Memórias do Araguaia, por João Amazonas

Fonte: Fundação Maurício Grabois. Depoimento colhido em agosto de 2001, na sede do PCdoB em São Paulo.
Transcrição: Diego Grossi Pacheco
HTML:
Fernando A. S. Araújo.

Memórias do Araguaia

João Amazonas

Agosto 2001

A Guerrilha do Araguaia teve grande importância no processo de derrota do regime militar e na redemocratização do país.

Para se compreender a dimensão do que significa a Guerrilha do Araguaia é necessário analisá-la historicamente.

Somente assim se pode ver a grandeza do movimento empreendido por um partido ainda pequeno, acuado por uma ditadura feroz que assassinava a sangue frio. O Partido meteu as caras e fez uma resistência armada daquele tipo. Dentre os exemplos de luta que existiram, o Araguaia é um fato grandioso, que marcou a história do nosso país. Nós estamos percebendo que, cada vez mais, se reconhece a importância desse acontecimento histórico.


Quando aconteceu o golpe de 1964, o Partido divulgou um documento que contestava as posições que diziam que o golpe não iria durar muito tempo, pois não tinha ambiente para se manter. Nossa opinião era justamente o contrário. Em nosso documento afirmávamos que o golpe vinha para ficar e que se tratava de uma ditadura bárbara – caracterizamos corretamente sua essência e afirmamos que a luta contra ela não seria pacífica. No documento O golpe de 1964 e seus ensinamentos, divulgado logo depois do ocorrido, expressamos a análise e a posição do Partido, demonstrando que o objetivo do golpe era justamente barrar o ascenso do movimento democrático e antiimperialista então em curso no país.(1)

Em 1966 realizamos a VI Conferência do Partido Comunista do Brasil. Nela discutimos a problemática do enfrentamento ao regime militar, de como mobilizar o povo e organizar os preparativos para a luta mesmo em condições adversas.

Na VI Conferência em 1966, aprovamos o documento União dos brasileiros para livrar o país da crise, da ditadura e da ameaça neocolonialista.(2) Nas resoluções dessa conferência, realizada em São Paulo, expomos a tática do Partido face à implantação do regime militar, ao ataque indiscriminado aos setores democráticos da população e ao avanço do imperialismo. Caracterizamos a ditadura militar de 1964 como expressão política do imperialismo, do grande capital brasileiro e do latifúndio. Propomos então a mobilização geral do povo com bandeiras amplas.

Na discussão sobre as formas de luta para enfrentar aquele regime bárbaro, surgiu o problema de termos de ir para a luta no campo, para a luta armada, porque na cidade não havia mais outras condições – todos que lutavam corriam risco de vida; mesmo uma reunião, ou um encontro, podia significar a prisão, a tortura e a morte. Na continuidade dessa abordagem é que amadurece a decisão para empreendermos um movimento de resistência popular na região do Araguaia – dando origem à Guerrilha, quando as forças da repressão invadiram a região.

A escolha do local

O local para a ação que pretendíamos não foi uma escolha simples para o Partido. Tivemos de dividir o coletivo partidário em pequenos grupos de camaradas para procurar as melhores condições. Eu e o Maurício Grabois ficamos responsáveis por uma frente guerrilheira. Pedro Pomar por outra frente em outro lugar, e Carlos Danielli por outra.

Pomar escolheu a zona do Vale do Ribeira, em São Paulo. Mas fazer guerrilha por aqui, o inimigo liquidaria em pouco tempo. O outro grupo tentou fazer no Maranhão e Ceará, mas acabou sofrendo uma invasão policial, que levou à morte do camarada Frazão – alguém foi preso e deu o endereço de onde ele estava. O único núcleo de luta que vingou foi o organizado por mim e o Maurício. Fomos procurar onde seria o que pensávamos ser o melhor lugar – a região do Araguaia, que se liga às matas da Amazônia.

