Mentiras sobre a história da URSS

Mário Sousa
15/6/1998

História dos supostos milhões de presos e mortos nos campos de trabalho e pela fome na União Soviética no tempo de Stalin.

Neste mundo em que vivemos, quem consegue escapar às terríveis histórias de mortes suspeitas e assassínios nos campos de trabalho Gulag na União Soviética? Quem consegue escapar às histórias de milhões de mortos pela fomes e de milhões de opositores executados na União Soviética no tempo de Stalin? No mundo capitalista repetem-se estas histórias em livros, jornais, radio, televisão e filme numa quantidade infinita e o mito de dezenas de milhões de vítimas que o socialismo teria causado tem crescido sem limites nos últimos cinquenta anos.

Mas na realidade, de onde vêm estas histórias e estes números? Quem é que está por detrás disto?

E outra pergunta: o que há de verdade nessas histórias? Por exemplo, qual é a informação existente nos arquivos da União Soviética, anteriormente secretos, mas abertos por Gorbatchov à investigação histórica em 1989? Segundo os inventores dos mitos, todas as histórias de milhões de mortos na União Soviética de Stáline se confirmariam no dia em que os arquivos fossem abertos. Foi o que aconteceu? Foi confirmado?

O artigo que segue mostra-nos de onde vêm e quem está por detrás das histórias dos milhões de mortos pela fome e nos campos de trabalho na União Soviética de Stalin. O autor do texto, depois de ter estudado o resultado das investigações feitas nos arquivos da União Soviética dá-nos também informação em dados concretos sobre o verdadeiro número de presos, anos de prisão e o verdadeiro número de mortos e de condenados à morte na União Soviética de Stalin. A realidade é bem diferente do mito!

O autor do texto, Mário Sousa, é militante do partido comunista, KPML(r) na Suécia. O artigo foi escrito em sueco para o jornal do partido, Proletären – O Proletário – onde foi publicado em Abril de 1998. A tradução é do autor.

Em linha reta através da história – de Hitler e Hearst a Conquest e Solzjenitsyn.

No ano de 1933 a política alemã sofre modificações que vão deixar marcas na história mundial durante dezenas de anos. Em 30 de Janeiro Hitler é nomeado primeiro ministro e um nova maneira de governar, com violência e sem respeito pelas leis, começa a tomar forma. Para consolidar o poder, os nazis marcam novas eleições para 5 de Março utilizando toda a propaganda ao seu alcance para assegurar um resultado vitorioso. Uma semana antes das eleições, em 27 de Fevereiro, os nazis incendeiam o parlamento e acusam os comunistas de serem eles os incendiários. O partido comunista é proibido e muitos comunistas são presos. Nas eleições que se seguiram os nazis obtiveram 17,3 milhões de votos e 288 deputados, cerca de 48% do eleitorado. (Em novembro de 1932 tinham tido 11,7 milhões de votos e 196 deputados). Depois da proibição do partido comunista, os nazis começaram a perseguir os socialdemocratas e o movimento sindical e os primeiros campos de concentração começaram a encher-se com todos esses homens e mulheres de esquerda. Entretanto continuou a aumentar o poder de Hitler no parlamento com a ajuda da direita. No dia 24 de Março Hitler fez passar uma lei no parlamento que lhe deu poderes totais para governar o país durante quatro anos sem necessidade de consulta parlamentar. A partir daí começaram as perseguições abertas aos judeus e os primeiros deram entrada nos campos de concentração onde já se encontravam comunistas e socialdemocratas de esquerda. Hitler continuou a marcha pelo poder total, cortando com todos os acordos internacionais de 1918 que impunham restrições ao armamento e militarização da Alemanha. O rearmamento da Alemanha faz-se a grande velocidade. Esta era a situação política internacional quando o mito dos milhões de mortos na União Soviética se começou a formar.

A Ucrânia como uma parte do espaço alemão.

Ao lado de Hitler no comando da Alemanha estava o ministro da propaganda, Goebbels, o máximo responsável para incutir o sonho nazi no povo alemão. Este era o sonho do povo da raça pura vivendo numa Grande Alemanha, um país com um grande “lebensraum”, um grande espaço para viver. Uma parte deste “lebensraum”, uma área muito maior do que a Alemanha, iria ser conquistada no Este e incorporada na nação alemã. Em 1925 no livro Mein Kampf já Hitler tinha indicado a Ucrânia como uma parte integrante do espaço alemão. A Ucrânia e outras regiões no Este da Europa iriam pertencer à nação alemã para poderem ser utilizadas de uma maneira “correta”. Segundo a propaganda nazi, a espada alemã iria libertar essa terra para dar lugar ao arado alemão! Com técnica alemã e empresas alemãs a Ucrânia iria ser transformada na terra produtora de cereais da Alemanha! Mas primeiro teriam os alemães que libertar a Ucrânia do seu povo de “seres humanos inferiores”, os quais, segundo a propaganda nazi, seriam utilizados como força de trabalho escrava nas casas, fábricas e agriculturas alemãs, em todos os lugares onde a economia alemã necessitasse deles.

A conquista da Ucrânia e de outras regiões da União Soviética implicava necessariamente guerra contra a União Soviética, o que era necessário preparar a longo termo. Para esse efeito o ministério de propaganda nazi, chefiado por Goebbels, iniciou em 1934 uma campanha sobre um suposto genocídio feito pelos bolcheviques na Ucrânia, uma terrível catástrofe de fome que teria sido provocada por Stalin para submeter e obrigar os camponeses a aceitar a política socialista. O objetivo da campanha nazi era de preparar a opinião pública mundial para a “libertação” da Ucrânia pelas tropas alemãs. Apesar de grandes esforços e embora alguns textos da propaganda alemã fossem publicados na imprensa inglesa, a campanha nazi sobre o “genocídio” na Ucrânia não teve grande sucesso a nível mundial. Era evidente que Hitler e Goebbels necessitavam de ajuda para espalhar as calúnias sobre a União Soviética. A ajuda foi encontrada nos Estados Unidos da América!

William Hearst, um amigo de Hitler.

William Randolph Hearst é o nome do multimilionário americano que veio ajudar os nazis na guerra psicológica contra a União Soviética. Hearst é o redator americano conhecido como sendo o “pai” da chamada imprensa amarela, a imprensa sensacionalista. William Hearst começou a carreira de redator em 1885, quando o seu pai George Hearst, milionário da indústria mineira, senador e redator, lhe deu a chefia do jornal São Francisco Daily Examiner. Assim começou também o império jornalístico de Hearst que de uma maneira definitiva iria deixar marcas profundas na vida e nos conceitos dos norte-americanos. Depois da morte do pai, William Hearst vendeu todas as ações da indústria mineira que herdou e começou a investir o capital no mundo jornalístico. A primeira compra que fez foi o New York Morning Journal, um jornal de tipo tradicional que Hearst transformou totalmente num jornal sensacionalista. As notícias eram compradas a qualquer preço e quando não havia crueldades ou crimes violentos para contar cabia aos jornalistas i fotógrafos “arranjar” o assunto. É justamente esta a marca da “imprensa amarela”, a mentira e a crueldade arranjada e servida como verdade.

As mentiras de Hearst fizeram dele milionário e pessoa importante no mundo jornalístico, sendo em 1935 um dos homens mais ricos do mundo com uma fortuna avaliada em 200 milhões de dólares. Depois da compra do Morning Journal, Hearst continuou a comprar e fundar jornais diários e semanários por todos os EUA. Na década dos anos 40, William Hearst era proprietário de 25 jornais diários, 24 semanários, 12 estações de rádio, 2 serviços de notícias mundiais, um serviço de notícias para filme, a empresa de filme Cosmopolitan e muito mais. Em 1948 comprou uma das primeiras estações de televisão dos EUA, a WBAL-TV em Baltimore. Os jornais de Hearst vendiam 13 milhões de exemplares diários com cerca de 40 milhões de leitores! Quase um terço da população adulta dos EUA lia diariamente os jornais de Hearst! E além disso muitos milhões de pessoas em todo o mundo recebiam a informação da imprensa de Hearst através dos serviços de notícias, filmes e uma série de revistas que eram traduzidas e editadas em grandes quantidades em todo o mundo. Os números acima citados mostram bem de que maneira o império de Hearst influenciou a vida política americana e a vida política do mundo em geral durante muitos anos. (Entre outras coisas contra a participação dos EUA na segunda guerra mundial pelo lado da União Soviética e nas campanhas anticomunistas de McCarthy na década 50).

Os conceitos de William Hearst eram extremamente conservativos, nacionalistas e anticomunistas. A sua política era a política da extrema direita. Em 1934 fez uma viagem à Alemanha onde foi recebido por Hitler como convidado e amigo. Depois desta viagem os jornais de Hearst tornaram-se ainda mais reacionários, sempre com artigos contra o socialismo, contra a União Soviética e em especial contra Stalin. Hearst tentou também utilizar os seus jornais para fazer propaganda nazi abertamente, com uma série de artigos de Göring, a mão direita de Hitler. No entanto os protestos de muitos leitores obrigaram-no a parar a publicação e retirar os artigos.

