ganhar um “prêmio” três vezes maior. Os prêmios tinham limite.

Autonomia sobre a produção

Individualmente um trabalhador não tinha autonomia sobre a produção. Ele tinha que cumprir a meta. Naturalmente que a meta era exequível. Se por algum motivo a meta não era cumprida em um dia, ela seria cumprida ao longo do tempo. Novamente: as metas não podiam ser irreais. Frequentemente lá pelo mês de outubro alguns “entes” econômicos já anunciavam: “já cumprimos o plano do ano”. E aí era um festival de “já estamos “sobrecumprindo”.

Naturalmente que a imprensa dava grande destaque ao sobrecumprimento do plano, principalmente naqueles setores mais importantes da economia, como a produção industrial e a produção agrícola.

E o controle da burocracia, era opressivo? Haviam muitos casos de “sabotagem”?

O controle era necessário e severo. Eu não diria opressivo. Todos sabiam que as coisas não andariam sem controle.

Eu como estudante tinha minhas metas e sabia que se não cumprisse em uma semana já estavia “devendo” para a próxima; então havia que “apretar los pantalones” e cumprir a meta.

Houve sabotagem nos primeiros anos do poder soviético. Mas os sabotadores não se criavam; logo eram descobertos e (em russo: oi, oi,oi!) – popularmente: estavam ferrados. Durante a guerra houve tentativas de sabotagem dos “contras” que tinha a vã esperança de serem “libertados” pelos alemães! Esses também não sobreviveram para contar a história.

Os soviéticos tinham consciência de que a propriedade dos meios de produção era social – pertencia a toda a sociedade. Assim que não havia “sabotagem”. Um ou outro que fazia “corpo mole” logo era admoestado pelos próprios colegas de trabalho. Eram muito frequentes as (“sabránia”) reuniões de trabalho para descobrir onde estava o furo, se a meta não estivesse sendo alcançada.

Em relação a distribuição, muito se fala que, devido ao peso dado ao complexo industrial militar, sobravam poucos recursos para investir na indústria leve . E a população tinha ainda que esperar em imensas filas para poder consumir esses produtos “básicos”. O mesmo se passava em relação aos alimentos.

Na sua experiencia lá na URSS, deu para perceber alguma coisa neste sentido? Ou tudo não passa de exagero da imprensa?

Para responder a essa pergunta vou voltar um pouco no tempo. Já na época da Rússia imperial, vemos que esta estava industrializando-se rapidamente desde as últimas décadas do século 19. Em 1904-1905 ela enfrentou uma guerra com o Japão. De 1914 a 1921 a Rússia passou pela “guermânskaia vainá” (I GM) e pela “grajdânskaia vainá” (guerra civil), sendo que logo após o final das hostilidades na frente ocidental os ex-aliados (França e Inglaterra) não aceitaram a “Paz de Brest- Litovski”.

Em consequência, o “exército das 14 nações” (que eram 18!) caiu feito ave de rapina sobre a jovem república soviética na tentativa de sufocá-la. Os “brancos” (a reação imperial) uniram-se aos estrangeiros intervencionistas. A capital teve que ser mudada para Moscou por ser mais segura. O saldo destes tempos de guerra foi uma enorme destruição do parque industrial russo.

Conquistada a paz, o poder soviético iniciou a construção socialista. As dificuldades eram enormes. Tudo era urgente. A paz era extremamente instável.

Diante do quadro de penúria aguda foi decidido retomar a industrialização. O PCUS priorizou a indústria pesada.

Siderúrgicas, trilhos, tanques – armas; os bens de consumo ficaram para depois. De 1921 a 1941 a URSS gozou da paz ameaçada em duas frentes – a ocidental e a oriental. Antes da Grande Gerrra Patriótica (II GM) houve entreveiros com a Finlândia e com os japoneses na Mongólia (1939). Realmente a indústria bélica era prioritária.