Depois disso, a história é conhecida – acabou dando numa epopéia. Hoje, a gente fica pensando como é possível se fazer uma coisa dessas? A convicção, a consciência do que se está fazendo, a dedicação… E a morte andava por perto, ali, a toda hora!…

Lembro que houve um levante de sargentos em Brasília, e, no final, nós conseguimos pegar alguns fuzis (seis ou oito) para a guerrilha. Eles eram uma porcaria, altos como o diabo, encostavam em tudo o que é coisa, pesados pra caramba…

Estava me lembrando, um dia desses, de alguns momentos no Araguaia. Na ocasião, eu dizia aos companheiros: “Vamos construir um barraco aqui”. Alguém indagou: “Mas não sabemos construir um barraco, como é que vamos fazer isso? Nunca construímos um barraco”. Continuei: “Pois é, nunca construímos, mas vamos construir um agora”. A conversa se estendeu: “Não dá, vamos contratar alguém”. (…) “Mas que contratar gente nada. Nós vamos ter de construir um barraco aqui!”.

E lá fomos nós construir nosso barraco. E puxa daqui, puxa de lá. E arranja madeira num lugar e noutro. Quando se viu o barraco estava pronto. Uma morada simples. Foi esse um exemplo da nossa história…

Agora, precisamos contar tudo isso ao nosso povo. Porque a Guerrilha do Araguaia contou com o espírito de luta, combate, de altivez, de jovens que, mesmo perseguidos, ajudaram a enfrentar uma situação difícil – para o Partido e para o povo brasileiro. A grandeza humana está aí.

Foi justa uma luta como a do Araguaia? Foi justa; e, mais, foi heróica. Envolveu a maior mobilização militar brasileira depois da II Guerra Mundial. A Guerrilha do Araguaia teve grande importância no processo de derrota do regime militar e na redemocratização do país. Quer dizer, os estrategistas do regime chegaram à conclusão de que era preciso dar um paradeiro à ditadura naquela forma – senão onde as coisas iriam parar depois de um movimento como o Araguaia: teriam de enfrentar um movimento ainda maior?


Problemas de segurança

Há tarefas que são muito duras. A gente tem de pôr o coração de lado para poder realizar certas tarefas difíceis de serem feitas. Não é atitude de desalmado não. Porque um desalmado faz isso com a maior naturalidade, até com satisfação. Mas a gente fazia certas coisas com mágoa, com muita dor.

Tem detalhes que são fundamentais, que explicam muita coisa.

Certa feita, uns companheiros estavam indo a São Paulo e tomaram a decisão de levar uma guerrilheira doente junto. Cometerem o erro de deixá-la em Anápolis para pegá-la na volta. Do ponto de vista da segurança do movimento, não deviam tê-la levado. Nós tínhamos médico no destacamento para isso mesmo – era o João Haas, um excelente médico por sinal. Numa situação como aquela não se podia adotar procedimentos temerários.

Noutro momento, um camarada teve uma malária daquelas terríveis, com uma febre de 40 graus – que não passava. E o homem com uma diarréia horrível, naquelas condições… Então, pegamos, num daqueles barracos, amarramos um mosquiteiro e depois pusemos uns bancos que havíamos feito, tiramos umas tábuas, botamos embaixo um croatá de açaizeiro. A gente o tirava e já o punha sentado naquele negócio para se aliviar e depois o colocava de novo na rede. Uma coisa horrível. E dizíamos: “Não há outro jeito”. Mas não podíamos mandar um homem desses para um hospital, porque poderia chamar a atenção da repressão e colocar em risco todo o nosso trabalho.

Poderia pôr em jogo a vida de todos os outros companheiros que estavam lá. E eu fui dar uma injeção nele – com a única ampola de quinino que havia – e ele, com um pouco de outros remédios que ainda tínhamos, levantou, ficou bom.

O povo chorou por seu médico querido

Seria interessante falar um pouco sobre o João Carlos Haas Sobrinho, que era médico, um excelente profissional, mas que tinha de se passar por um enfermeiro. Ele fazia coisas do arco da velha e ajudava a população local, na Guerrilha do Araguaia.

Houve um fato interessante. Coisas em que ficamos pensando sobre a consciência de médico. Esse camarada não podia transparecer que era médico. Como é que você vai botar um médico para ser guerrilheiro num lugar, com uma roupa de brim, todo esculhambado e passando dificuldades?