Depois da visita a Hitler os jornais sensacionalistas de Hearst vinham cheios de “revelações” sobre acontecimentos terríveis na União Soviética como assassínios, genocídios, escravidão, luxo para os governantes e fome para o povo, sendo estas as grandes “notícias” diárias. O material era dado a Hearst pela Gestapo, a polícia política da Alemanha nazi. Nas primeiras páginas dos jornais havia muitas vezes caricaturas ou imagens falsas da União Soviética onde Stalin era retratado como um assassino de faca na mão. Não esqueçamos que estes artigos eram lidos diariamente por 40 milhões de pessoas nos Estados Unidos e milhões de outras em todo o mundo!

O mito da fome na Ucrânia

Uma das primeiras campanhas da imprensa de Hearst contra a União Soviética foi sobre os supostos milhões de mortos, vítimas da fome na Ucrânia. A campanha iniciou-se em 18 de Fevereiro de 1935 no jornal Chicago American com um título na primeira página, “Seis milhões de mortos de fome na União Soviética”. Utilizando material vindo da Alemanha nazi começou assim o simpatizante do nazismo e magnata da imprensa William Hearst a publicar histórias fantásticas sobre um genocídio provocado pelos bolcheviques com muitos milhões de mortos de fome na Ucrânia. A realidade era bem diferente. O que se tinha passado na União Soviética no princípio da década de 1930 foi uma grande luta de classes em que os camponeses pobres e sem terra se levantaram contra os grandes agrários ricos, os kulaks, e iniciaram a luta pelos coletivos agrícolas, os kolkhozes. Esta grande luta de classes que envolvia direta ou indiretamente 120 milhões de camponeses causou instabilidade na produção agrícola e em algumas regiões falta de produtos alimentares. A falta de comida enfraquecia as pessoas, o que contribuiu para um aumento de vítimas de epidemias infecciosas. Este tipo de epidemias era nessa altura um acontecimento tristemente comum no mundo. De 1918 a 1920 uma epidemia infecciosa conhecida como a gripe espanhola fez milhões de mortos nos EUA e na Europa (mais de 20 milhões), mas nunca ninguém acusou os governos desses países de matarem os seus cidadãos. O fato é que os governos nada podiam fazer contra epidemias desta espécie. Só com o aparecimento da penicilina durante a segunda guerra mundial é que as epidemias infecciosas puderam começar a serem combatidas com êxito no fim da década de 1940.

Os artigos na imprensa de Hearst sobre os milhões de mortos de fome na Ucrânia que tinha sido “provocada pelos comunistas” eram detalhados e terríveis. A imprensa de Hearst utilizou tudo ao seu alcance para fazer da mentira realidade, provocando a opinião pública nos países capitalistas a voltar-se fortemente contra a União Soviética. Assim se originou o primeiro grande mito dos milhões de mortos na União Soviética. Na vaga de protestos contra a fome “provocada pelos comunistas” que se seguiu na imprensa ocidental ninguém quis escutar os desmentidos da União Soviética, sendo o completo desmascaramento das mentiras da imprensa de Hearst em 1934, adiado até 1987! Durante mais de 50 anos e na base destas calunias, várias gerações de pessoas em todo o mundo foram levadas a formar uma visão negativa do socialismo e da União Soviética.

O império de mídias de massa de Hearst no ano de 1998!

William Hearst morreu em 1951 na sua casa em Beverly Hills na Califórnia. Hearst deixou um império de mídias de massa que ainda hoje continua a espalhar a sua mensagem reacionária por todo o mundo. A empresa The Hearst Corporation é uma das maiores do mundo em que vivemos, reunindo mais de 100 companhias onde trabalham 15 000 pessoas. O império de Hearst abrange hoje jornais, revistas, livros, rádio, televisão, TV cabo, agências de notícias e multimídia.

52 anos para desmascarar uma mentira!

A campanha de desinformação dos nazis sobre a Ucrânia não morreu com a derrota da Alemanha nazi na segunda guerra mundial. As mentiras nazistas foram retomadas pela CIA e pelo MI5 britânico e tiveram sempre um lugar garantido na guerra de propaganda contra a União Soviética. As campanhas anticomunistas de McCarthy nos EUA, depois da segunda guerra mundial, também viveram à custa dos “milhões de mortos de fome da Ucrânia”. Em 1953 foi publicado um livro nos EUA sobre este tema, com o título “Black Deeds of the Kremlin” (Os feitos negros do Kremlin). A publicação foi paga por refugiados ucranianos nos EUA, gente que tinha colaborado com os nazis na segunda guerra mundial a quem o governo americano deu asilo político apresentando-os ao mundo como democratas.

Quando Reagan foi eleito presidente dos EUA e iniciou a sua campanha anticomunista na década de 1980, renovou-se a propaganda dos “milhões de mortos na Ucrânia”. Em 1984 um professor da Universidade de Harvard editou um livro com o título de “Human life in Russia” (Vida humana na Rússia) em que estava incluído o material falso da imprensa nazi de Hearst de 1934. Em 1984 foram assim reeditadas as mentiras e falsificações nazistas dos anos 30 mas agora com a capa respeitável de uma universidade americana. Mas a história não fica por aqui. Já em 1986 saiu mais um livro sobre o tema, com o título “The Harvest of Sorrow”, escrito pelo anterior agente da polícia secreta britânica Robert Conquest que é hoje professor da Universidade de Stanford na Califórnia. Pelo “trabalho” com o livro Conquest recebeu 80.000 dólares da Ukraine National Association. A mesma associação pagou também um filme feito em 1986, o “The Harvest of Despair”, em que, entre outras coisas, se utilizou o material de Conquest. Nesta altura já os números apresentados nos EUA dos “mortos de fome na Ucrânia” iam em 15 milhões de pessoas!

No entanto os milhões de mortos de fome na Ucrânia apresentados na imprensa americana de Hearst e a sua utilização em livros e filmes era material completamente falso. O jornalista canadiano Douglas Tottle demonstrou rigorosamente essa falsificação no seu livro “Fraud, Famine and Fascism, The Ukrainian Genocide Myth from Hitler to Harvard” editado em Toronto em 1987. Entre outras coisas Tottle mostrou que o material fotográfico apresentado, fotografias horríveis de crianças esfomeadas, foi tirado de publicações do ano de 1922 numa altura em que milhões de pessoas morreram na guerra e de fome, quando oito exércitos estrangeiros invadiram a União Soviética durante a guerra civil de 1918 – 1921. Douglas Tottle apresenta também os fatos sobre a reportagem da fome, feita em 1934 e demonstra a mixórdia de mentiras publicadas na imprensa de Hearst.

O jornalista que durante muito tempo tinha enviado reportagens e fotografias das chamadas zonas da fome, um certo Thomas Walter, nunca tinha estado na Ucrânia, mas apenas estado em Moscou durante cinco dias. Este fato foi revelado pelo jornalista Louis Fischer, o então correspondente de Moscou do jornal americano The Nation. Fisher revelou também que o jornalista M. Parrott, o verdadeiro correspondente em Moscou da imprensa de Hearst, tinha enviado a Hearst reportagens que nunca foram publicadas, sobre as ceifas com muito bons resultados em 1933 na União Soviética e sobre uma Ucrânia soviética em desenvolvimento. Tottle mostra-nos também que o jornalista que fez as reportagens sobre a suposta fome para Hearst, o tal Thomas Walker, na realidade se chamava Robert Green, um condenado escapado da prisão estatal do Colorado! Este Walker, ou seja Green, foi preso no retorno aos EUA e confessou em tribunal nunca ter estado na Ucrânia. Todas estas mentiras sobre os milhões de mortos de fome na Ucrânia nos anos 30, uma fome que teria sido provocada por Stalin, só vieram a ser conhecidas e desmascaradas em 1987! O nazista Hearst, o agente da polícia Conquest e outros, têm intrujado milhões de pessoas com as suas mentiras e falsas reportagens. Ainda hoje aparecem as histórias do nazi Hearst em livros recém editados, de escritores pagos pela direita.

A imprensa de Hearst com uma posição monopolista em muitas cidades nos EUA e com agências de notícias em todo o mundo foi o grande megafone da Gestapo. Num universo dominado pelo capital monopolista foi possível à imprensa de Hearst transformar as mentiras da Gestapo em verdades e faze-las sair em muitos jornais, estações de rádio e mais tarde na televisão em todo o mundo. Quando a Gestapo desapareceu, continuou a guerra suja da propaganda contra o socialismo e a União Soviética, agora com a CIA como patrão. As campanhas anticomunistas na imprensa americana continuaram na mesma escala. “Business as usual” – negócio como sempre, primeiro a Gestapo, depois a CIA.

Robert Conquest – o centro dos mitos.

Este homem amplamente citado na imprensa burguesa, um verdadeiro oráculo para a burguesia, merece aqui uma apresentação muito concreta. Robert Conquest é um dos autores que mais tem escrito sobre os “milhões de mortos na União Soviética”, na realidade o verdadeiro “pai” de quase todos os mitos e mentiras sobre a União Soviética difundidos depois da segunda guerra mundial. Conquest é conhecido principalmente pelos seus livros “O grande terror” de 1969 e “Harvest of Sorrow” (Colheita de amargura) de 1986. Conquest escreve sobre milhões de mortos de fome na Ucrânia, nos campos de trabalho Gulag e durante os processos de 1936 a 1938 utilizando como fontes de informação os exilados ucranianos nos EUA pertencentes aos partidos de direita que haviam colaborado com os nazistas na segunda guerra mundial. Muitos dos heróis de Conquest são conhecidos como criminosos de guerra que comandaram e participaram no genocídio dos judeus na Ucrânia. Um destes é Mykola Lebed, condenado como criminoso de guerra depois da segunda guerra mundial. Lebed era o chefe de segurança em Lvov durante a ocupação nazi e as terríveis perseguições aos judeus em 1942. Em 1949 a CIA levou Lebed para os Estados Unidos onde tem trabalhado como desinformador.