A pátria não seria defendida com as bugingangas da índústria leve. O resultado da guerra é conhecido. Iniciou-se imediatamente a guerra fria e a corrida armamentista. Dessa vez mais cara ainda pois já havia a chantagem atômica por parte dos EUA.

Novamente a reconstrução, pois houve enorme destruição na parte ocidental ocupada pelos nazistas. A indústria pesada continuou prioritária pois estave relacionada com a segurança (o arsenal bélico de ponta não pode ser comprado dos capitalistas).

A indústria leve continuou esperando sua vez. Finalmente, com o campo socialista fortalecido (anos 60) é que a indústria leve de bens de consumo desenvolveu-se rapidamente.

Os bens duráveis e de consumo passaram a ser produzidos com prioridade. A demanda era enorme e naturalmente a distribuição tinha que ser feita ordenadamente (inscrições).

Mas e os supermercados, haviam filas enormes como divulgavam os meios de comunicação internacionais?

Sobre os supermercados, os soviéticos gostavam da expressão “u nas vció iêst” – nós temos tudo. Claro que era necessário ter paciência para fazer as compras. Lembra do plano cruzado no Brasil? (1986). A diferença para a situação brasileira é que na URSS todos podiam consumir. Se havia fila é porque havia o produto, isso é em qualquer lugar do mundo.

Por causa da “dificuldade” de se obter o que se necessitava para casa, as pessoas compravam muito e tinham o mau hábito de estocar, o que por vezes ampliava o problema. Moscou sofria da síndrome de ser a capital e por isso pessoas vinham do interior fazer compras e as lojas ficavam lotadas.

A única fila realmente quilométrica que eu presenciei foi a fila para ver o túmulo de Lênin. As outras eram absolutamente normais, como eu já disse filas são normais em qualquer lugar do mundo, afinal, há de se respeitar a ordem de chegada na loja.

E como era o abastecimento das cidades distantes?

Eram abastecidas. Estive em várias e notei que alguns produtos muito procurados em Moscou estavam ali (“birí – ni ratchú” – expressão russa para dizer que os vendedores das lojas ofereciam aos consumidores e estes se faziam de rogado). Este era o sonho de consumo dos soviéticos: ter em abundância tudo. Eles já estavam conseguindo isso em meados dos anos 70.

Infelizmente as coisas não melhoraram do final da década de 70 para o início dos anos 80. Houve o que os russos chamam de “zastôi” – estagnação.

Porquê?

Olha eu não sou economista, mas atribuo a estagnação aos esforços dispendidos com a nova corrida armamentista que acirrou-se a partir do governo Reagan. Consequentemente sobravam poucos recursos para continuar investindo na indústria leve.

Em relação aos salários. Qual era a diferença entre o “maior” e o “menor” salário? Os burocratas ganhavam mais, tinham privilégios? Como era a punição para ladrões e corruptos?

Sobre o salário mínimo, creio que era  de P$80,00 (oitenta rublos). Professores universitários ganhavam entre P$250 a P$400. Mineiros e petroleiros tinham um salário básico (piso) e uma parte variável dependendo da produtividade. As tarefas pesadas eram muito bem remuneradas pois era necessário encontrar gente para fazê-las (é o caso dos mineiros e petroleiros, motoristas de máquinas pesadas etc).

Todos tinham igualdade de oportunidade, pois o trabalho era obrigatório. Sobre ladrões e corruptos, a vida deles não era fácil, principalmente porque não haveria onde investir o produto do furto.

Também não é fácil enganar pessoas que têm no mínimo 11 anos de escolaridade. E a “exteriorização de riqueza” era indício fácil de ser observado pelos órgãos de segurança, que não dormiam no ponto.

Os “burocratas” da alta cúpula não podiam ter muitos bens pois não havia como aproveitar-se deles para fazer fortuna. Salários altos (em torno de 5 a 10 vezes maior do que o salário mínimo) podiam significar algum conforto a mais (a compra de um automóvel por exemplo ou de traquitanas eletrônicas ou eletrodomésticos importados, etc.).

