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Muro de Berlim — Parte 2 — A visão dos EUA; derrubada do Muro: plano arquitetado por uma minoria

11 ago

Leiam também as postagens sobre o levante húngaro de 1956, que servem como complemento

Muro de Berlim, parte 1: https://iglusubversivo.wordpress.com/2011/08/11/muro-de-berlim-1/

Muro de Berlim, parte 3: https://iglusubversivo.wordpress.com/2011/08/11/muro-de-berlim-3/

Trechos do livro 1989: O Ano Que Mudou o Mundo, escrito por um jornalista estadunidense (anticomunista)

Depois de duas décadas e de muita pesquisa, agora sei que nossa vitória na Guerra Fria não foi o que parecia. Fiquei sabendo que as coisas implesmente não aconteceram do jeiuto que pensamos. E, o que é mais doloroso, os mitos que criamos em torno disso prejudicaram o mundo e a nós mesmos. Quais são esses mitos, que aceitamos como verdades? Primeiro, o povo. A maioria dos relatos de 1989 resume-se a uma simples trama de mão única: os cidadãos da Europa Oriental, reprimidos havia muito tempo, frustrados pela pobreza e falta de liberdade, e inspirados por nosso exemplo, ergueram-se em massa e derrubaram seus suseranos comunistas. Bom, sim e não. Em alguns países, foi mais ou menos isso que aconteceu. Mas em outros não houve nada disso.

Trata-se de uma visão tectônica, a história como interação de forças gigantescas e quase inevitáveis. Mas, para quem estava em campo, as coisas pareciam bem diferentes. Se estivesse lá na noite em que o Muro de Berlim caiu, você saberia que as coisas aconteceram daquela maneira graças a um acidente inesperado, um pequeno e totalmente humano erro crasso.

Um terceiro mito é mais perigoso: a ideia dos Estados Unidos como país emancipador, um libertador de regimes repressivos. Esse tipo de triunfalismo americano com ares de cruzada tornou-se, com o tempo, o evangelho dos neoconservadores, inclusive membros do governo George W. Bush.

Não há dúvida que os Estados Unidos contribuíram excepcionalmente para o fim da Guerra Fria, desde o Plano Marshall e a reconstrução da Europa até a política de contenção e nossos esforços para ajudar a criar o que veio a ser a União Europeia.

O objetivo não é desmascarar a história oficial, mas libertá-la.

É possível argumentar sem exageros que o desastre americano no Oriente Médio nasce da arrogância que acompanha “nossa” vitória na Europa Oriental. Por extensão lógica, do passado ao presente, tudo o que temos a fazer é enfrentar o diabo em pessoa e, com um grande empurrão, o povo se erguerá e romperá com seus grilhões. Bêbados de orgulho e poder, entendemos tudo terrivelmente errado. Se os Estados Unidos pudessem ser comparados a um alcóolatra em tratamento, está na hora de voltar ao começo, ver onde e quando nos desviamos, e olhar para o mundo tal como ele é.”

“A multidão de vozes gritava em uníssono: Abram! Abram! Atrás da polícia e de seus cães de guarda, atrás da torre de arame farpado enrolado na infame faixa da morte, do outro lado do Muro, vinha um grito de resposta de uma multidão igualmente turbulenta de alemães ocidentais: Venham! Venham!

Os historiadores sabem que os Aliados poderiam ter evitado sua construção e talvez, por conseguinte, mudado a história. (…) Mas o belicoso premier soviético Nikita S. Khrushchev, o homem que ameaçou “enterrar” o Ocidente e bateu com o sapato no pódia das Nações Unidas, sabia o que estava fazendo. Num pequeno e festivo jantar da noite anterior, ele confidenciou seus planos a um pequeno grupo de altos líderes militares russos, claramente saboreando o momento, “Vamos fechar Berlim”, rematou com seu típico sorriso desdentado. “Vamos simplesmente pôr arame farpado, e o Ocidente vai ficar lá, como ovelhinhas estúpidas.”

Eu esperava que as pessoas se sentissem oprimidas por aquela proximidade macabra. Mas não. Elas se adaptaram. Normalmente, eram os forasteiros que julgavam o Muro intrusivo ou maligno.

Dissemos para nós mesmos que ganhamos essa guerra. Mas é igualmente justo falar que também a perdemos, ou, ao menos, que compartilhamos amplamente sua perda. Dito de forma simples e direta, a Guerra Fria foi uma catástrofe.

Para a maioria dos alemães, assim como para quase todo mundo, 1989 veio do nada. Naquele inverno, no vértice do ano que mudaram o mundo, não parecia haver qualquer ímpeto de mudança. Somente os alemães ocidentais mais românticos sonhavam com o dia em que o Muro cairia.

Em meio a dezenas de milhares de documentos liberados pelo Departamento de Assuntos Intragermânicos relativos à Deutsche Einheit, ou unidade alemã, 1989-90, quase não havia discussão ou indício de planejamento antecipado para uma eventual reunificação. O tópico não era verboten (proibido); simplesmente parecia… irrelevante.

Em todo o reino comunista, a Hungria era o lugar a ser observado. Foi lá que a primeira centelha verdadeira da revolução (sic) se acendeu – não por seu povo, na forma de um levante popular, mas por um pequeno grupo de piratas, não mais que meia dúzia de pessoas, que decidiu acender o pavio num barril de pólvora que explodiria o mundo comunista.

Trabalhando em segredo com alguns aliados ocidentais, principalmente na chancelaria alemã, Németh e seu pequeno grupo de comunistas (sic) subversivos planejaram derrubar a Cortina de Ferro que separava a Hungria do Ocidente.