O estilo nos livros de Conquest é de um anticomunismo violento e fanático. No livro de 1969 diz-nos Conquest que o número de mortos na fome na União Soviética nos anos 1932-33 foi de 5 a 6 milhões de pessoas, metade delas na Ucrânia. Mas em 1983, durante a campanha anticomunista de Reagan, já Conquest aumentava os anos de fome até 1937 e os mortos até 14 milhões! Tal declaração valeu-lhe um trabalho bem pago quando em 1986 foi escolhido por Reagan para escrever o material do livro da campanha presidencial com o fim de preparar o povo americano para uma invasão soviética… O livro chama-se “Que fazer quando os russos vierem, um manual de sobrevivência”! Um trabalho estranho para um professor de história…

Na realidade isto não é estranho para um homem que em toda a sua vida tem vivido à custa de mentiras e histórias inventadas sobre a União Soviética e Stalin, primeiro como agente da polícia e depois como escritor e professor da Universidade de Stanford na Califórnia. O passado de Conquest foi exposto no jornal The Guardian em 27 de Janeiro de 1978 num artigo que o apontava como um ex-agente do departamento de desinformação IRD – Information Research Department, do serviço secreto inglês. O IRD foi uma secção iniciada em 1947 (com o nome inicial de Communist Information Department) tendo como tarefa principal combater a influência dos comunistas em todo o mundo através de “plantar” histórias escolhidas no seio dos políticos, jornalistas e todos os que influenciavam a opinião pública.

As atividades do IRD eram muito amplas, tanto em Inglaterra como no exterior. Quando o IRD teve que ser formalmente extinto em 1977, por causa de contatos com a extrema direita, verificou-se que, só em Inglaterra, mais de 100 dos jornalistas mais conhecidos tinham pessoalmente um contato com um agente do IRD que regularmente dava ao “seu” jornalista material para os artigos a escrever. Isto era rutina nos grandes jornais ingleses tais como o Financial Times, Times, Observer, Sunday Times, Telegraph, Economist, Daily Mail, Mirror, Express, Guardian e outros. Os fatos apresentados pelo jornal The Guardian dão-nos assim uma indicação de como a polícia política dirige as notícias que chegam ao grande público.

Robert Conquest foi agente da IRD desde o começo desta seção da polícia secreta e até 1956. O “trabalho” de Conquest era escrever as chamadas “histórias negras” sobre a União Soviética, histórias falsas consideradas como fatos, a serem distribuídas a jornalistas e outras pessoas com influência na opinião pública. Depois de ter formalmente deixado a IRD, Conquest continuou a escrever textos propostos pela IRD e com o apoio dessa polícia. O seu livro “O grande Terror”, livro básico da direita sobre os “milhões de mortos” durante a luta partidária na União Soviética em 1937, é na realidade um compilado de textos que ele escreveu durante a sua vida como agente da IRD. O livro foi acabado e publicado com o apoio da IRD. Um terço dos livros impressos foram comprados pela editorial Praeger que normalmente é conhecida por publicar literatura com origem na polícia política americana, a CIA. O livro de Conquest tem sido utilizado para ser dado como presente aos chamados “idiotas úteis”, a professores universitários e a gente que trabalha na imprensa, rádio e televisão, para garantir que as mentiras de Conquest e da extrema direita continuem a ser espalhadas por grandes camadas da população. Conquest é ainda hoje uma das fontes mais importantes onde os historiadores de direita vão buscar material sobre a União Soviética.

Alexander Solzhenitsyn

Uma outra pessoa sempre associada a livros e artigos de jornal sobre supostos milhões de mortos e presos na União Soviética é o russo Alexander Solzhenitsyn. Solzhenitsyn tornou-se conhecido no mundo capitalista nos fins dos anos 60 com o seu livro “O Arquipélago Gulag” sobre a situação dos presos nos campos de trabalho na União Soviética. Ele mesmo esteve preso oito anos condenado por atividades contrarrevolucionárias em 1946 por ter distribuído propaganda contra o povo da União Soviética. Segundo Solzhenitsyn a luta contra a Alemanha nazi na segunda guerra mundial tinha sido uma luta desnecessária e todos os sofrimentos impostos ao povo soviético pelos nazis podiam ter sido evitados se o governo soviético tivesse feito um compromisso com Hitler. Solzhenitsyn acusou também o governo soviético e Stalin de serem ainda piores que Hitler e, como ele dizia, pelos terríveis resultados da guerra para o povo da União Soviética. Solzhenitsyn não escondia a sua simpatia pelos nazistas. Foi condenado como traidor.

Solzhenitsyn começou em 1962 a publicar livros na União Soviética com o consentimento e ajuda de Nikita Kruschev, sendo o primeiro livro publicado “Um dia na vida de Ivan Denisovich” sobre a vida de um preso. Kruschev utilizava os textos de Solzhenitsyn para combater a herança socialista de Stalin. Solzhenitsyn ganhou em 1970 o Prêmio Nobel da literatura com o livro “O Arquipélago Gulag”. Os seus livros começaram então a ser publicados em grandes quantidades nos países capitalistas, tornando-se o autor um dos instrumentos mais importantes do imperialismo no combate ao socialismo e à União Soviética. Aos seus textos sobre os campos de trabalho juntou-se outra propaganda sobre os supostos milhões de mortos na União Soviética o que foi utilizado nas mídias de massa capitalistas como sendo verdades. Em 1974 Solzhenitsyn deixou a seu pedido de ser cidadão soviético emigrando para a Suíça e mais tarde para os Estados Unidos. Nesta altura era considerado na imprensa capitalista como o maior lutador pela liberdade e democracia. As suas simpatias nazis foram enterradas para não perturbar a guerra de propaganda contra o socialismo.

Nos Estados Unidos, Solzhenitsyn foi convidado muitas vezes para fazer intervenções em reuniões importantes. Ele foi por exemplo o principal orador no congresso dos sindicatos AFL-CIO em 1975 e em 15 de Julho de 1975 foi convidado para fazer um discurso sobre a situação no mundo no Senado dos EUA! Os discursos de Solzhenitsyn eram de uma agitação violenta e provocativa, argumentando e fazendo propaganda pelas ideias mais reacionárias. Entre outras coisas bateu-se por novos ataques ao Vietnam depois da vitória deste sobre os EUA. E mais: depois de 40 anos de fascismo em Portugal, quando os oficiais do exército de esquerda, tomaram o poder na revolução popular de 1974, Solzhenitsyn começou a fazer propaganda por uma intervenção militar dos EUA em Portugal, que, dizia ele, iria ser membro do tratado de Varsóvia se os EUA não intervissem! Nos seus discursos, Solzhenitsyn lamentava sempre a libertação das colônias portuguesas em África.

Mas é claro que o ponto principal dos discursos de Solzhenitsyn era sempre a guerra suja contra o socialismo. Desde execuções supostas de milhões e milhões de pessoas na União Soviética até às dezenas de milhares de americanos presos e escravizados que Solzhenitsyn dizia existirem no Vietnam do Norte! Foi esta ideia de Solzhenitsyn de americanos utilizados como escravos no Vietnam do Norte que deu origem aos filmes Rambo sobre a guerra do Vietnam. Os jornalistas americanos que tinham ousado escrever sobre paz entre os EUA e a União Soviética eram acusados por Solzhenitsyn nos seus discursos como sendo traidores potenciais. Solzhenitsyn fazia também propaganda por um aumento da capacidade militar dos EUA contra a União Soviética, que ele dizia ser mais poderosa em “tanques e aviões, de cinco a sete vezes mais que os EUA” e em armas atômicas que “em breve” seriam “duas, três e por fim cinco” vezes mais potentes que as dos EUA. Os discursos de Solzhenitsyn nos EUA eram a voz da extrema direita, mas ele iria ainda mais longe, mais à direita, em apoio público ao fascismo.

Em apoio do fascismo de Franco.

Depois da morte de Franco em 1975 o regime fascista espanhol começou a perder o controle da situação política e no começo de 1976 os acontecimentos em Espanha tomaram um carácter tal que cativou a opinião pública mundial. Greves e demonstrações exigiam democracia e liberdade e o herdeiro de Franco, o rei Juan Carlos, foi obrigado a iniciar uma liberalização muito cuidadosamente, para acalmar a agitação social. Ora neste momento importante para a vida política espanhola, aparece Alexander Solzhenitsyn em Madrid e dá uma entrevista ao programa “Directisimo” um sábado à noite, em 20 de Março, na melhor hora televisiva (jornais ABC e Ya de 21 de Março de 1976). Solzhenitsyn que tinha recebido as perguntas previamente, utilizou a oportunidade para fazer todo o tipo de declarações reacionárias. A sua intenção não foi de dar um apoio à chamada liberalização do rei. Ao contrário, Solzhenitsyn prevenia as pessoas contra as reformas democráticas!