Claro que as senhoras de posse compravam casacos de pele vistosos e os exibiam, porém não era de bom tom. É difícil falar em privilégios como nós entendemos aqui. Ter um carro? Vestir-se bem? Os “abonados” não podiam usufruir de privilégios no que se refere à escola dos filhos ou hospitais melhores (todas eram públicas mesmo, assim como os hospitais). As casas de campo (“datcha”) eram relativamente baratas e não havia aquela neura de possuir uma “datcha” (ainda mais que o país vinha de uma urbanização recente e quase todos tinham um pé no campo). Burocrata no sentido “brasileiro” não se criava.

Algumas pessoas diziam em tom jocoso que a – “verrúxka” (alta cúpula) – vivia já no comunismo. A idéia é que eles tinham todas as suas necessidades satisfeitas – como é o objetivo da sociedade comunista. (Risos)

Já que você tocou no assunto, como era o sistema de saúde? Como era o atendimento à população?

O sistema de saúde era totalmente público e gratuito. As farmácias vendiam livremente vitaminas e salvo engano aspirinas. No mais eles gostavam muito de fórmulas a ser manipuladas (como tínhamos aqui nos anos em que as farmácias – pharmácia – tinham farmacêutico e aviavam remédios), com receita médica.

Nos hospitais os remédios eram ministrados de acordo com a prescrição. Resumindo: nem se pensava em pagar coisa alguma.

No entanto, eu soube de uma “policlínica paga” e fui conferir. Realmente, serviços dentários considerados estéticos eram cobrados, mas a policlínica era do Estado. O tratamento era muito barato – eu diria até que era simbólico.

Os estudantes (de nível superior) eram obrigados a um exame de saúde anual. Principalmente aqueles que se candidatavam a trabalhar (“studéntski atriádi” – destacamentos estudantis de trabalho) nas férias de verão. Mas esse é um capítulo a parte.

Entrando agora na parte política, você chegou a presenciar alguma seção dos soviets? Eles tinham alguma influência sobre as decisões da cúpula?

Os soviets eram os órgãos formais de poder do Estado. Os dirigentes do PCUS formalmente não detinham o poder. Por isso todos eles eram deputados do Soviet Supremo ou dos soviets republicanos, regionais, provinciais etc.

O governo era nomeado pelos soviets. Claro que sendo o PCUS a única força política ela quem decidia tudo, pois o governo nomeado pelos soviets era indicado pelo PCUS. As sessões referendavam os atos da mesa (presidium – presidência) e duravam alguns dias (não tenho certeza da periodicidade, mas parece-me que eram semestrais ou sazonais). Havia deputados “sem partido” – uma minoria.

Durante as campanhas eleitorais (mornas) falavam no “bloco” dos “partíni e bezpartíni” – membros do partido e sem partido! Algo assim meio difuso, difícil de compreender para nós ocidentais acostumados ao fragor da luta política. O eleitor só tinha que pegar um cédula impressa e depositar na urna. Pronto, já tinha votado.

Mas havia um processo prévio de escolha dos canditados durante a campanha nas reuniões do Partido.

Os sem-partido não poderiam ser chamados de oposição “capitalista”?

Não, não, os “bezpartíni” (sem partido) estavam afinados com a política do partido, não constituiam uma “oposição” no sentido que conhecemos. Não havia uma opoAh!

E como era o sistema de voto?

Funcionava o sistema de voto distrital. Os altos dirigentes do partido portanto eram candidatos por um bairro de Moscou ou de qualquer outro distrito importante.

E as cooperativas agrícolas? Ainda funcionavam da mesma forma estabelecida por Stálin (Sovkozes e Kolkozes)?

Os kalrrózes eram maioria em relação aos savrrózes (siglas de “kalektívnaia rraziáistva” e “saviétskaia rraziáistva”). Sim, o modelo era o mesmo desde a coletivização de Stálin.

