A propósito do texto “Sobre a Contradição” de Mao Tsé-tung

Do blog Cem Flores

“O texto que publicamos é inédito na internet em português.”

Althusser nos diz sobre a importância deste texto e a necessidade de continuar a aprofundá-lo:

(…) Lenin nos deixou nos seus Cadernos algumas frases que são o esboço de uma “Dialética”. Essas notas, desenvolveu-as Mao Tsé-tung em plena luta política contra os desvios dogmáticos do partido chinês em 1937, em um texto importante A Propósito da Contradição [Sobre a Contradição].

Eu gostaria de mostrar como podemos encontrar nesses textos – numa forma já muito elaborada, e que basta desenvolver, referir ao seu fundamento, mas sempre refletir – a resposta teórica à nossa questão: qual é a especificidade da dialética marxista

(Althusser, “Análise Crítica da Teoria Marxista” [Pour Marx], Zahar Editores, 1937, pág. 158-159)

Qual a problemática que envolve esse texto?

Lenin havia estudado Hegel, Heráclito, Aristóteles em 1914-15 e anotado em alguns cadernos. Estes estudos foram publicados somente em 1925, após sua morte. Nele a afirmação que a dicotomia de um todo único e suas partes contraditórias é a essência da dialética, aprofunda o campo novo do que se entendia sobre a dialética marxista. Nesse campo novo não se encontra mais, segundo o próprio Lenin, a tríade Hegeliana (tese-antítese-síntese).

Mao em 1937, envolto na luta contra o dogmatismo, escreve esse texto e consegue avançar e aprofundar sobre esses estudos de Lenin.

Entender a realidade como uma unidade de contradições, onde existe uma principal, que determina o conjunto de contradições secundárias e atua no limite imposto pelo conjunto dessas contradições. Que existem contradições antagônicas e não antagônicas, cujo estudo foi ampliado em seu “Sobre as justas contradições no meio do povo”, texto que afirma que as contradições no seio do povo não são resolvidas por medidas administrativas, coercitivas. Afirmar que existe um aspecto principal e um secundário em cada contradição, é ampliar o horizonte da dialética marxista para entender e agir, ou melhor, se situar, na complexidade da luta de classes, que é a própria realidade e objeto dessa teoria.

Althusser, no mesmo livro (pág. 169-170) reitera a importância da “especificidade” da contradição demonstrando como “funciona” “Um Todo Complexo Estruturado”:

(…) A dialética “é o estudo da contradição na essência das coisas”, ou o que é o mesmo, “a teoria da identidade dos contrários”. Por aí diz Lenin, “apanharemos o nódulo da dialética, mas isso exige explicações e desenvolvimentos”. Mao cita esses textos, e passa “às explicações e desenvolvimentos”, isto é, ao conteúdo desse “nódulo”, numa palavra, à definição da especificidade da contradição.

Encontramo-nos, aí, bruscamente em face de três conceitos muito importantes. Dois conceitos de distinção: 1) a distinção entre a contradição principal e as contradições secundárias; 2) a distinção entre o aspecto principal e o aspecto secundário da contradição. Afinal um terceiro conceito: 3) o desenvolvimento desigual da contradição. Dão-nos esses conceitos na forma do “é assim”. Dizem-nos que são essenciais à dialética marxista, porque são o específico dela. Nós é que devemos procurar a razão teórica profunda dessas afirmações.

É bastante considerar a primeira distinção para ver que ela supõe imediatamente a existência de várias contradições (sem o que não poderíamos opor a principal às secundárias) em um mesmo processo. Ela indica, portanto, a existência de um processo complexo.

(…) A segunda distinção (o aspecto principal e o aspecto secundário da contradição) não faz mais que refletir, no interior de cada contradição, a complexidade do processo, isto é, a existência em si de uma pluralidade de contradições das quais uma é dominante, e é essa complexidade que devemos considerar.

Sendo assim, vimos a importância da publicação desse texto para continuarmos nosso debate, para demarcar campo com o dogmatismo e todas as manifestações reducionistas de nossa teoria e de nossa prática revolucionária.

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