Na sua intervenção na televisão declarou que “Cento e dez milhões de russos morreram vítimas do socialismo” e comparou “a escravidão a que estavam submetidos os soviéticos à liberdade que se desfrutava em Espanha”. Solzhenitsyn acusou também os “círculos progressistas” de “utópicos” por considerarem Espanha como uma ditadura. Os progressistas eram toda a oposição democrática de liberais a socialdemocratas e comunistas. “No Outono passado” disse Solzhenitsyn, “a opinião pública mundial estava preocupada com a sorte dos terroristas espanhóis. (Os cinco antifascistas condenados à morte e executados pelo regime de Franco, nota do autor MS) Cada vez mais a opinião pública progressista exige reformas políticas imediatas, ao mesmo tempo que apoia os atos terroristas”. “Os que querem reformas democráticas rápidas, saberão o que virá a suceder amanhã ou depois de amanhã? A Espanha, amanhã poderá ter democracia, mas depois de amanhã, saberá não cair no totalitarismo depois da democracia?” Às perguntas cuidadosas dos jornalistas se tais declarações não podiam ser vistas como um apoio a regimes de países onde não existia liberdade respondeu Solzhenitsyn que “Eu conheço somente um sítio onde não há liberdade, esse sítio é a Rússia”. As declarações de Solzhenitsyn na televisão espanhola foram um apoio direto ao fascismo espanhol, uma ideologia que ele ainda hoje apoia.

Esta é uma das razões porque Solzhenitsyn desapareceu cada vez mais dos discursos públicos durante os seus 18 anos de exílio nos EUA e uma das causas porque os governos capitalistas não lhe dão total apoio político. Para os capitalistas foi uma benção dos céus poder utilizar um homem como Solzhenitsyn na guerra suja contra o socialismo, mas tudo tem os seus limites. Na nova Rússia capitalista o que decide o apoio do mundo ocidental aos grupos políticos é pura e simplesmente a possibilidade de fazer bons negócios com bons lucros ao abrigo da política desses grupos. O fascismo como alternativa política para a Rússia não é considerado como política que estimule os negócios. Por isso o projeto político de Solzhenitsyn para a Rússia é letra morta no que diz respeito a apoio do mundo ocidental. É que Solzhenitsyn quer como futuro político para a Rússia a volta do regime autoritário dos Czares em ligação com a igreja tradicional russa-ortodoxa! Nem os imperialistas mais arrogantes estão interessados a apoiar uma estupidez política deste calibre. Para encontrar apoio a Solzhenitsyn no mundo ocidental há que rebuscar na idiotia intelectual da extrema direita.

Nazis, polícias e fascistas!

Assim são eles, os mais dignos representantes dos mitos burgueses dos “milhões de mortos e presos na União Soviética” – o nazi William Hearst, o agente da polícia Robert Conquest e o fascista Alexander Solzhenitsyn. Conquest tem tido o papel principal, sendo as suas informações utilizadas pelas mídia de massa capitalistas em todo o mundo e formando inclusivamente uma escola dentro de certas universidades. O trabalho de Conquest é sem dúvida um trabalho de desinformação policial de primeira classe. Na década de 1970 Conquest teve uma grande ajuda de Solzhenitsyn e de uma série de figuras de segunda com Andrei Sakharov e Roy Medvedev. Além disso apareceu um pouco por todo o mundo uma série de especuladores em mortos e presos a quem a imprensa burguesa sempre pagou a preço de ouro. Mas a realidade dos fatos foi por fim apresentada e mostra a verdadeira cara de todos estes falsificadores da história. A ordem de Gorbachev para abrir os arquivos secretos do partido à investigação histórica teve consequências que ninguém podia previr.

Os arquivos mostram as mentiras da propaganda.

A especulação sobre milhões de mortos na União Soviética é uma parte da guerra suja de propaganda contra a União Soviética e por isso mesmo os desmentidos e esclarecimentos oficiais dos soviéticos nunca foram levados a sério e nunca tiveram lugar na imprensa capitalista. Eram, pelo contrário, alvo de troça, enquanto que aos “especialistas” comprados pelo capital foi dado todo o espaço requerido para difundirem as suas fantasias. Que fantasias eram realmente! O que os milhões de mortos e presos proclamados por Conquest e outros “críticos” têm em comum, é que são produto de aproximações estatísticas falsas e métodos de avaliação sem base cientifica.

Métodos falsos dão milhões de mortos.

Conquest, Solzhenitsyn, Medvedev e outros utilizaram-se de estatística publicada pela União Soviética, por exemplo escrutínios nacionais da população, aos quais adicionaram um suposto aumento populacional sem ter em conta a situação real existente no país. Assim chegaram à conclusão de quantas pessoas deveria de haver no país no final de certos anos. As pessoas que faltavam eram apresentadas como mortos e presos à conta do socialismo. Um método simples mas totalmente falso. Este tipo de “revelação” de acontecimentos políticos tão importantes nunca passaria se a “revelação” fosse sobre o mundo ocidental. Nesse caso teria havido com toda a certeza professores e historiadores que se levantariam contra tal falsificação. Mas como o que estava em causa era a União Soviética, a falsificação tem passado. Um dos motivos é certamente o de que professores e historiadores põem as possibilidades de avançar na carreira profissional em primeiro lugar e só muito depois a honra profissional.

Em números, quais foram afinal as conclusões dos “críticos”?

Segundo Robert Conquest (numa avaliação feita em 1961) tinham morrido 6 milhões de pessoas de fome na União Soviética no princípio dos anos 30. Este número foi aumentado por Conquest para 14 milhões em 1986. No que diz respeito aos campos de trabalho Gulag, estavam ali detidos, segundo Conquest, 5 milhões de presos em 1937, antes das depurações no partido no exército e no estado terem começado. Depois das depurações começarem, vieram segundo Conquest, durante 1937-38, mais 7 milhões de presos o que faz um resultado de 12 milhões de presos nos campos de trabalho em 1939! E não esqueça o leitor que estes 12 milhões do Conquest são SOMENTE os presos políticos! Nos campos de trabalho havia também criminosos de delito comum, os quais, segundo Conquest seriam em número muito maior que os presos políticos. Isto significa que, segundo Conquest havia cerca de 25-30 milhões de presos nos campos de trabalho na União Soviética.

Também segundo Conquest foram executados em 1937-39 um milhão de presos políticos enquanto que 2 milhões morreram à fome. Resultado final das depurações de 1937-39 segundo Conquest, 9 milhões de presos políticos e 3 milhões de mortos! Estes números foram em seguida submetidos a “apreciações estatísticas” por Conquest para concluir que os bolcheviques tinham morto nada menos que 12 milhões de presos políticos entre 1930 e 1953. Juntando esses números aos mortos de fome nos anos 30, chega Conquest à conclusão de que os bolcheviques haviam matado 26 milhões de pessoas. Numa última apreciação estatística diz Conquest que em 1950 havia 12 milhões de presos políticos na União Soviética!

Alexander Solzhenitsyn utilizou mais ou menos as mesmas apreciações estatísticas que Conquest. Mas usando os métodos pseudocientíficos com outras premissas, chega ainda a conclusões mais extremas. Solzhenitsyn aceita os números de Conquest de 6 milhões de mortos na fome de 1932-33; no entanto, com respeito às depurações de 1936-39 considera que morreram no mínimo 1 milhão por ano! Fazendo um resumo diz-nos Solzhenitsyn que desde as coletivizações da agricultura até à morte de Stalin em 1953, tinham os comunistas morto 66 milhões de pessoas na União Soviética. Além disso aponta o governo soviético como culpado pela morte de 44 milhões de russos que ele afirma terem morrido na segunda guerra mundial. A conclusão de Solzhenitsyn é que “110 milhões de russos morreram vítimas do socialismo”. No que diz respeito a presos diz-nos Solzhenitsyn que o número de pessoas nos campos de trabalho em 1953 era de 25 milhões!

Gorbachev abre os arquivos.

A coleção de números fantásticos acima apresentada, um produto de fantasias muito bem pagas, tem saído na imprensa burguesa desde os anos 60, tendo esses números sempre sido apresentados como fatos verdadeiros obtidos na base de métodos científicos. Por detrás desta falsificação estão as polícias políticas ocidentais, principalmente a americana CIA e a inglesa MI5. O impacto das mídias de massa na opinião pública é tão grande que os números hoje são ainda considerados verdadeiros em grandes camadas das populações dos países ocidentais. Esta situação penosa tem piorado. Na própria União Soviética onde Solzhenitsyn e outros críticos conhecidos, como Andrei Sakharov e Roy Medvedev, não encontravam nenhum apoio para os números fantásticos, houve uma mudança significativa em 1990. Na nova “imprensa livre” durante Gorbachev, tudo o que se opunha ao socialismo era apresentado como positivo, o que teve consequências desastrosas. Uma inflação sem igual começou a aumentar a quantidade de mortos e presos durante o socialismo, que agora se misturavam num só grupo de dezenas de milhões de “vítimas” dos comunistas.