Num certo dia, apareceu uma mulher que já estava dando à luz, estava parindo, e não podia ter a criança porque a passagem estava bloqueada, sem meio de reverter. E aí o companheiro – com sua consciência de médico – disse: “Aqui só tem um jeito, tem de tirar esta criança de qualquer forma. Se não a mãe morre. Mas como eu vou tirar a criança, nestas condições?”.

Só poderia tirá-la aos pedaços. Então, o João Haas com uma gilete nas mãos, entre dois dedos, meteu a mão, com cuidado para não ferir a mulher, foi cortando o feto por dentro do útero, e pouco a pouco foi puxando e tirou o feto, que já estava morto. E mandou comprar antibióticos para a mulher.

Olha, essa história… Nós, com tantos cuidados para que ninguém nos descobrisse… Mas, outro dia, uma semana depois disso, íamos passando montados em burrinhos – com o Haas e outros três – e vimos distintamente alguns camponeses, mulheres e homens, uns quatro ou cinco, que gritaram: “Lá vai o médico!”.

Quando esse médico foi morto pela ditadura o corpo dele foi levado para Tocantinópolis para assustar a população. Porque ele comandava um hospitalzinho na cidade em frente, em Porto Franco, onde ele era médico da população pobre local no começo da carreira dele.

Então levaram o corpo dele para Tocantinópolis para dizer à população que aquele homem não era um médico, mas sim um bandido.

Mas, a população fez filas, chorando a morte dele; e ninguém aceitou aquela versão sobre bandido. As pessoas choraram a morte de seu amigo – de um homem de bem!

O Partido tem seus heróis. A gente não fala muito, mas, por exemplo, o Araguaia deu uma série de heróis, mulheres e homens. Entre eles, o Osvaldão, que jogou um papel importantíssimo. Corajoso, era um ser humano muito interessante.

A vida na mata

O Araguaia teve muitas coisas. Precisamos tirar uns dias para contar as histórias do mundo que envolveu a Guerrilha. Há muita coisa interessante que a gente aprende com a vida.

Sofremos muito na mata, e tivemos de superar muitos obstáculos. Doenças, animais, isolamento. Aprendemos muita coisa lá, na base da experiência, empiricamente.

Há tantos casos a contar. Num deles, eu estava indo para minha rede – tinha uma rede e um mosquiteiro, que levei de São Paulo. Todo mundo pegou malária lá, mas eu não tive. Apesar de que lá pelas sete horas, começava a mosquitaria. Para se ficar discutindo à noite, era terrível. Muitos mosquitos. Num dia eu ia para a minha rede e coloquei a mão no travessão para ver como passar a corda da rede e peguei numa coisa mole. “O que é que é isso?” Era uma cobra, ela estava esticada no travessão…

Uma outra: eu estava no quarto – só havia um quarto fechado, quase tudo era aberto – de repente olho e vejo um sapo, dentro da nossa barraca, dando pulo atrás de pulo, enormes. Pedi para os outros olharem. Havia uma cobra atrás do sapo. A cobra queria pegá-lo e ele dava aqueles saltos para se livrar dela – uma coisa que só vendo.

Em outra ocasião, o Osvaldão foi tirar num açaizeiro, uma palmeira dessas, uma coisa para a gente fazer de assento, de banheiro. Subiu, meteu a mão e puxou uma coisa que caiu em cima dele. Foi ver: eram cobras, várias… Mexeu num ninho de cobras. Era cobra que só vendo. Oh miséria!

Noutro episódio, eu estava com os companheiros para fazer reconhecimento do terreno. De repente ouvimos um barulho horrível. O Osvaldão estava junto e falou: “Nossa, rapaz, vamos subir aqui nesta árvore”. E eu tive de subir rapidamente na árvore. Era um bando de porcões do mato. Se você colocar um cachorro atrás daqueles animais, ele estará liquidado. Eles deixam o cachorro entrar no cerco e o fecham. Depois matam o cachorro e o comem. É uma espécie de caititu. A gente trepava na árvore porque eles fazem aquele barulho todo, mas não olham para cima, só para baixo. Se você estiver a um metro e meio do chão, eles passam e não vêem. É uma fera terrível.