Em novembro [de 1988], um pequeno grupo de comunistas reformistas chegara ao poder [em Budapeste]. Kalman Kulcsar era somente um entre vários líderes húngaros que dizia (e fazia) coisas não comunistas. Haviam aberto um mercado de ações – um templo da fé antípoda capitalista. Aprovaram novas leis que estimulavam os empreendimentos privados, cortaram subsídios das empresas estatais, abandonaram a fixação de preços ao estilo comunista em favor de um mercado livre (sic). A partir de então, o custo dos alimentos, dos combustíveis e da moradia seria determinado por oferta e procura, disseram ao povo, bem conscientes de quão dolorosa poderia ser essa transição. Bom-dia, Keynes. Adeus, Marx?

“Dentro de dois anos eu poderia imaginar uma situação em que o chefe de governo não seria necessariamente um membro do Politburo”, disse Németh, de forma cautelosa, mas inconfundível.

Essa era uma conversa sobre criar o capitalismo no Danúbio.

“Vamos passar por alguns anos dolorosos, sim. Mas, em cinco anos, eu espero que a Hungria se torne uma economia de mercado, com espaço para empresários, e onde as pessoas possam ter mais esperança no futuro.”

Alguns heróis trágicos resistiam, afirmando seu direito humano de se manifestar e viver em liberdade, contra o poder avassalador do Estado. Chamávamos respeitosamente essas pessoas de ‘dissidentes’: Andrei Sákharov, na Rússia, Václav Havel, na Tchecoslováquia. Mas a realidade, em Budapeste pelo menos, era muito diferente. A Hungria notabilizava-se pela ausência de um grande “empurrão” de baixo. Dava pra contar nos dedos seus verdadeiros dissidentes. Em vez disso, seu ímpeto era um forte “puxão” de “cima” e de “dentro”. O chefe dos puxadores era Németh, estreitamente ligado a Pozsgay, Kulcsar e alguns outros.

Os famosos big bangs da adesão abrupta ao capitalismo – promulgados na Polônia e em outros lugares depois de 1989 – foram martelados pela primeira vez na Hungria por esses reformistas do regime.

Falavam em restaurar o estado de direito, em lugar dos decretos do Partido Comunista.

Grosz e outros líderes partidários temiam não poder deter a queda econômica do país: 30% de inflação, a dívida per capita mais alta da Europa, padrões de vida e salários em declínio. Poucas famílias húngaras podiam arcar com seus gastos se cada um de seus membros tivesse dois ou mesmo três empregos.

E é aí, leitores, que fica clara a aproximação cada vez maior dos revisionistas europeus do capitalismo e de sua economia. Mas, com toda a hipocrisia da direita, pessoas como Németh pintam esses caras como “comunistas”. Eles apenas viram o que estava por acontecer e aceleraram o processo de degeneração.

Németh calculou que teria seis meses. Cada medida que tomou durante esse tempo tinha um único objetivo: afrouxar o controle do Partido sobre seu governo. O modo como essa batalha seria travada nos mesees subsequentes decidiria o futuro do comunismo na Hungria e montaria o palco, no final do verão, para eventos mais dramáticos: a dissolução da República Democrática Alemã e o colapso do comunismo em toda a Europa Oriental.

Tal como a Hungria, a Polônia estava em crise. E, tal como na Hungria, era uma crise sobretudo econômica, em larga medida invisível, suportada em silêncio pelo povo, mas, não obstante, fissionável, uma explosão que esperava o momento de acontecer.

Para consternação do governo, os trabalhadores que protestavam pediam a volta do Solidariedade (Solidarnosc), proibido desde a imposição da lei marcial, sete anos antes. O partido sempre tirou sua força dos turbulentos mineiros, operários siderúrgicos e mecânicos do país.

Em 1981, Jaruzelski optara pela força. Ele justificara a decisão como se fosse o mal menor. Ou impunha a lei marcial e restaurava a ordem na fronteira oriental com a Rússia, ou corria o risco de uma invasão e ocupação soviética.

Ao caminhar pelas ruas de Varsóvia, era impossível não ver os grupos de “vira-latas”, como os chamava um jornal clandestino, gente que vasculhava o lixo em busca de restos de comida e roupas. Em contraste gritante, havia o “pessoal da banana”, assim chamados porque podiam comprar frutas.

Bem-vindos à Polônia, 1989. Danuta Zagrodska era a porta-voz do país para a área dos direitos humanos. Inflação e preços dos bens essenciais? Seus últimos números situavam-na entre 60% e 80%, dez vezes mais alta que um ano antes. De acordo com o Departamento Central de Estatística, o custo anual de vida na Polônia havia aumentado 55% a mais que os salários na primeira metade da década de 1980. O polonês médio trabalhava meia hora para comprar um pão, quatro horas para comprar uma barra de chocolate.

Ah, se houvessem Lenins e Stalins na Polônia, o quanto isso poderia ser evitado…

No capítulo seguinte…. Németh com Gorbatchov:

Depois de cumprir sua principal missão, ele soltou uma segunda bomba, sob certo aspecto maior que a primeira [Németh havia falado em eleições]: disse a Gorbatchov que queria tirar a Hungria do Pacto de Varsóvia, a aliança militar soviética criada para contrabalançar a Otan.

4 páginas depois…

Brent Scowcroft, novo assessor de Segurança Nacional dos EUA, e sua equipe estavam a par dos eventos na Hungria e na Polônia. Eles notaram, por exemplo, a publicação, em Moscou, de um longo artigo de jornal com elogios a Lech Walesa, um sinal claro de que o Kremlin aprovava o caminho que Jaruzelski adotava.

O objetivo de Gorbatchov era revitalizar a União Soviética para “competir melhor” com o Ocidente.

CONTINUA…

 

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