A histeria na nova imprensa livre de Gorbachev levou por diante as mentiras de Conquest e Solzhenitsyn. Ao mesmo tempo foram abertos por Gorbachev os arquivos do Comité Central para investigação histórica, o que era exigido pela imprensa livre. A abertura dos arquivos do Comité Central do Partido Comunista é na realidade a questão central desta história confusa, isto por duas razões. Em parte porque nos arquivos se encontram todos os fatos que podem esclarecer a verdade. Mas ainda mais importante porque todos os especuladores de mortos e presos na União Soviética têm dito durante anos e anos que no dia em que os arquivos se abrissem os números por eles apresentados seriam confirmados! Todos os especuladores em mortos e presos afirmaram que assim seria, todos: Conquest, Solzhenitsyn, Sakharov, Medvedev e os demais. Mas quando os arquivos foram abertos e os estudos dos documentos existentes começaram a ser publicados, aconteceu uma coisa muito estranha.

De repente já nem a imprensa livre de Gorbachev nem os especuladores em presos e mortos estavam interessados nos arquivos! Os resultados das investigações feitas nos arquivos do Comitê Central pelos historiadores russos Zemskov, Dougin e Xlevnjuk que se começaram a publicar em 1990 em revistas cientificas, passaram totalmente desapercebidos! Os relatórios com os resultados das investigações históricas iam contra a corrente da inflação em mortos e presos da imprensa livre mas permaneceram desconhecidos. Os relatórios foram publicados em revistas cientificas de pouca venda praticamente desconhecidas do grande público. Os relatórios científicos não podiam concorrer com a histeria da imprensa, ganhando as mentiras de Conquest e Solzhenitsyn o apoio de muitas camadas da população na União Soviética, hoje Rússia. Também no ocidente, os relatórios dos investigadores russos sobre o sistema correcional durante Stalin, passaram sem notícias de primeira página ou reportagens na televisão. Porquê?

O que dizem os relatórios dos investigadores russos?

Os relatórios da investigação do sistema corretivo soviético são expostos num trabalho com cerca de 9 000 páginas. Os investigadores que escreveram os relatórios são vários sendo os mais conhecidos os historiadores russos V.N. Zemskov, A.N. Dougin e O.V. Xlevnjuk. O seu trabalho foi começado a publicar em 1990 estando em 1993 praticamente acabado e totalmente publicado na Rússia. Os relatórios da investigação chegaram ao conhecimento do ocidente em colaboração com investigadores de diversos países ocidentais. Os dois trabalhos conhecidos pelo autor deste texto, são o trabalho apresentado em França na revista L’Histoire em Setembro de 1993 por Nicolas Werth, chefe investigador do instituto francês de investigação cientifica, CNRS, (Centre National de la Recherche Scientifique) e o trabalho publicado nos EUA na revista The American Historical Review por J. Arch Getty, professor de história da Universidade da Califórnia, Riverside em conjunto com G.T. Rettersporn, investigador do instituto francês de investigação CNRS e o investigador russo V.N. Zemskov do instituto de História Russa da Academia das Ciências Russa.

Existem também hoje em dia livros sobre o assunto escritos pelos investigadores acima mencionados ou por outros investigadores dos mesmos grupos de investigação. Antes de entrarmos no assunto quero deixar aqui esclarecido para que não haja confusão futura, que nenhum dos cientistas envolvidos nestes trabalhos tem uma visão socialista do mundo, mas sim um compreensão burguesa e antissocialista, muitas vezes bastante reacionária. Isto dito para que o leitor não pense que o que se vai expor é produto de uma “conspiração comunista”. O que acontece quando os investigadores acima citados, desfazem completamente as mentiras de Conquest, Solzhenitsyn, Medvedev e outros, é que o fazem simplesmente pelo fato de que põem a honra profissional em primeiro lugar e não se deixam comprar para efeitos de propaganda.

Os relatórios de investigação russos dão resposta a uma quantidade muito grande de perguntas sobre o sistema correcional soviético. Para nós é o tempo de Stalin que é o mais interessante para estudar, é aí que está a causa da discussão. Nós pomos algumas perguntas muito concretas e procuramos as respostas no material das revistas L’Histoire (L’H) e The American Historical Review (AHR). Esta será a melhor maneira de pôr em debate algumas das partes mais importantes do sistema correcional soviético. As perguntas são as seguintes:

  1. O que era o sistema correcional soviético?
  2. Qual era o número de presos, “políticos” e de delito comum?
  3. Quantos mortos houve nos campos de trabalho?
  4. Quantos foram os condenados à morte até 1953 e em especial durante as depurações de 1937-38?
  5. Qual era em geral o tempo de prisão?

Depois de termos respondido às 5 perguntas, pomos em discussão as penas impostas aos dois grupos mais debatidos quando a questão dos presos e mortos na União Soviética se põe, nomeadamente os kulaks condenados em 1930 e os contrarrevolucionários de 1936-38.

Os campos de trabalho no sistema correcional

Comecemos com a pergunta 1 sobre o sistema correcional soviético. Depois de 1930 o sistema correcional soviético compreendia prisões, campos de trabalho e colônias de trabalho do Gulag, zonas especiais abertas e pagamento de multas. Aquele que recebesse voz de prisão era geralmente colocado numa prisão normal enquanto se faziam as investigações que poderiam demonstrar a sua inocência e dar-lhe liberdade ou levar o caso a julgamento. O acusado levado a julgamento podia ser considerado inocente e ganhar a liberdade ou caso fosse julgado culpado condenado a uma pena de multa, prisão ou em casos mais raros, pena de morte. A pena de multa podia ser uma certa percentagem do salário durante um certo tempo. Os acusados julgados a pena de prisão podiam ser postos em diferentes tipos de prisão dependendo do tipo de crime.

Para os campos de trabalho Gulag iam os criminosos de crimes graves (homicídio, roubo, violação, crimes econômicos, etc.) e uma grande parte dos condenados por atividades contrarrevolucionárias. Outros criminosos com pena superior a três anos podiam também ser postos em campos de trabalho. Depois de um tempo num campo de trabalho o preso podia ser mudado para uma colônia de trabalho ou uma zona especial aberta. Os campos de trabalho eram zonas muito grandes onde os condenados viviam e trabalhavam debaixo de um grande controlo. Trabalhar e não ser um peso para a sociedade era coisa evidente, nenhuma pessoa saudável passava sem trabalhar. Pode ser que alguém hoje em dia pense que isto é terrível, mas esta era a realidade. O número de campos de trabalho era de 53 em 1940. As colônias de trabalho do Gulag eram 425, unidades muito mais pequenas que os campos de trabalho e com um regime mais livre e com menos controlo. Para aí iam os presos com penas de prisão mais pequenas, tanto de delito comum ou políticos, trabalhando em liberdade em fábricas e na agricultura que eram uma parte da economia da sociedade civil. Na maioria dos casos o salário desses trabalhos revertia por inteiro ao condenado, em igualdade com os outros trabalhadores. As zonas especiais abertas eram em geral zonas agrícolas para as quais eram exilados os kulaks que tinham sido expropriados durante a coletivização. Outros condenados por penas menores ou atividades contrarrevolucionárias podiam também cumprir as penas nestas zonas.

454 mil e não 9 milhões!

Segunda pergunta. Qual era o número de presos “políticos” e de delito comum? A questão inclui os presos nos campos de trabalho e nas colônias de trabalho do Gulag e nas prisões, ainda que tendo em conta que a privação da liberdade nas colônias de trabalho era na maioria dos casos reduzida. Vejamos os números do quadro abaixo do material da AHR respeitante ao período de vinte anos a começar em 1934 quando o sistema correcional foi reunido numa administração central e até 1953 quando Stalin morreu.

Tabela de The American Historical Review

Da tabela acima há uma série de conclusões a tirar. Para começar podemos comparar os números da tabela com os de Robert Conquest. Este diz-nos que em 1939 havia 9 milhões de presos políticos nos campos de trabalho e que 3 milhões mais tinham morrido durante o período de 1937-39. Não esqueça o leitor que os números de Conquest se referem apenas a presos políticos! Além desses, diz-nos Conquest que havia os presos de delito comum que segundo ele eram em muito maior número que os “políticos”. Em 1950 havia segundo Conquest 12 milhões de presos políticos! Com os fatos na mão podemos ver agora o falsificador que este Conquest na realidade é. Não há um único número que corresponda à realidade. No ano de 1939 havia em todos os campos, colônias e prisões cerca de 2 milhões de presos. Desses eram 454 mil condenados por crimes políticos e não 9 milhões como Conquest afirma. Os mortos nos campos de trabalho de 1937 a 1939 foram cerca de 160 mil e não 3 milhões como diz Conquest. No ano de 1950 havia nos campos de trabalho 578 mil presos por crimes políticos e não 12 milhões. Não esqueça o leitor que este Robert Conquest ainda hoje é uma das fontes mais importantes da propaganda da direita contra o comunismo. Para os pseudointelectuais da direita Conquest é como um deus. No que diz respeito aos números de Alexander Solzhenitsyn, os 60 milhões de mortos nos campos de trabalho, não há necessidade de comentários, o ridículo da afirmação é evidente. Só uma mente enferma pode afirmar tais fantasias.

Deixemos agora os falsificadores e façamos uma análise concreta das estatísticas do Gulag. A primeira questão que se põe é o que pensar do número de pessoas no sistema correcional. Que significado tem o número mais alto de 2,5 milhões? Cada pessoa posta em prisão é um testemunho de que a sociedade ainda não se desenvolveu para poder dar a cada cidadão o necessário para uma vida positiva. Vendo as coisas desta maneira são os 2,5 milhões uma nota negativa para a sociedade.