Certa vez, o Joca – nosso companheiro italiano, que atirava bem – ia caminhando pela picada dentro da mata, para levar umas coisas, com uma espingarda nos ombros e um revólver na cintura. De repente, ele olhou e estava em cima de um rolo de cobra, na picada. Parou. Era uma cobra enorme. Sabe o que ele fez? Jogou a espingarda fora, puxou o revólver, deu um tiro e matou a cobra. Mas você veja a reação do sujeito. A espingarda seria a melhor arma por ser mais abrangente, mais precisa. Ele a jogou fora e puxou o revólver porque tinha mais confiança no revólver…

Cobra por ali era um problema. Você ia andando, para conhecer a mata… Com isso aprendemos muitas coisas. Por exemplo, a cobra venenosa dorme durante o dia e sai à noite para caçar. Íamos nós subindo pela Serra das Andorinhas e, de repente, o companheiro que ia conosco, lá do local, disse: “Vamos parar. Espera aí, espera aí. Deixa-me ver onde ela está”. “Ver o quê?” “A cobra. Não está vendo que tem uma cobra aí?” “Que cobra, não estou vendo nada.” Era uma cascavel, que faz um barulho próprio. O companheiro tinha o ouvido afiado e percebeu. Se nós déssemos mais dois passos para frente ela teria nos picado em seguida.

Você pega aquele bicho que abraça a gente, o tamanduá, que tem umas unhas enormes. É terrível. Se você vai para cima dele, ele não corre não. Ele fica em pé, se levanta desafiando, como que dizendo “Vem!”. Se você vai, ele o abraça e não solta mais, e o mata. Mete aquelas unhas todas, que entram na sua carne. Mata o sujeito…

A gente aprende mil coisas na mata. E quando você aprende tudo isso, a mata passa a ser sua amiga, sua conselheira, o ajuda.

Quando você não conhece é uma coisa terrível. A mata é toda igual, de repente você entra e não sabe mais sair. O Osvaldão conhecia um pouco, era o que mais conhecia. Eu ia andando com ele, do local onde nós estávamos, para sair no rio Araguaia. Era um dia de caminhada na mata. E lá íamos nós. Caminhávamos já sabendo que havia um rio do lado. Nós caminhávamos na margem do rio. De repente, o Osvaldão olhou e disse: “Já erramos!” “Como erramos?” “Nós estávamos na margem direita do rio. Agora veja já estamos na margem esquerda. Já erramos”. A experiência fez com que ele percebesse isso. Tivemos de retroceder para retomar o caminho.

Depois de um tempo no Araguaia, comecei a dizer ao pessoal: “Vamos plantando coisas nesta mata”. Sementes de limão, por exemplo. E plantávamos na mata em determinados lugares. “Plantem aqui na mata e deixem ficar. Porque a gente vai precisar disso depois”. Porque cresce e dali a pouco você tem vários pés de limão em vá-rios lugares…

Nós descobrimos muito sobre a Amazônia. Lá tem épocas de seca e épocas de água. Mas nunca tem nada encharcado. Por quê? Porque a água cai na copa das árvores e desce pelo caule de maneira que não fica encharcado. Os cipós têm água. Você os corta e consegue água puríssima. Cipó de água…

O jaboti é uma comida especial. Ele não sabe correr. Você o pega com as próprias mãos. E se você já estiver muito cheio de coisas, pendura ele numa árvore, que ele não desce, fica lá, e então você o pega na volta…

(…)

Essas são algumas memórias do Araguaia.

Início da página


Notas:

(1) Ver “O golpe de 1964 e seus ensinamentos”, no livro Em defesa dos Trabalhadores e do povo brasileiro: documentos do PC do Brasil – de 1960 a 2000. São Paulo: Anita Garibaldi, 2000, p. 55-84. (retornar ao texto)

(2) Ver “União dos brasileiros para livrar o país da crise, da ditadura e da ameaça neocolonialista”. Idem, p. 85-114. (retornar ao texto)

Este texto foi uma colaboração
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