Formalmente o kalrróz era mais democrático pois sua direção era escolhida em assembléia e os membros do mesmo eram formalmente proprietários da fazenda (rraziáistva). O savrróz era propriedade do Estado e sua direção era nomeada. Os trabalhadores (do savrrõz) eram empregados como todos os outros empregados de uma fábrica urbana ou de uma repartição pública.

Os kalrrózes faziam um contrato com o Estado onde eram estabelecidas metas de produção e preços mínimos garantidos. Os trabalhadores “kalrrózniki” recebiam no final do ano um prêmio por excedente de produção e por participação individual. Na casa do “kalrróznik” havia uma pequena área para produção própria e criação de pequenos animais domésticos (porco, galinha, pato etc., frutas, verduras… Esta área variava de região para região.

A produção própria podia ser vendida a preço livre no “mercado do produtor” – rínak. Nos “rínaki” – mercados, havia uma grande variedade de produtos agrícolas (carne, frutas, verduras, legumes etc.) de ótima qualidade, mas de preço salgado.

Claro que os mercados eram complementares (uma espécie de luxo). As pessoas podiam não ir ao mercado e abastecer-se nos “magazíni” – supermercados, mercearias, açougues etc. Resumindo: percentualmente a economia “de mercado” era marginal (como dizem os economistas – % baixo ou insignificante), mas tinham função social importante e representavam um estímulo material ao produtor.

Para descontrair um pouco. Dizem que os russos consomem tanta vodka como nós consumimos cerveja (nas mesmas quantidades). É verdade?

(Risos). É folclore! Como a vódka é bebida destilada (40 graus) não dá para “entornar” como fazemos com a cerveja.

Eles apreciam também a cerveja no verão. Acontece que muitos incautos não sabem bebericar e dão logo vexame, aparentando que beberam muito. Não tem como beber vódka na mesma quantidade que bebemos cerveja.

Para terminar Almir, quais as suas perspectivas para o futuro? Acredita num socialismo brasileiro?

O comunismo é a esperança da humanidade. Alguns esperam alcançar o paraíso após a morte. Fico com a opinião de Engels: estamos na pré-História da humanidade.

Com o advento do comunismo então o humanidade conhecerá a era da fraternidade, do desenvolvimento harmonioso, solidário e fraterno. Começará a História.

Se outros países chegarem ao comunismo, acredito como brasileiro que também chegará a nossa vez.

O capitalismo não dará a última palavra. Confiemos na História e na racionalidade humana, mesmo que esteja difícil.

Profile de Almir no Orkut: http://www.orkut.com.br/Profile.aspx?uid=12493806977072221346

 
2 Comentários

Publicado por em 25/08/2011 em Entrevista, História, União Soviética

 

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2 Respostas para “Experiências de Almir na União Soviética

  1. Glauber

    25/08/2011 at 17:20

    Com exceção dos trechos sobre o Stalin, muito boa a entrevista!

     
    • xSGBDx

      26/08/2011 at 14:42

      Pensa exatamente o que Khruschev queria que o povo soviético pensasse. Como o Almir morou lá de 1974 a 1985, o que ele diz sobre Stalin é até compreensível, mas a falta de crítica aos golpistas é um erro grave. Hoje se vê qual é a opinião da maioria dos ex-soviéticos, diferente da dele.

      Ele está certo em considerar que os êxitos do socialismo na URSS não devem ser colocados apenas na pessoa de Stalin, mas nega o fato de que indivíduos específicos também possuem importância para um processo histórico, dada a influência de suas ideias, palavras, ações; ou nas funções de seu cargo, de maior ou menos importância. Infelizmente, são um mal necessário.

      E o que diz sobre os expurgos é um dogma do senso comum. John Archibald Getty (Arch Getty) prova que Stalin não estava por trás do Grande Expurgo, em seu livro “The Origins of The Great Purges”.

       

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