A ameaça interna e externa.

Mas ao número de pessoas abrangidas pelo sistema correcional tem que ser dada uma explicação mais concreta. A União Soviética era um país que recentemente tinha deixado o feudalismo e a herança social no que diz respeito ao valor humano era muitas vezes um peso para a sociedade. No sistema antigo com os Czares, os trabalhadores eram obrigados a viver numa miséria profunda e a vida humana não tinha muito valor. Roubos e crimes violentos eram punidos com uma violência sem limites. Revoltas contra a monarquia acabavam usualmente com massacres, condenações à morte e penas de prisão muito grandes. Estas relações sociais e a maneira de pensar com elas relacionada leva muito tempo a mudar, tendo isto influenciado o desenvolvimento da sociedade na União Soviética e também a criminalidade no país.

Outro fator a ter em conta é que a União Soviética, um país que nos anos trinta tinha cerca de 160-170 milhões de habitantes, estava fortemente ameaçada por potencias estrangeiras. Na base das grandes mudanças políticas na Europa na década de 1930, vinha a principal ameaça de guerra da Alemanha nazi, ameaça contra a sobrevivência dos povos eslavos, constituindo também as democracias ocidentais um bloco com intenções intervencionistas. Esta situação muito séria foi resumida por Stalin em 1931 com as seguintes palavras “Estamos atrasados entre 50 a 100 anos em relação aos países avançados. Temos que percorrer esta distância em 10 anos. Ou o fazemos ou seremos arrasados”. Dez anos depois, em 22 de Junho de 1941, a União Soviética era invadida pela Alemanha nazi e os seus aliados. A sociedade soviética foi obrigada a grandes esforços durante o decênio de 1930-40 sendo a maior parte dos recursos utilizados nos preparativos de defesa para a guerra contra os nazis. Isto fez com que as pessoas tivessem uma vida de trabalho sem grandes compensações a nível pessoal. A reforma de 7 horas de trabalho diário teve que ser retirada em 1937 e em 1939 eram quase todos os domingos dia de trabalho. Num período difícil como este em que uma grande guerra determinou o desenvolvimento social durante duas décadas, 1930 e 1940, uma guerra que custou à União Soviética 25 milhões de vidas perdidas e metade do país em cinzas, aumentou a criminalidade quando as pessoas tentavam obter aquilo que a vida não lhe podia dar.

Durante este tempo muito difícil na União Soviética havia como máximo 2,5 milhões de pessoas no sistema correcional ou seja 2,4 % da população adulta. Como se poderá avaliar este número? É muito ou pouco? Façamos uma comparação.

Mais presos nos EUA.

Por exemplo nos Estados Unidos da América, um país com 252 milhões de habitantes em 1996, o país mais rico do planeta que consome sozinho 60% dos recursos mundiais, quantas pessoas há no sistema correcional? Qual é a situação neste país que não é ameaçado por nenhuma guerra e onde não existem mudanças sociais que possam ameaçar a estabilidade econômica? Numa notícia (bem pequena) nos jornais em Agosto de 1997, do serviço de notícias FLT-AP dizia-se que nos EUA “Nunca anteriormente tinham existido tantas pessoas no sistema correcional como 5,5 milhões em 1996”. Isto representa um aumento de 200 mil pessoas desde 1995 o que faz com que o número de criminosos nos EUA “seja 2,8% da população adulta”. Estes dados vêm todos do departamento de justiça norte-americano. O número de pessoas condenadas como criminosas nos EUA é hoje superior em 3 milhões ao que foi o máximo na União Soviética! Na União Soviética houve no máximo 2,4% da população adulta condenada por crime – nos EUA estão condenados 2,8% e a quantidade continua a crescer! Segundo um comunicado à imprensa do departamento de justiça dos EUA de 18 de Janeiro de 1998, aumentou o número de presos nos EUA em 1997 com 96.100 pessoas.

E no que diz respeito aos campos de trabalho soviéticos é verdade que era um regime duro e difícil para os presos, mas veja-se bem como é hoje a situação nas prisões nos EUA onde por todo o lado existe violência, drogas, prostituição e escravatura sexual (290.000 violentados por ano nas prisões dos EUA). Ninguém se sente em segurança nas prisões nos EUA! Isto num tempo moderno na sociedade mais rica de sempre!

Um fator importante – falta de medicamentos.

Respondamos agora à pergunta número 3. Quantos foram os mortos nos campos de trabalhos? Os casos de morte nos campos de trabalho variaram muito de ano para ano, de 5,2% em 1934 a 0,3% em 1953. Os casos de morte nos campos de trabalho eram causados pela falta de recursos na sociedade, em primeiro lugar falta de medicamentos para combater epidemias. Este problema não era especifico dos campos de trabalho, existindo igualmente na sociedade em geral como também na grande maioria dos países do mundo. Depois dos antibióticos terem sido descobertos e começado a ser utilizados depois da segunda guerra mundial, a situação modificou-se radicalmente. Na realidade os anos mais difíceis foram os anos de guerra quando o barbarismo nazi obrigou todos os cidadãos da União Soviética a viver uma vida muito dura. Durante estes quatro anos morreram nos campos de trabalho mais de meio milhão de presos o que é mais de metade de todos os mortos durante 20 anos. Não esqueçamos que no mesmo período, nos anos da guerra, morreram 25 milhões de pessoas na sociedade livre. Quando as condições na União Soviética melhoraram no decênio de 1950 e com o uso de antibióticos o número de mortos entre os presos diminuiu para 0,3%.

Vejamos agora a pergunta número 4. Quantos foram os condenados à morte até 1953 e em especial durante as depurações de 1937-38? Já vimos os números de Robert Conquest de 12 milhões de presos políticos que os bolcheviques teriam matado nos campos de trabalho de 1930 a 1953, dos quais 1 milhão em 1937-38. Os números de Solzhenitsyn são de dezenas de milhões de mortos nos campos de trabalho, dos quais 3 milhões foram mortos em 37-38. Mas ainda tem havido números mais elevados citados na propaganda suja contra a União Soviética. A russa Olga Shatunovskaia, por exemplo, dá-nos um número de 7 milhões de mortos nas depurações de 1937-38!

Mas os documentos dos arquivos soviéticos agora publicados dão-nos uma informação diferente. É preciso dizer em primeiro lugar que os números dos condenados à morte se encontram em vários arquivos e que os investigadores, para nos darem um resultado aproximativo, são obrigados a recolher dados desses arquivos com um certo risco de contagem dupla e portanto de darem um número maior de o que foi na realidade. Segundo Dmitri Volkogonov, o chefe dos anteriores arquivos soviéticos nomeado por Yeltsin, foram condenados à morte 30 514 pessoas por tribunais militares de 1 de Outubro de 1936 a 30 de Setembro de 1938. Uma outra informação que agora existe vem da KGB. Segundo uma informação à imprensa em Fevereiro de 1990 tinham 786 098 pessoas sido condenadas à morte por crimes contra a revolução durante os 23 anos de 1930 até 1953. Desses condenados tinham, segundo a KGB, 681 692 sido condenados em 1937-38. Não há possibilidade de fazer um controle das informações que a KGB nos dá, mas esta última afirmação é duvidosa. Seria muito estranho tantos condenados em dois anos. Será que a atual KGB pró-capitalista nos dá uma informação correta da KGB pró-socialista? Em todo o caso veio-se a verificar que as estatísticas que estão na base da informação da KGB mostram que o número mencionado de condenados à morte durante esses 23 anos se refere a criminosos de delito comum e contrarrevolucionários e não apenas a contrarrevolucionários como a KGB pró-capitalista referiu na informação à imprensa em Fevereiro de 1990. Dos arquivos tira-se também a conclusão de que o número de criminosos condenados à morte era aproximadamente igual para os de delito comum e os contrarrevolucionários.

A conclusão a que podemos chegar é de que o número de condenados à morte em 1937-38 foi de cerca de 100 mil e não de vários milhões como tem sido apresentado na propaganda ocidental. É preciso também ter em conta que nem todos os condenados à morte na União Soviética eram executados. Uma grande parte passava a pena de prisão nos campos de trabalho. Também é importante fazer uma diferença entre criminosos de delito comum e contrarrevolucionários. Muitos dos condenados à morte eram criminosos condenados por crimes violentos como assassínio ou violação. Este tipo de crime era há sessenta anos penalizado com sentença de morte numa grande parte dos países do mundo

Pergunta número 5 – Qual era em geral o tempo de prisão? O tempo de prisão dos condenados é uma das questões em que os rumores da propaganda ocidental têm sido dos piores. A descrição geral é de que estar preso na União Soviética significava anos sem conta na prisão – quem para lá entrava já não saía. Isto é completamente falso! A grande maioria dos presos no tempo de Stalin, na realidade foram condenados no máximo a 5 anos de prisão!

A estatística de AHR dá-nos fatos concretos. Os criminosos de delito comum na Federação russa em 1936 receberam as seguintes penas de prisão – até 5 anos, 82,4% – de 5 a 10 anos 17,6%. (10 anos – pena máxima de prisão até 1937). Os criminosos políticos condenados na União Soviética em tribunais civis em 1936 receberam as seguintes penas de prisão – até 5 anos, 44,2% – de 5 a 10 anos 50,7%. No que diz respeito aos condenados nos campos de trabalho Gulag, onde as penas maiores eram cumpridas, a estatística de Janeiro de 1940 é a seguinte – até 5 anos,56,8% – de 5 a 10 anos, 42,2% – mais de 10 anos, 1,0%. Para o ano de 1939 temos estatísticas dos tribunais da União Soviética. A distribuição das penas de prisão é a seguinte – até 5 anos, 95,9% – de 5 a 10 anos. 4,0% – mais de 10 anos, 0,1%. Como vemos é a suposta infinidade do tempo de prisão na União Soviética, mais um mito espalhado no ocidente para combater o socialismo.

As mentiras sobre a União Soviética.
Uma breve discussão sobre os relatórios dos investigadores.

As investigações dos historiadores russos revelam uma realidade totalmente diferente da que tem sido ensinada nas escolas e universidades do mundo capitalista durante os últimos cinquenta anos. Durante esses cinquenta anos de guerra fria têm várias gerações aprendido só mentiras sobre a União Soviética e isto tem deixado marcas profundas em muitas pessoas. Este fato constatado também se verifica nos relatórios dos investigadores franceses e americanos. Nestes relatórios são-nos dados números e tabelas de presos e mortos, discutindo-se esses números num trabalho de grande amplitude. Mas o principal e mais importante, isto é, os crimes praticados pelos presos, nunca é alvo de uma discussão séria! A propaganda política dos capitalistas tem-se referido sempre aos presos na União Soviética como sendo vítimas e os investigadores utilizam este termo sem pôr em questão a sua veracidade. Quando os investigadores passam das colunas de estatística aos comentários sobre os acontecimentos, vêm as concessões burguesas à luz e o resultado é por vezes macabro. Os condenados no sistema correcional soviético são chamados vítimas, mas o fato é que a maioria eram ladrões, assassinos, violadores, etc. Criminosos deste calibre nunca seriam tratados como “vítimas” na imprensa se os crimes fossem cometidos na Europa ou nos EUA. Mas como os crimes foram cometidos na União Soviética tudo é possível. Chamar “vítima” a um assassino ou violador que repete o crime é coisa muito suja. Uma tomada de posição pela justiça soviética no que diz respeito aos criminosos de delito comum condenados por crimes violentos deveria de ser consequente, senão no tipo de pena pelo menos na questão da condenação do crime.

Os kulaks e a contrarrevolução

No que diz respeito aos contrarrevolucionários é também importante discutir os crimes de que foram acusados. Discutamos dois exemplos para mostrar o fundo da questão, em primeiro lugar os kulaks condenados no começo da década de 1930 e depois os conjurados e contrarrevolucionários condenados em 1936-38. Segundo os relatórios publicados sobre os kulaks, os camponeses ricos, foram 381 mil famílias ou seja cerca de 1,8 milhões de pessoas condenadas a exílio. Uma pequena parte dessas pessoas foi condenada a penas nos campos de trabalho ou em colônias de trabalho. Mas qual foi a causa da condenação desses kulaks?

O camponês rico russo, o kulaks, sujeitou os camponeses pobres durante centenas de anos a uma opressão sem limites e a uma exploração sem considerações. Dos 120 milhões de camponeses em 1927, viviam 10 milhões de kulaks na abundância e os restantes 110 milhões ainda na pobreza – antes da revolução na mais completa das misérias. A riqueza dos kulaks vinha do trabalho mal pago aos camponeses pobres. Quando os camponeses pobres se começaram a juntar em coletivos agrícolas desapareceu a principal fonte de riqueza dos kulaks. Mas os kulaks não desistiram, tentando retomar a exploração através da fome. Grupos de kulaks armados atacavam os coletivos agrícolas, matavam camponeses pobres e funcionários do partido, deitavam fogo aos campos e matavam os animais de trabalho. Provocando a fome entre os camponeses pobres os kulaks tentavam garantir a continuação da pobreza e da sua posição de poder. Os acontecimentos que se sucederam não foram o que os assassinos tinham pensado. Desta vez os camponeses pobres foram apoiados pela revolução e mostraram-se mais fortes do que os kulaks, os quais foram derrotados, presos e condenados a exílio ou a penas em campos de trabalho.

Dos 10 milhões de kulaks foram 1,8 milhões condenados. Houve talvez injustiças nesta enorme luta de classes nos campos soviéticos que contava com 120 milhões de pessoas. Mas poderemos acusar os pobres e os oprimidos, na sua luta por uma vida que valha a pena viver, na sua luta para que os filhos não viessem a ser analfabetos com fome, de não serem civilizados ou clementes nos seus juízos? Podem-se acusar os que durante centenas de anos nunca tiveram acesso aos avanços da civilização de não serem civilizados? E digam-nos, quando foi a classe exploradora dos kulaks civilizada ou clemente para com os camponeses pobres durante anos e anos de exploração sem fim?

As depurações de 1937

O nosso segundo exemplo, sobre os contrarrevolucionários condenados nos julgamentos de 1936-38 depois das depurações no partido, exército e no aparelho estatal, tem raízes na história do movimento revolucionário na Rússia. Milhões de pessoas participaram na luta vitoriosa contra o Czar e a burguesia russa, vindo muitos deles a entrar para o partido comunista. Entre todas essas pessoas havia infelizmente os que tinham entrado para o partido por outras razões do que para lutar pelo poder proletário e pelo socialismo. Mas a luta de classes era tal que muitas vezes não havia tempo nem possibilidades para pôr à prova os novos militantes. Até mesmo militantes de outros partidos que se diziam socialistas e que tinham combatido o partido bolchevique foram aceites no partido comunista. A uma parte desses novos militantes foram dados postos importantes no partido bolchevique, estado e exército, tudo dependendo da sua capacidade individual para conduzir a luta de classes.

Eram tempos muito difíceis para o jovem estado soviético e a grande falta de quadros, ou simplesmente de pessoas que soubessem ler, obrigava o partido a não fazer grandes exigências no que diz respeito à qualidade dos novos militantes e quadros. De todos estes problemas formou-se com o tempo uma contradição que dividiu o partido em dois campos – de um lado os que queriam ir para a frente na luta pela sociedade socialista, por outro lado os que consideravam que ainda não havia condições para realizar o socialismo e que propunha uma política social democrática. A origem desta últimas ideias vinha de Trotsky que tinha entrado para o partido comunista em Julho de 1917. Trotsky foi com o tempo obtendo apoio de alguns dos bolcheviques mais conhecidos. Esta oposição unida contra os ideais bolcheviques originais era uma das opções na votação partidária sobre a política a seguir pelo partido, realizada em 27 de Dezembro de 1927. Antes desta votação tinha havido uma grande discussão partidária durantes vários anos e não houve dúvida quanto ao resultado. Dos 725 000 votos a oposição só obteve 6 000 – ou seja, menos de 1% dos militantes do partido apoiaram a oposição unida.

Em consequência da votação e uma vez que a oposição trabalhava por uma política diferente da do partido, o comité central do partido comunista decidiu expulsar do partido os principais dirigentes da oposição unida. A pessoa central da oposição, Trotsky, foi expulso da União Soviética. Mas a história da oposição não acabou aqui. Zinoviev, Kamenev e Evdokimov fizeram pouco depois autocrítica, assim como vários dos principais trotskistas como Piatakov, Radek, Preobrajenski e Smirnov. Todos esses foram novamente aceites como militantes do partido e retomaram os seus trabalhos no partido e no estado. Com o tempo verificou-se que as autocríticas da oposição não eram uma expressão verdadeira, estando os principais oposicionistas unidos do lado da contrarrevolução cada vez que a luta de classes endurecia na União Soviética. A maioria desses oposicionistas foi expulso e readmitido mais umas duas vezes antes de se ter formado a situação definitiva em 1937-38.

Sabotagem industrial.

O assassinato de Kirov em Dezembro de 1934, o presidente do partido em Leningrado e uma das pessoas mais importantes do comité central, veio a dar origem à descoberta de uma organização secreta que preparava uma conspiração para tomar posse da direção do partido e do governo do país através de um ato violento. A luta política que tinham perdido em 1927 queriam agora ganhá-la através de violência organizada contra o estado. A organização tinha uma rede de apoios no partido, exército e aparelho estatal em todo o país, sendo as atividades mais importantes sabotagem industrial, terrorismo e corrupção. Trotsky, o principal inspirador da oposição dirigia as atividades do estrangeiro. A sabotagem industrial causava uma perda terrível para o estado soviético, com um custo econômico enorme como por exemplo máquinas importadas que se estragavam sem possível reparação, e uma enorme baixa na produtividade nas minas e fábricas.

Uma das pessoas que em 1939 descreveu o problema foi o engenheiro americano John Littlepage, um dos especialistas estrangeiros contratados para trabalhar na União Soviética. Littlepage trabalhou 10 anos na indústria mineira soviética, entre 1927 e 1937, principalmente nas minas de ouro. No seu livro “In search of Soviet gold” escreve, “Eu nunca tive interesse pela subtilidade das manobras políticas na Rússia enquanto as podia evitar; mas tive que estudar o que acontecia na indústria Soviética para poder fazer um bom trabalho. E estou firmemente convencido de que Stalin e os seus colaboradores levaram muito tempo até descobrir que os comunistas revolucionários descontentes eram os seus inimigos mais perigosos”. Littlepage escreveu também que a sua própria experiência confirmava as declarações oficiais de que uma conspiração conduzida do exterior se utilizava de uma grande sabotagem industrial como uma parte de um processo para fazer cair o governo. Já em 1931 Littlepage tinha sido obrigado a constatar isso durante um trabalho nas minas de cobre e chumbo no Ural e no Cazaquistão. As minas eram uma parte do grande complexo de cobre-chumbo cujo chefe máximo era Piatakov, o vice comissário do povo para a indústria pesada. O estado das minas era catastrófico no que diz respeito à produção e ao bem estar dos trabalhadores. A conclusão de Littlepage foi de que havia uma sabotagem organizada proveniente da direção superior do complexo de cobre-chumbo.

O livro de John Littlepage dá-nos também a conhecer de onde a oposição trotskista recebia o dinheiro necessário para pagar a atividade contrarrevolucionária. Vários membros da oposição secreta utilizavam os seus postos na União Soviética para aprovar a compra de máquinas de certas fábricas no estrangeiro. Os produtos aprovados eram de uma qualidade muito baixa mas eram pagos pelo governo soviético ao preço mais alto. As fábricas estrangeiras davam à organização de Trotsky no estrangeiro o ganho econômico de tais transações, em troca do qual Trotsky e os seus conjurados na União Soviética continuavam a fazer mais compras dessa fábricas.

Roubo e corrupção.

Este procedimento foi constatado por Littlepage em Berlin na primavera de 1931 quando da compra de elevadores industriais para as minas. A delegação soviética era chefiada por Piatakov, sendo Littlepage o especialista encarregado de verificar a qualidade dos elevadores e aprovar a compra. Littlepage descobriu a fraude com os elevadores de má qualidade, inúteis para a União Soviética, mas quando comunicou o fato a Piatakov e aos outros membros da delegação soviética foi recebido de uma maneira fria como se quisessem fugir aos fatos e continuando a exigir que ele aprovasse a compra dos elevadores. Littlepage não aprovou. Na altura pensou que o que se passava era uma questão de corrupção pessoal e que os membros da delegação recebiam subornos da fábrica de elevadores. Mas depois de Piatakov, no julgamento de 1937, ter confessado a sua ligação à oposição trotskista, Littlepage foi obrigado a constatar que o que ele tinha observado em Berlim era muito mais do que corrupção a nível pessoal. O dinheiro em causa era destinado ao pagamento das atividades da oposição secreta na União Soviética, atividades essa que compreendiam sabotagem, terrorismo, subornos e propaganda.

Zinoviev, Kamenev, Piatakov, Radek, Smirnov, Tomsky, Bukharin e outros tão queridos à imprensa ocidental burguesa, utilizavam-se dos postos que o povo soviético e o partido lhes tinha dado, para roubar dinheiro ao estado, para que esse dinheiro fosse utilizado pelos inimigos do socialismo no estrangeiro na sabotagem e no combate à sociedade socialista na União Soviética.

Planos para golpe de estado.

O tipo do crime no que diz respeito a roubo, sabotagem e corrupção é um crime sério, mas as atividade da oposição iriam muito mais longe. A conspiração contrarrevolucionária preparava-se para tomar o poder com um golpe de estado no qual toda chefia soviética seria eliminada, começando pelo assassínio das pessoas mais importantes do comité central do partido comunista. A parte militar do golpe de estado seria realizada por um grupo de generais encabeçado pelo marechal Tukhachevsky. Segundo Isaac Deutscher, o trotskista que escreveu muitos livros contra Stalin e a União Soviética, o golpe de estado seria iniciado com uma operação militar contra o Kremlin e contra as tropas mais importantes nas grandes cidades como Moscou e Leningrado. A conspiração era, segundo Deutscher, chefiada por Tukhachevsky em conjunto com Gamarnik, chefe dos comissários políticos do exército, o general Iakir, comandante de Leningrado, o general Ouborévitch, comandante da academia militar de Moscou e o general Primakov um dos chefes da cavalaria.

O marechal Tukhachevsky era um oficial do antigo exército czarista que depois da revolução se tinha passado para o Exército Vermelho. Em 1930 cerca de 10% dos oficiais, ou seja cerca de 4500, eram antigos oficiais czaristas. Muitos deles nunca tinham deixado as suas posições burguesas e esperavam na calada um oportunidade para lutarem por elas. A oportunidade apareceu quando a oposição se preparava para dar um golpe de estado. Os bolcheviques eram fortes mas as conspirações civil e militar também trataram de arranjar amigos fortes. Segundo a confissão de Bukharin no julgamento público em 1938, existia um acordo feito entre a oposição trotskista e a Alemanha nazi, no qual grandes regiões, entre elas a Ucrânia, seriam dadas à Alemanha nazi depois do golpe de estado contrarrevolucionário na União Soviética. Este era o pagamento exigido pela Alemanha nazi pelo apoio prometido aos contrarrevolucionários. Bukharin tinha sido informado deste acordo por Radek que sobre a questão tinha recebido uma diretiva de Trotsky. Todos estes conspiradores que tinham sido eleitos para altas posições, para chefiar, administrar e defender a sociedade socialista, trabalhavam na realidade para destruir o socialismo. Além do mais é preciso não esquecer que tudo isto se passou no decênio de 1930 quando o perigo nazista crescia sem parar e os exércitos nazistas punham a Europa a arder e preparavam uma invasão da União Soviética. Os conspiradores foram condenados à morte como traidores em julgamento público. Os culpados de sabotagem, terrorismo, corrupção, tentativa de assassínio e que queriam dar uma parte do país aos nazistas não podiam esperar outro fim. Chamar-lhes vítimas é um erro total.

Mais números mentirosos.

É interessante saber como a propaganda ocidental, através de Robert Conquest, tem mentido sobre as depurações no Exército Vermelho. Conquest diz no seu livro “O grande terror” que em 1937 havia 70000 oficiais e comissários políticos no Exército Vermelho e que 50% desses, ou seja 15.000 oficiais e 20000 comissários, tinham sido presos pela polícia política e que tinham sido executados ou aprisionados para o resto da vida nos campos de trabalho. Nesta afirmação de Conquest, aliás como em todo o livro, não existe nada de verdade. O historiador Roger Reese no seu trabalho “The Red Army and the Great Purges” dá-nos fatos e mostra o verdadeiro significado que as depurações de 1937-38 tiveram para o exército. O número de pessoas em posição de chefia no Exército Vermelho e na aviação, ou seja oficiais e comissários políticos, era de 144 300 em 1937 crescendo para 282 300 até 1939. Durante as depurações de 1937-38 foram despedidos 34300 oficiais e comissários por motivos políticos, mas antes de maio de 1940 já 11596 tinham sido reabilitados e reintegrados nos seus postos. Isto significa que durante as depurações de 1937-38 foram despedidos 22705 oficiais e comissários políticos (cerca de 13000 oficiais do exército, 4700 da aviação e 5000 comissários políticos) o que é 7,7% de todos os oficiais e comissários e não 50% como Conquest diz. Desses 7,7%, foi uma parte condenada como traidores, mas para a grande maioria o material histórico à disposição indica terem passado à vida civil.

Uma última pergunta. Os julgamentos de 1937-38 foram justos para com os acusados? Vejamos por exemplo o julgamento de Bukharin, o funcionário mais alto do partido que trabalhava para a oposição secreta. Segundo o embaixador americano em Moscou nessa altura, um conhecido advogado de nome Joseph Davies que esteve no tribunal durante todo o julgamento, foi permitido a Bukharin falar livremente durante todo o julgamento e expor o seu caso sem qualquer impedimento. Joseph Davies escreveu para Washington que durante o julgamento se mostrou que os acusados eram culpados “dos crimes que se comprovaram” e que “A opinião geral entre os diplomatas que assistiram ao processo é de que se provou a existência de uma conspiração muito grave”.

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4 comentários sobre “Mentiras sobre a história da URSS

  1. Ola amigo, primeiro gostaria de parabenizalo pelo artigo que esta muito bom, mais eu gostaria de saber se você tem com disponibilizar o link da própria The American Historical Review ou o nome do livro (registro) de onde foi retirada a tabela, agradeço a atenção e continue o bom trabalho.

    • Obrigado, amigo. Porém, o artigo é de autoria do sueco Mario Sousa.

      Pelo que pesquisei aqui, a edição do The American Historical Review usada por Mario Sousa foi a de número 98. O texto específico provavelmente foi o “Victims of the Soviet Penal System in the Prewar Years: A First Approach on the Basis of Archival Evidence”, de John Arch Getty, Gabor Tamas Rittersporn e Viktor Nikolaevich Zemskov.

    • Esse documentário foi feito na Letônia, um dos últimos países que glorifica o nazismo, a ponto de ter até paradas em homenagens a veteranos da Waffen SS. Como bem disse um deputado letão, a única coisa que ele “prova” é que a Letônia ainda é um país provinciano. Nem em círculos intelectuais de direita ele teve respaldo.

      Um documentário que diz que “Marx foi o único a defender o genocídio”. Além do texto distorcer completamente textos de Engels (e não de Marx, como anunciado), “weltstrum” jamais foi “holocausto”, é algo como “tempestade revolucionária”. Engels falava sobre a revolução capitalista e não socialista.

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